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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

MARIGHELLA: O SANTO SEM DEUS



Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Divulgação

Um Santo sem Deus. Foi assim que Antônio Cândido sintetizou o líder político Carlos Marighella em seu depoimento para o documentário Marighella (http://www.facebook.com/marighella), que estreou no dia 10 de agosto nas salas de cinema do país. No próximo dia 31 de agosto, será a vez da capital mineira receber a produção; fruto do sonho afetivo da sobrinha do grande revolucionário, a documentarista Isa Ferraz.

O Hélio: Se você fechar seus olhos nesse momento pensando no seu tio, o que chega em primeiro lugar na mente?


ISA FERRAZ: Lembro da presença física dele na minha casa de criança, que era muito forte. Ele tinha mesmo um grande carisma, ocupava a casa toda, cheio de alegria e carinho.


O Hélio: Qual é a importância, para a mentalidade brasileira, das atuações de Carlos Marighela?


ISA: Acho que a grande contribuição de Marighella para o país foi a de ter dado a vida por uma ideia. Ele queria o socialismo e via isso de uma maneira muito ampla: um socialismo mulato, bem brasileiro, com justiça e igualdade, e muita festa. Outra coisa importante foi o fato de ele ter tido a coragem de ir mudando seu pensamento e sua ação de acordo com o tempo em que viveu. Marighella não ficou parado, sectário, fixado em uma ideia. Ele estudou e entendeu o Brasil, mas o Brasil dentro de um contexto latino-americano e mundial.


O Hélio: Acredita que, de que maneira elas ecoam na atuação política da juventude brasileira e mundial?


ISA: Ecoou muito, tanto aqui quanto em outras partes do mundo, principalmente na Europa do final dos anos 60, início dos 70. Mas ele foi silenciado. Seu nome tornou-se maldito. Hoje renasce um interesse por esse homem-mito, cujo nome tem ecoado em várias partes, muito com a contribuição do rap composto por Mano Brown para o filme.

O Hélio: Quando a luta armada passou a ser a única opção de lutar pelo país para Marighella?

ISA: Ele lutou por 40 anos por um Brasil melhor, e tentou as mais variadas formas de luta. Fez muito trabalho de massa, escreveu jornais, livros e poemas, dirigiu revistas, foi deputado estadual eleito pela Bahia em 1946, enfim, tentou de tudo. A luta armada surge como uma última tentativa em função de uma situação muito violenta de ditadura militar, com prisões, torturas, censura, mortes, e dentro de um contexto histórico mundial no qual tínhamos Cuba, Argélia, Vietnã, movimentos negros nos EUA, movimentos estudantis no mundo todo. Só se pode entender a opção de Marighella se se analisa tudo isso. Ele não era um louco que gostava de pegar em armas. Viveu clandestino por décadas e pagou caro por tudo isso.


O Hélio: Percebi na montagem do seu documentário, um olhar familiar íntimo extremamente sensível e cuidadoso. O filme parece ter 15 minutos e mantêm uma adrenalina incrível, né?

ISA: Obrigada. A história tem muita energia, Marighella é um grande personagem.


O Hélio: Como se deu o seu interesse para filmar a memória do seu tio? Desde sempre ou isso        se estalou dentro de você em um determinado momento da sua vida?


ISA: Venho pensando nesse documentário há muitos anos. Fiz um primeiro roteiro em             1986, mas não consegui recursos para o filme. Com a proximidade do centenário de            Marighella – que, se vivo, completaria 100 anos em 5 de dezembro do ano passado –   achei que havia chegado a hora. Ao todo, foram mais ou menos 3 anos de muito    trabalho, com uma equipe pequena, mas muito boa.

O Hélio: Pretende replicar cópias do documentário para departamentos de História das             universidades brasileiras?


ISA: Sim, vamos preparar o dvd com alguns extras e distribuir.
           

domingo, 26 de agosto de 2012

DRICA CARNEIRO: ENGOLIR O MUNDO SOZINHA



Por Pedro Paulo Rosa
Foto: divulgação

            Drica Carneiro para o seu movimentado cotidiano para conversar com O HÉLIO. Equilibrando as demandas do Cinema Para Todos e a do cineclube que ajudou a fundar, o promissor projeto Buraco do Getúlio (em Nova Iguaçu). Conversamos sobre as diferentes nuances da juventude e a maneira pela qual as autarquias federais encaram os cineclubes e a dificuldade da conhecida bitola que obstaculiza a penetração do cinema nacional nos municípios do interior do estado Fluminense.  No passado, entre conversas com a árvore chamada Camila, em seu colégio de ensino médio, hoje, Drica continua pensando o audiovisual e a tomada de espaços na cidade. Podemos entendê-la como produtora cultural. No entanto, sua paixão é o cineclube – o encontro.

O HÉLIO: Você fez o segundo grau no colégio Adolpho Bloch, não foi?

DRICA CARNEIRO: Fiz ensino médio lá de produção em audiovisual. No Adolpho fiquei muito tempo lendo um livro debaixo de uma árvore que se chamava Camila. Demorei um ano e meio para me relacionar com alguém lá dentro, muito por pretensão minha. Achava que as pessoas não iam conseguir me entender. Mas, aí comecei a tomar cerveja e a me relacionar com as pessoas (risos). Na FAETEC, conheci o Bion (Diego), com quem fundei o Buraco do Getúlio. Ele de cara me levou pra participar das reuniões da Quarta Cúpula Mundial de Mídia, que aconteceu em 2004 aqui no Rio de Janeiro. Eram reuniões sobre política, sobre mídias da criança e do adolescente na perspectiva da produção. Isso tudo durante a FAETEC, durante o colégio Adolpho Bloch. Dali, fui para o Geração Futura (projeto audiovisual do Canal Futura) e tudo virou uma roda gigante maravilhosa.

