Follow by Email

terça-feira, 31 de julho de 2012

BANDA SURICATO: DISTRIBUINDO AMOR POR AÍ





Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Divulgação

A banda Suricato, composta por Rodrigo Nogueira (voz/guitarra), Mário Vargas (baixo) e Diogo Carneiro (bateria) tem pensamento maduro sobre a arte musical que produz. O vocalista destaca que um dos diferenciais da banda é "saberem fazer ao vivo". O show é igual ao que se escuta no CD, o que segundo eles está raro hoje em dia. Rodrigo Nogueira separa seu tempo para uma boa conversa com O Hélio. Os três amigos se apresentam no sábado, dia quatro de agosto. Mas, o papo fluiu pelo início da carreira deles, o encontro com o Nando Reis, que adorou o som da Suricato - que tem nome enigmático e som que mescla rock e pop. Jr. Tostoi é quem assina a produção do disco do trio, Pra Sempre Primavera.

O Hélio: Como foi a escolha do produtor Jr.Tostoi?

RODRIGO NOGUEIRA: O Tostoi é uma referência muito forte para mim como guitarrista, um divisor de águas no meu jeito de tocar/pensar música. Hoje ele é um amigo. Passei a acompanhar tudo que ele produzia e quando começamos a ensaiar o repertório do disco sugeri o nome dele para o Diogo , que topou na hora. O Suricato tem um som muito direto e fiquei com medo dele não topar fazer, de achar careta demais . Já sabia que ele era um produtor extremamente criativo e de soluções sonoras inusitadas então queria que ele trouxesse isso para o nosso som. Mas ele me surpreendeu e fez justamente o oposto: Utilizou nossos próprios recursos sem barulhinhos ou sons mirabolantes. Nos deu algumas boas idéias e conseguiu captar a energia e “simplicidade” do trio. Esse discernimento de mudar só o que precisa ser mudado só os grandes produtores tem. Ele tira um som incrível das coisas no estúdio e não se prende à regras. Gravei no máximo duas guitarras por música e às vezes um violão quando pedia. Só. Isso tem feito toda diferença ao vivo, pois temos margem para improvisar ou tocar as músicas de outro jeito sem parafernálias ou músicos adicionais. Precisamos apenas dos nossos instrumentos e um bom técnico.


O Hélio: Qual a importância do reencontro para vocês três?

RODRIGO: Toda. Acho que nos reencontramos como amigos e profissionais. A cabeça anda boa. Tudo tem um momento certo para acontecer. Antes do disco , já vivemos bastante coisa acompanhando outros artistas pelo Brasil e pelo mundo. Graças à isso nos sentimos, de um certo modo , seguros para encarar plateias/palcos grandes. É incrível como essa estrada nos ajuda e nos dá segurança, mesmo sendo uma banda nova. É engraçado: Se por um lado esse “mundo veloz” faz surgir 200 escritores e compositores geniais por dia nas redes sociais , nada , em tempo algum, substituirá a necessidade de experiência, do banho-maria, da degustação. O micro-ondas não revolucionou a culinária e não se aprende a tirar um bom som de instrumento musical em 1 mês. Leva tempo. Acho que cada vez mais escutaremos discos maravilhosos e veremos shows de qualidade bem duvidosa. Palco é um exercício, não tem jeito.


O Hélio: Vocês entendem o som que fazem de que maneira?

RODRIGO: Não é uma coisa muito pensada. Normalmente os artistas já tem todo o conceito na cabeça antes de gravar seus trabalhos, não acho isso ruim, mas não foi o caso desse. É o primeiro disco.Um registro do primeiro encontro, nossa primeira dezena de canções. Sei que estamos muito longe de reinventar a roda, mas não sei classificar nosso tipo de som. A simplicidade talvez seja um ponto forte. Somos ao vivo os mesmos artistas do disco e isso é ironicamente incomum hoje em dia. Temos orgulho da veracidade desse “retrato”, de sabermos tocar nossos instrumentos e de como as pessoas tem nos recebido nos shows. Mas a grande questão é mais sobre expressar-se artisticamente que qualquer outra coisa. É simples. A gente tá a fim de levar som, falar de pedalzinho e distribuir amor por aí. O resto não importa muito.





O Hélio: Como foi a construção estético-conceitual do trabalho da Suricato, Pra Sempre Primavera ?
RODRIGO: Por curiosidade, “Pra sempre primavera” é o nome de uma canção que não entrou no disco. Esse nosso momento de reencontro é muito bonito e a primavera é a estação do ano em que a natureza parece ter encontrado um equilíbrio nas coisas, nas cores, na temperatura. Ela parece saber o que está fazendo. Se mostra com mais certeza e esse sentimento é algo sazonal na vida de qualquer um . Certeza nada tem a ver com “estar com a razão” mas sim com colocar a cara à tapa, se permitir. Nenhuma “Primavera” dura para sempre. Ela precisa das outras estações pra se fazer notar. É mais uma questão se sabermos identificar quando ela estiver diante dos olhos e tomar a corajosa atitude de