O Hélio: E vem cá, isso era pensado? Como se construiu em você uma menina que queria cinema?

DRICA: Foi uma fase meio doida. Minha mãe é uma militante da saúde pública. Desde que ela se entende por gente batalha por isso. Ela optou pela saúde, fez o técnico em enfermagem. Depois, conseguiu a graduação. Agora, com 50 anos, ela conseguiu concluir o mestrado com recomendação do doutorado. Tudo na saúde pública! Nessa fase, para mim já era muito claro que eu não conseguiria ficar estudando numa escola do meu bairro. Porque achava o ensino muito ruim mesmo. Queria muito também fazer uma faculdade pública. Não estava procurando faculdade de bairro, entende? Daí, estudei e passei para a escola da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz, no Rio) e a ganhar grana para estudar. Mas, recusei. Falei: “não vou fazer isso”. O olho da minha mãe encheu d’água. Ainda mais porque passei na terceira reclassificação! Nessa época, tinha uns treze anos.

O Hélio: Aí você vai e escolhe o cinema; por quê?

DRICA: Na verdade, escolhi pelo audiovisual. Não é a mesma coisa cinema e audiovisual. Produzi milhares de vezes e ajudei um assistente de alguém num filme de 35 mm na faculdade. Essa galera da minha geração começou a discutir o vídeo, entende? Somos uma geração baixinhos, uma geração da televisão. Quando batia lá na Quarta Cúpula Mundial de Mídia, com meus dezesseis anos, a gente já era contra muita coisa que assistíamos na televisão. Sabe, em Padre Miguel, em Realengo se brinca na rua. Nasci em Caxias, né? Minha família é uma saga. Saímos de Caxias, passamos por Bento Ribeiro, passamos por Marechal Hermes. Nossa saga é entre a Baixada Fluminense e a Zona Norte. Hoje, estou no Rio Comprido. No final do meu ensino médio, já trabalhava no SESC, projetava super oito (um tipo de câmera) num cineclube e dava aula na Mangueira (favela carioca). Daí, me desliguei de tudo e fiquei estudando seis meses para entrar em Federal e aí veio a UFF. O Bion, lá na FAETEC, era uma das poucas pessoas com as quais eu falava.

O Hélio: Parecem dois mundos, e talvez sejam, essa coisa do cinema que é produzido nos cineclubes e o cinema exibido aqui em cima no cine Odeon. Queria que você nos esclarecesse sobre essas possíveis distâncias e diferenças. Você tem uma utopia de que isso mude ou não? Isso não tem que ser igual?

DRICA: Acho que o cinema brasileiro, de fato, vive um grande momento. Os nossos amigos estão trabalhando, ainda que sejam subaproveitados porque não tenham a formação necessária ou não conheçam a pessoa certa; ou porque não tenham um sobrenome conhecido. E grandes nomes hoje da cultura carioca que usam esse argumento da periferia, usam as pessoas da periferia só para aqueles espaços convenientes que a gente conhece bem. Isso acontece aos montes. A gente está com dois filmes em cartaz no Odeon, por exemplo. A gente tem filme em cartaz. Trabalho no Cinema Para Todos e monitoramos isso. Isso é um ponto positivo. O que eu penso é que tem que estimular e valorizar nossos espaços. Vamos buscar novas janelas. Se tem uma coisa em que acredito, é que a gente tem que ocupar os espaços. Se não houver luta por isso, não trabalhar nos lugares da cultura, se a gente não brigar por isso, não estudar para entrar nos cursos...essa é uma coisa que não vou deixar de fazer, o que pode me acarretar grandes problemas. (risos). O modelo de cinema não precisa ser idêntico ao modelo cineclube, que é um modelo colaborativo, onde as pessoas podem sugerir o que vão assistir. Podem entregar seus DVDs, suas mídias. Talvez precisemos solidificar o nosso público. Unir. Acho que assim entenderemos os pontos de exibição como força.

Drica Carneiro e Pedro Paulo Rosa


O Hélio: Então, filme de cineclube é diferente de filme de cinema?

DRICA: Não sei, não sei... (risos) Tenho sérias dúvidas.

O Hélio: É que fico pensando... aquelas pessoas que estão sentadas naquele bar ali. Certamente, ali tem gente de Curitiba, de São Paulo, de Brasília. E seria tão importante essa galera enxergar o Rio de Janeiro tão múltiplo e diferente que os cineclubes como o Buraco do Getúlio produz, entende?

DRICA: Tem uma coisa muito importante na economia de cinema no estado do Rio de Janeiro. A gente tem 92 municípios do Estado e desses, 27 tem salas de cinema registradas pela ANCINE. Nesses outros dois terços, não há sala de cinema. Então, não só o filme brasileiro não chega aos interiores como também temos o problema da bitola. E eu estou falando só Rio porque é o universo que conheço. Isso acontece realmente. Filmes brasileiros que são lançados em digital não chegam em vários municípios do interior. Isso já restringe mais de 50% das salas, além da distribuição ser pequena. A cópia não consegue chegar por força da venda. Por isso que é fundamental que o cineclube exista. A dimensão política desse fenômeno reside aí. Não tem quem possa dizer hoje que não há público para o filme que a minha família, por exemplo, chama de cult. A dimensão política do cineclube é essa. Há público sim. Não é só a Xuxa que é bom de ser exibido. A ideia sobre trocar sobre cinema e conteúdos, a ideia de todos estarem juntos. Isso é cineclube e é cinema. Porque quando os grandes caras estavam fazendo filmes, eles estavam se divertindo também. A ANCINE precisa entender que o público do cineclube é um público sim, pode não ser o mesmo do cinema, mas é real.

O Hélio: Fala mais disso. Não é um corpo administrativo excessivo numa instituição que deveria, como premissa, ser uma curadora artística da sétima arte?

DRICA: Pois é, se fosse uma burocratização que beneficiasse, ok. O problema é que não resulta em nenhum benefício. Na resolução da regulamentação atual, que é facultativa, você tem que ter um CNPJ para abrir um cineclube como associação civil. Mas, poxa, você não vai abrir um CNPJ para ter um lugar que não vai te render nenhum real. E nem é para render mesmo. Eu, por exemplo, não tenho registro hoje porque não me traz benefício algum. Se você perguntar para a ANCINE quantos cineclubes existe no país, acho difícil eles conseguirem te dar um número.

O Hélio: Explica o cineclube Buraco do Getúlio, como isso começou, essa conquista tão grande?

DRICA: O Buraco, como todo cineclube, é um coletivo. Não sou a representante oficial, mas sou membro fundadora. A gente brinca que fundou o cineclube porque não tínhamos praia. Eu morava em Marechal Hermes e meus amigos em Nova Iguaçu. (risos) E começamos com aquele cinemão na veia, sabe? Estávamos esgotados dos cursos de televisão! Começamos exibindo filmes clássicos do cinema americano dos anos trinta, quarenta. A gente começou a exibir dentro de um bar chamado Ananias. E é pra lá que a gente voltou. Com o tempo, fomos melhorando a estrutura. O coletivo: eu, Bion, Luana, Elaine, enfim, somos muitos de meia dúzia! (risos) Então, continuamos a atividade e realizamos uma exibição semanal de um longa-metragem às terças-feiras.

O Hélio: Acho que quem mais pode responder isso é o jovem. Como você tem visto e analisado a juventude. Ou isso é um conceito que já caiu, a juventude?

DRICA: É...a juventude é um conceito novo. Minha mãe tem 50 anos e é mais jovem do que eu. A gente está vivendo também uma ditadura da juventude. É necessário ser jovem e permanecer jovem por muito tempo. E esse discurso tem uma série de repercussões e consequências. Você precisa virar jovem mais cedo e deixar de ser jovem mais tarde. Ao mesmo tempo, é inegável que o peso do trabalho e o pagar das contas e a independência têm. A juventude hoje tem que sair de casa. Saí de casa aos dezoito anos, consegui passar para UFF e o primeiro emprego que arranjei foi num festival de periferia chamado Visões Periféricas. Peguei essa grana, chamei uma amiga e fomos dividir um lugar para morar. Deixei minha família ensandecida, mas isso é importante. Sair de casa para entender outra dimensão. A gente cobra de um menino de 15 anos e, ao mesmo tempo, queremos que esse mesmo menino, aos 20, já tenha saído de casa e largado o vídeo game. Temos que rever essas ditaduras, embora eu concorde com algumas (risos). A estética se beneficia dessa ditadura da juventude, assim como a medicina ortomolecular também. O público do Buraco, por exemplo, é um público jovem. Mas, é uma galera de 17 anos para cima. Que abdicam de suas terças ou sábados para estarem lá tomando cerveja, vendo cinema. E hoje, os caras que seguram o mastro do Buraco do Getúlio, o Bion e a Luana, têm um filho. E têm também casa e contas. Tecnicamente, eles são adultos. Então, abdicar do seu sábado para carregar peso, projetor, investir grana ao invés de estar na balada ou sentado no sofá vendo TV, os torna jovens. E revolucionários. Acho que jovem tem a ver com liberdade de espírito. Por outro lado, a maturidade e a idade devem fazer melhor pra gente. Eu, pelo menos, quero engolir um mundo sozinha.

O Hélio: O que é engolir um mundo sozinha?

DRICA: É querer... (suspiros) Cara, vou te falar uma coisa, Pedro. É muito difícil achar esse lugar ao sol. É muito difícil achar não só porque ele realmente está muito longe das nossas histórias. A minha mãe demorou trinta anos para conseguir o dela. E eu também não sei se esses lugares existem. Não sei muito bem como são essas delimitações. Acho que tem muita gente de sessenta anos que tem um pensamento muito mais a frente do que muitas pessoas com as quais estudei na UFF e na vida.



O Hélio: Um sociólogo, talvez, falasse que isso tudo é porque o mundo é regido pela lógica do mercado. Porque as pessoas pensam com parâmetros econômicos quando refletem a arte, a educação, a saúde...

DRICA: Acho que esse sociólogo precisaria conhecer o Buraco do Getúlio. Mas, na verdade, a gente é regido por isso sim, né? Regidos pelo dinheiro corrente. A nossa subjetividade é individualizada. Somos treinados para isso há muito tempo pela televisão, pela escola, pelas igrejas. Ai, cara, acho perverso isso que as igrejas fazem com os nossos amigos. Acho perverso o que os partidos políticos fazem com os nossos amigos. Acho perverso o que a televisão faz com os nossos sobrinhos, por exemplo. Eu tenho muito medo, Pedro, do discurso que se coloca fora, entende? Se eu falei eles você me corrija. Nós somos assim também, concorda? É o que eu dizia lá no Adolpho Bloch, no meu ensino médio: ou você usa Mac ou você usa All Star. Se você não usa os dois, você usa Havaianas. A gente não tem muita escapatória. Por isso, viver, se torna tão difícil.



domingo, 19 de agosto de 2012

INGRID ZAVAREZZI: TUDO É UM COMEÇO DE MUNDO


Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Karen Ferreira 


    A roteirista e publicitária Ingrid Zavarezzi recebe O HÉLIO em seu apartamento. Lembra-se dos seus avôs – fulcrais para germinar na autora a aptidão para escrever. Dotada de extrema sensibilidade e apuramento artístico, Ingrid demonstra otimismo ao falar da atual juventude brasileira, a quem chama de tema principal da sua teledramaturgia. Envolvida, atualmente, com a pré-produção do seu primeiro longa-metragem baseado na histórica vivência da revolucionária Marilia Guimarães, Zavarezzi nos revela seu lado analítico, certeiro e que prioriza a valorização da ética, como ela mesma diz. Valores familiares, avós, Iphones, novos layouts e muito mais perpassam o universo criativo e múltiplo de Ingrid.

O HÉLIO: Queria começar te perguntando sobre a escolha dos seus temas; como é que você escolhe seus temas para escrever?

INGRID ZAVAREZZI: Eu gosto muito de escrever para os jovens, o meu nicho de mercado é escrever para os jovens. Assim, comecei escrevendo programa infantil “Turma da Hora”, na TV Manchete. Depois, eu fiz “Histórias da Noite”, que era para o Serginho Groissman, que também eram episódios que tinham uma pegada jovem porque era pro Altas Horas. Tenho uma filha de 24 anos. Mas, acho que ela ainda é um pouco adolescente. Acho que hoje a adolescência tardia vai até os trinta (risos). A minha casa vive cheia, a galera vem toda pra cá. E eu fico sempre ouvindo o que eles falam. A ansiedade deles, acho que é uma idade tão rica...crises existenciais e buscas. Acho que...o jovem é muito rico em temas para se trabalhar, gosto demais. A perspectiva de futuro do jovem, é tudo muito ansioso e urgente, né? Ele quer fazer tudo e agora. Fora a herança que cada um traz de seus pais. Então, são personagens que me atraem muito; a sexualidade latente. É um leque de sentimentos que o jovem traz em termos de personagens para trabalhar.

O Hélio: O que você acha que mudou da geração jovem dos anos 90 para cá?

INGRID: Acho que a internet e as redes sociais causaram uma mudança de comportamento. Não só no jovem. Acho que a internet mudou o mundo, a forma de fazer guerra, a forma de se relacionar. A forma de fazer amor, a forma de namorar. Mudaram as hierarquias familiares em função também da internet. Mudou o jeito de você trabalhar, de se relacionar com o seu chefe e com os seus colegas de trabalho! Então, o jovem mudou muito rápido; o mundo mudou muito rápido de uma maneira irreversível. Não tem mais o que era antes. Hoje, em termos de comunicação, para quem escreve dramaturgia, para quem produz entretenimento, tem que pensar a transmídia, em rede social, pensar na interatividade. O jovem está vendo a novela enquanto conversa com zilhões de pessoas pelo twitter. E é assim com tudo. É um novo jeito de se relacionar.

O Hélio: E você acha isso bom?

INGRID: Acho isso maravilhoso.  Não sou fatalista. (risos). Minha avó dizia que tudo era o fim do mundo. Lembro muito dela falando sobre essas coisas. Uma mulher que falasse palavrão, para minha avó, era o fim do mundo. Aí vem a pílula, “ai é o fim do mundo!” (risos). E eu acho que não. Na minha cabeça, tudo é um começo de mundo. Engraçado que, tenho 50 anos de idade, mas se sai alguma coisa nova, eu logo compro. Sou muito antenada com tudo o que sai, com tudo o que está sendo lançado em termos de tecnologia. Essa área da tecnologia da comunicação me atrai demais. Estou cercada de aparelhos eletrônicos. Durmo com o Iphone do meu lado, vou com ele para o banheiro! (risos)

O Hélio: Como você interpreta afirmações do tipo: “entrar para o clube de roteiristas da TV Globo é impossível. É tudo maçonaria de indicações”? Ou quando algumas pessoas reclamam de que, por exemplo, os autores de telenovelas estão muito idosos?

INGRID: Eu vejo aí dois aspectos, Pedro, que são muito importantes para as pessoas entenderem. Tanto a TV Globo quanto a TV Record são empresas produtoras de entretenimento. Uma novela é muito cara! Os escritores não estão velhos. O escritor vai envelhecendo, ele vai ficando cada vez mais competente e maduro. Nós temos grandes gênios trabalhando: O Manoel Carlos, o Aguinaldo (Silva), a Glória (Perez)... O que é a Glória? A Glória Perez é um gênio! Uma mulher que escreve uma novela sozinha! Ela tem uma mente prodigiosa. Então, não pode um menino de 18 anos de idade achar que ele vai escrever uma novela. Não vai, isso não existe. Ele precisa de experiência, tempo, cancha. Você tem que entender o produto e o processo produtivo. A responsabilidade imensa que é. Eu agora como autora principal da última temporada da Malhação. Menino, é uma loucura! É um produto de 20 minutos de duração, de segunda a sexta, e ele dá um trabalho gigantesco. Você lida com público o tempo todo, com ibope, com produtividade. Você imagina a novela das oito, que são 50 minutos. Eu tenho um break só, eles têm quatro! São quatro ganchos para eles escreverem, fora o gancho de fim. Eles são de segunda a sábado. Você sabe quanto custam trinta segundos de comercial na novela das oito? É muito dinheiro, tipo 300 mil reais, é por aí assim. Não tenho essa cifra exata. É muita responsabilidade. É um show business. É uma fábrica de sonhos a TV Globo. É um profissionalismo extremo; da passadeira até o nosso diretor de núcleo. Então, assim, são grandes profissionais. Não é fácil chegar lá, tem que estudar muito, ralar muito. O escritor é meio igual ao ator. O ator faz a CAL (Casa de Artes de Laranjeiras) e já acha que vai ser protagonista. Você tem que ter o dom, a estrela. Escrever é uma arte e uma técnica. Claro, você precisa da técnica também. Até porque, você está entrando na casa de 95 milhões de brasileiros, falando com jovens, com crianças, avós. Está falando com cidadãos, colocando ideias na cabeça deles. E isso é uma responsabilidade imensa! É um perigo. Você tem que estar muito ciente disso. Você está ali para entreter uma família que está passando por diversos tipos de problemas. Uma família que quer rir e desopilar o fígado! Que precisa ter auto-estima, que precisa acreditar que a vida dela vai mudar. Tornar as pessoas melhores. Eu que escrevo para os jovens, penso sempre assim: o jovem que não tem avó, é uma coisa muito séria.

A autora Ingrid Zavarezzi


O Hélio: Por que o jovem que não tem avó?

INGRID: A avó passa valores e éticas muito grandes. Essa coisa de ter amor pelos mais velhos e respeito é algo muito importante. O jovem hoje gosta de falar, falar e falar! Mas, é importante saber ouvir. Tem que ouvir. Minha avó dizia para mim, se a gente tivesse que falar mais, a gente teria duas bocas.

O Hélio: A sua família te influencia muito no seu processo criativo?

INGRID: A influência é muito grande, muito grande. Acho que a família é uma coisa que vai se perdendo, vai mudando. A mulher hoje tomou as rédeas, sabe? Ela vai, ela trabalha fora, trabalha na casa de família. Chega em casa, desce a porrada nos filhos. Minha empregada é assim. O filho dela foge para lan house e se ela chega em casa e sabe que ele foi para lan house escondido, ela dá nele com tampa de panela de pressão. (risos) Ele tem 14 anos, mas já está um homem. Sabe, e ela toma conta disso tudo sozinha. E são milhões de mães assim. Quer dizer, a gente precisa passar o valor de respeitar os mais velhos, de ser um bom cidadão. De tornar esse país melhor, acho que essa é a nossa função como escritores. Mas, aí, a gente estava falando sobre o segundo aspecto do jovem que quer escrever. Acho que o empreendedorismo nessa área é muito importante. Temos aí o webstorytelling , pelos aplicativos você faz livro, lança livro pela web. Sabe? Quem quer, faz. Quem quer, encontra caminhos. Encontra caminho para onde quiser, sabe? Se você quer ser astronauta, corre lá que você vai ser astronauta. Se você quer ser escritor, quer ser cidadão, leia, se aculture. Escreva! As pessoas têm preguiça. Escrevem errado demais. É um horror! Eu tinha uma personagem que se chamava Tia Leiloca, que era uma professora, uma senhorinha, um avatar, né? Ela xingava todo mundo que escrevia errado. E o pessoal mandava Tia Leiloca se foder! (risos).

O Hélio: Como você analisa o protagonismo da classe C? É importante para o seu trabalho?

INGRID: Eles estão aumentando o seu poder aquisitivo. Eles agora têm carro, computador, acessam a internet. Hoje, a internet é mais acessada pela classe C. Isso é fato, é estatística. Hoje, tem mais celular com acesso a internet do que gente. Outro dia foi engraçado, estava com minha filha indo à praia e fomos calibrar o pneu da bicicleta. E o rapaz que nos ajudou, enquanto enchia, falava ao celular com sotaque nordestino e ele dizia que o email não chegou para ele. Então, assim, estão muito conectados. Minha manicure, por exemplo, fica no celular, me pergunta se vi no facebook aquilo ou aquilo outro. E isso é bárbaro! Isso está mudando a nossa sociedade. A gente precisa gerar positividade.

O Hélio: Você é publicitária também.

INGRID: Sim, faço marketing político.

O Hélio: E como você lida com essa diferença de criar literariamente e criar um produto?

INGRID: (risos) Eu falo que eu faço poesia e bula de remédio. É exatamente isso, a poesia é a dramaturgia e a bula de remédio é a campanha política. E campanha política é isso, a gente não veste a camisa; eu não tenho nenhum partido político. Estou ali para eleger aquele candidato.

O Hélio: Você tem vergonha de dizer isso?

INGRID: Não, claro que não. É o meu trabalho. O publicitário não se envolve tanto. Na bula de remédio, você não se envolve. Sou totalmente cerebral. Na dramaturgia, sou totalmente coração.

O Hélio: Quem você destacaria como influência literária na sua vida?

INGRID: Teria que fazer uma lista pra você, é tanta coisa. Vai dos gregos à revista Ana Maria que custa noventa e nove centavos na banca de jornal. Vai de Shakespeare até Sabrina de um real. Sou uma mistura de tudo. E, voltando só um pouco a falar de família, minha mãe era judia polonesa fugida de campo de concentração e, tanto ela quanto meu pai, achavam que escrever não era profissão. Quem muito me influenciou foi o meu avô. Ele, quando eu tinha nove anos de idade, me deu uma máquina de escrever de presente. Me lembro que eu devorava livros e quando não gostava do final, escrevia outro e rasgava o final do livro e colava o meu final (risos). Meu avô era um poeta e ele sabia muito a fundo sobre literatura e poesia, embora ele fosse general do Exército. Ele lia Castro Alves e chorava. Ele que me ensinou a métrica. Me levava para Casa Colombo, passeava comigo pelo Rio de Janeiro. Me ensinava a história do Brasil nos lugares. Tinha um orgulho enorme de estar com ele! Ele que colocou a sementinha de escritor em mim. Perdi meu avô aos doze anos de idade. Fui fazer medicina; já quis ser atriz, comissária de bordo e meu pai sempre me dizendo: “isso é coisa de piranha, minha filha! Vai ser médica”.



O Hélio: Você deve ter muitos temas rondando a sua cabeça.

INGRID: Olha, tenho pavor de ter projetos em gaveta. Sou uma realizadora. Pego e faço. Nesse momento, estou me preparando para meu primeiro longa-metragem. Fui convidada pela Marilia Guimarães, minha sogra, mãe do Marcello (Guimarães). E ela tem uma história de vida extraordinária; aos 25 anos de idade e dois filhos pequenos sequestrou um avião para Cuba. No meio das mamadeiras tinha um revólver! (risos) Foi um sequestro que durou cinco dias com duas crianças pequenas e uma tensão gigantesca. Eles, a qualquer momento, poderiam ser mortos pela Ditadura Militar. É uma história linda. Ela escreveu um livro chamado Nesta Terra, Nesse Instante e me convidou para fazer esse roteiro da história dela. Então, vou escrever essa história!

O Hélio: Agora você me arrebatou! (risos) A Marilia é mãe do Marcello? Nossa!

INGRID: Sim, Pedro! (risos) Ela é maravilhosa, né? A Letícia Spiller já está confirmada no elenco. E vamos para as cabeças!

O Hélio: Novela e minissérie. Em termos de estética, quais as diferenças que você percebe no conceito mesmo da minissérie e da novela? Será que minissérie, de fato, não atinge a todos?

INGRID: Depende da proposta da obra. Existe mercado para tudo. Tudo é para quem é esse produto. A novela é uma obra aberta, pega a família toda na casa assistindo. Se esse é o seu público, o artista tem que ir onde o povo está. Agora, se o seu público é de 23 h, é diferente. Se for canal a cabo, mais diferente ainda. Muitas vezes, diretores realizam com uma expectativa que o público não corresponde. Quando comecei Malhação, cometi um erro. Porque não é um público que não acompanha sempre. O trabalho mudou isso, o engarrafamento, a internet. Tá todo mundo no trânsito, parado, engarrafado, chega em casa, vai para o computador, vai para o banho e depois vê a novelinha no youtube. Então, tive que mudar tudo no caminho. Então, não dá para você não dar para o seu público o que ele quer. Agora, eu gosto de tudo. Adoro Ana Maria Braga, Regina Casé, programa de auditório. Às vezes, estou no carro, ponho no funk, ponho na clássica. Não tenho preconceito não. Tenho que ouvir o que o povo está ouvindo.

O Hélio: Como roteirista e tele dramaturga, como você analisa a sua marca na escrita?

INGRID: Sou muito iconoclasta, emocional demais. Prezo muito os valores familiares, o valor do professor, o valor de uma universidade. O valor da ética mesmo. Escrevo para jovem, então, coloco os conflitos dele e prezo a ética. Não policio ninguém a seguir os meus pensamentos. Mas, sempre tento colocar mensagens bacanas. Outra marca minha é a agilidade no texto. Sai muito da boca dos personagens. Gosto de ver os personagens palpitando, sabe, Pedro? É  um hiperrealismo. E eu vejo uma nova geração de atores maravilhosa! Pessoal que vem da rua, pessoal da Bahia, de Pernambuco. Uma riqueza enorme de sensibilidades. Digo a eles que estudem, todo mundo tem que estudar. Leiam, leiam, leiam! Baixem os clássicos, está tudo de graça. Se aculturem, conversem, produzam. Hoje está cada vez mais fácil pra gente se comunicar e produzir. Produzam coisas boas, façam a sua parte, tornem esse mundo um lugar cada vez melhor de se viver.





terça-feira, 7 de agosto de 2012

ZECA FONSECA: O HOMEM JÁ ERA




Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Bia Willcox

Zeca Fonseca é um escritor de curtas conversas, impacto permanente em mentes ociosas que insistem em não perceber o fluxo da vida. Com influência da literatura gelada, de Bukowski e Nietzsche a Kafka, Zeca também considera ler Rubem Fonseca – por acaso, seu pai – e não acha Machado de Assis atraente. Numa conversa profunda e sincera, o escritor e fotógrafo Zeca Fonseca abre sua toca criativa niteroiense para falar ao O HÉLIO. Do papo, saem filosofias de vida, Pandemonium (atual livro do autor), política e muito sexo.


O Hélio: Qual a falta que você acha que mais move o ser humano, você?

ZECA FONSECA: Olha, em mim, o que mais sinto falta, é da minha mãe. Ela morreu quando eu tinha quarenta e poucos anos. Eu estou com 55. Você tem mãe?

O Hélio: Tenho.

ZECA: Porra, cara, aproveita. Agora, acho que, de uma maneira geral, no mundo o que mais falta, é uma coisa ligada à mãe. A família está sumindo. Não interessa ao capitalismo muita gente junta. Porque todo mundo junto, é uma geladeira só. Se separarem as pessoas, serão várias geladeiras. Imagina isso. O dinheiro é o que move o mundo, a cabeça das pessoas, o movimento das pessoas. Tudo acaba envolvendo isso. Você já reparou?

O Hélio: Acaba desaguando nisso…

ZECA: Desagua. A gente é vítima do sistema. Isso é uma coisa que está como carro chefe. Tudo tem sentimento. A gente costuma ignorar os sentimentos, mas eles estão aí.

O Hélio: Lá no Pandemonium, o Lemok era um angustiado, né?

ZECA: O Lemok, dentro desse processo, se sentiu um cara preterido. Era o amigo dele que estava apaixonado pela mulher da vida dele! E o pior, a mulher se casou com o amigo e largou ele. (risos) É um negócio que ele até queria ficar feliz pelo amigo, mas não dava. Isso é manjado em romance, mas sempre dá um caldo.

O Hélio: Explica mais sobre o Lemok, porque ele meio que te acompanha. Está sempre contigo…

ZECA: É meio que um alter-ego meu. Nada daquilo aconteceu, mas é claro que tiveram os sentimentos. Eles é que marcam. Quando você escreve uma história, você tempera com coisas da vida real. A gente só não precisa dizer onde é que está. Quando você coloca uma lente, você pode exacerbar como quiser. O Lemok sofre muito quando achava que fosse ficar com a Bel, mas ela gosta do amigo dele. Quer dizer, o Lemok entra dentro do sofrimento dele mesmo e entrega a mulher para o melhor amigo. É um negócio assustador! (risos)

O Hélio: E junto a isso, o Lemok ainda tem uma mãe doente.

ZECA: A mãe doente bate certinho com a minha vida, isso sim. Enfim, não fala muito de mãe, não. Vou acabar chorando com essa entrevista! (risos)

O Hélio: O Lemok se explicava muito para o leitor para tentar se entender.

ZECA: Pois é, eu uso o Lemok para traçar uma cumplicidade com o leitor. Porque o leitor é a nossa meta. Nossa meta é ter leitor. Acho que isso faz parte do meu estilo de escrever. Tenho pavor de livro que você começa a ler e você não sente nada. Insosso. O seu livro é bom, aliás, viu, Pedro. Estava para te falar isso. Bem interessante. Vai dar um caldo esse livro, O Eco da Girafa. Depois eu queria ler o seu primeiro livro, cara (O Hélio).

O Hélio: Eu trouxe um pra você. Meu primeiro livro é bem ingênuo…(risos)

ZECA: O meu primeiro livro também, o Adorador. Ingenuidade é um troço legal, cara, não é ruim não. Por que você falou assim? Poucas pessoas têm ingenuidade na escrita.


Pedro Paulo Rosa e Zeca Fonseca


O Hélio: Talvez porque poucas pessoas achem isso uma coisa boa

ZECA: Cara, se for bem escrito, a pessoa vai lendo. Tem um escritor que todos adoram, veneram: Machado de Assis. Eu não gosto de Machado de Assis! Acho chato. Chato pra caralho! Agora, é uma heresia falar mal dele. Não consigo ler Machado de Assis…

O Hélio: Pra você, seria melhor a Bahia de Jorge Amado, né?

ZECA: Muito melhor, muito melhor. Porra, não tem comparação.

O Hélio: A gente estava falando que o leitor é a nossa meta. Você acha que o perfil do leitor mudou? Acha que o leitor está lendo mais autor brasileiro, por exemplo?

ZECA: Acho que estamos perdendo leitor. Acho que a televisão é uma coisa muito forte. É uma lareira. O cara acaba lendo menos por conta do que vê. É um negócio assustador. Então, a gente continua… somos seres humanos rudimentares vivendo numa modernidade esplendorosa.

O Hélio: Fala mais disso.

ZECA: É tudo muito maquilado. Tudo bonito, tudo cheio de luz. Mas, a gente continua sendo animal. É um conflito.

O Hélio: Um conflitaço! (risos) Zeca, adorei o teor do seu pessimismo, muito parecido com o meu. É um pessimismo que não para. Ele anda.

ZECA: Situo minha vida dentro de um contexto. É incrível, Pedro. Mas, estamos todos no mesmo barco. E não há saída. São as coisas que escolhem a gente.

O Hélio: E a literatura te escolheu como, Zeca?

ZECA: Cara, sou filho de um escritor (Rubem Fonseca). Ele sempre me disse que tinha que escrever. Comecei com engenharia, mas saí e fui para o jornalismo. Não queria seguir o meu pai. Sinto meu pai como uma mangueira muito frondosa. E eu quero pegar o meu sol. Correr da grande sombra. Acho que estou conseguindo.

O Hélio: Me fala do seu livro “O Adorador”. Era um cara que pegava todas na internet?

ZECA: Orkut era a moda. Tinha acabado de descobrir que tinham personagens paralelos, coisas muito sexuais. Aí, criei um personagem que era o legítimo adorador de bucetas, mas a editora achou pesado. Fiz uma pesquisa mesmo, entrei na net para ver tudo. Fiz um perfil chamado Adorador e só aceitava mulher casada. Nossa, as análises que saíram dali foram enormes. Inclusive, esse livro (O Adorador) vai virar filme. Os produtores querem fazer um filme com censura de 14 anos, então, certamente, a levada será de comédia. Parece que o ator está fechado, será o Marcelo Serrado. Ele, inclusive, está apaixonado pelo personagem. Acho que vai ser muito bom. Esse livro vai ter uma segunda etapa de venda bem legal. Parece que quando vira filme as pessoas descobrem a potência do livro. O filme deve sair final de 2013. É importante dizer o quanto escrever um livro é uma exposição.

O Hélio: É meio um livro pra voyeurs, né?

ZECA: É, é... (risos) esse livro tem uma pegada jovem mesmo. Se pegasse esse livro pra ler com dezessete anos, ia gostar muito.

O Hélio: Por que a necessidade do sexo tão presente na sua linguagem literária?

ZECA: Onde a gente vai, o sexo vai, cara. É inalienável. Se a pessoa não perceber isso... Hoje em dia, sexo é acessório. Não coloco isso como razão principal.

O Hélio: Realmente, é um tema norteador. E ter isso no livro define quem vai abrir o seu livro e ficar com ele. Lembrei muito de Kafka lendo o seu Lemok.

ZECA: Porra, Kafka foi o primeiro livro que li na vida, o Metamorfose; gosto muito também de Bukowski, Henry Miller, Nietzsche. Rubem Fonseca (risos). Minha literatura é essa!

Hélio: Falando no Pandemonium de novo, neste livro você mostra um painel de vida muito ácido, muito duro. Ao mesmo tempo, não é uma obra com personagens muito psicologizados. Você tem umas sínteses que falam ao coletivo.

ZECA: Fico procurando na rua até achar uma coisa. E a gente é assim, senão a gente não escreveria. Olho o outro. Essa coisa que a gente chama de lixo eletrônico (a TV), me proporciona ter acesso a mundos que não tenho. Praia do Leblon para inspirar já passou há muito tempo, Pedro! Prefiro ir ao piscinão (de Ramos, favela carioca). É até hilário: a Baía de Guanabara podre e ao lado, aquele piscinão limpinho.

O Hélio: Foi muito diferente sair do Rio e estar morando em Niterói? Altera algo na sua escrita?

ZECA: Niterói é mais classe média. Mais que o Rio, mais que Porto Alegre. O Brasil, conheço muito. Era jornalista da Manchete, nos anos 80, ia para vários lugares. O Norte inteiro! Coisa que não faria pela minha conta. Aqui é um shopping a céu aberto. (risos) Não sei o que aconteceu, é um fenômeno Niterói. Eles conseguiram se separar mentalmente de São Gonçalo. Não sei qual jogada política foi essa! (risos). O Rio era a minha principal referência. O Rio é um lugar internacional por natureza. É muito multifacetado. Está entre as cidades referência: Paris, Roma, Londres. Tem essa aura de influenciar os outros estados e locais do Brasil. Estou focado, no momento, na sociedade. Essa coisa do capitalismo é uma manipulação tão grande. Quando vi que o Eike Batista está gerenciando a carreira do Neymar, porra! O cara virou um Deus. Você não conhece Deus? É o Eike Batista. (risos) O capitalismo tem um véu muito forte que ninguém fala, mas que está ali. Vou reforçar o que já é óbvio: os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres. Há pessoas que conseguem dizer que Marx está desatualizado. Claro, você tem que ler com uma lente de adaptação, porque o tempo era outro. O fio condutor é sempre o eu-leitor. Romance, por exemplo, você tem que ter muito fôlego!

O Hélio: Voltando à sexualidade, como você compreende o sexo no século XXI?

ZECA: Cara, hoje em dia, o homem já era. Não se precisa mais de pau (risos). As mulheres compram pau na loja. Do tamanho e da cor que elas quiserem. O homem já deu. Vamos ser massacrados nessa sociedade. Aquele homem com estereótipo de machão é o que vai levar porrada! Em breve, inclusive, devemos ter novidade sobre uma minissérie para TV que escrevi com a Bia (Willcox) chamada O Lésbico e que fala muito sobre isso. O personagem masculino terminou. Escute, Pedro, não tenho nada contra homossexual. O que vemos é um direcionamento para esse novo personagem da sociedade. Mas, ele sempre existiu. Que fique claro, não quero destruir ninguém! Cabe todo mundo nesse planeta.




O Hélio: E a fotografia chega quando e como em você?

ZECA: Cada vez chega menos. Como mudei a minha vida e fui para o livro...na verdade, a vida que me mudou! É como se estivesse numa trincheira, sabe, Pedro? É como se eu estivesse com a arma na mão. O leitor é o meu alvo. Minha metralhadora tem letras e não bala. Voltando: o que é fotografia? Ou vou fotografar o real ou parto do zero e monto um estúdio. Então, escrever é como se fosse uma fotografia de estúdio. Vou colocando os ingredientes. Aliás, amo culinária como bom taurino. Meu pai (Rubem Fonseca) é touro também. (risos). Somos três, então, Pedro!

O Hélio: Como você analisa essa competição que existe, em algum nível, entre imagem e escrita? Acha que é uma ameaça para nós, escritores? Falo isso porque há uma infinidade de gente preterindo a escrita e ficando apenas com a imagem.

ZECA: Não vejo como ameaça. Talvez as pessoas possam perder a excitação do tato com o livro. Livro não vai acabar, mas vai coexistir. Por exemplo, quando veio o CD, foi o maior furor na sociedade. Os músicos ainda podem ganhar dinheiro no show. E o escritor, vai ganhar dinheiro como? Não temos como fazer show! (risos) Parece até que querem acabar com os escritores. Só terão roteiristas, eu acho. Só ficaram os teimosos, os taurinos. (risos)

O Hélio: O que você pensa sobre a nova linguagem que estão dando à favela? Pela primeira vez, me parece que se abre o ouvido do respeito para a população de origem popular.

ZECA: Acho que, no futuro, vai ter só gringo morando nas favelas da Zona Sul. As da Zona Norte, acho que vão virar um grande México carioca. Se for morar no Rio de novo, vou morar na Praia de Botafogo num daqueles prédios que tem 40 apartamentos por andar. Escritor precisa disso. Acho que o Brasil está melhorando politicamente, mas a gente ainda está muito dentro do processo para conseguir enxergar. Estamos num momento em que o outro está conseguindo nos enxergar melhor do que nós mesmos. O Brasil é diverso, misturado, não é nada hermético, como uma China, por exemplo! E outra, o Brasil tem um potencial de beleza feminina excelente.

O Hélio: Explica o projeto Berçários de Talentos.

ZECA: Primeiro, a gente queria ter um canal com essa juventude. Vemos que o cara escreve, mas não conseguia reconhecimento. Acho que a gente, um dia, vai encontrar uma pepita, sabe? Nesse garimpo, encontraremos uma pepita. Tem verde bom e tem verde ruim. Vemos pela maneira do cara escrever. É uma coisa bem interessante esse projeto da Faces (editora).

O Hélio: Vou repetir a pergunta que a Zélia Duncan fez. Viver é bom?

ZECA: (risos) Viver é foda. Uma experiência impagável. É emocionante. É uma coisa que coloca a gente sempre em xeque. Somos intimados a viver. Enquanto a gente vir saída para a nossa água interna correr, a gente vai vivendo. O suicida se mata porque não vê mais onde escoar essa água. A sociedade toda se mataria, Pedro. É só vender no mercado um kit morte.

O Hélio: Ou tirar a luz da cidade! Lembra de Saramago?

ZECA: Sim, sim. Ele era fantástico. Então, somos intimados a viver. Quando vejo os mendigos, sinto eles como Jesuses.

O Hélio: No final do seu livro, Pandemonium, fiquei muito impactado.

ZECA: (risos) Imaginei essa palavra, Pedro, impactados e você falou ela agora. Mas, o lance do final do livro, é isso. A única coisa que a gente sabe o que vai acontecer na nossa vida é a morte. O resto é loteria. A gente não escolhe o nosso destino. A gente tenta uma coisa, consegue outra, enfim... De alguma forma, existe algo, coisas de acaso que vão levando a gente, sabe?  Temos que viver e deixar viver. As pessoas têm mania de se jogarem muito nas coisas, mas existe um caminho natural. O ser humano é refém dessa vida. Estamos com as mãos atadas e não nos admitimos.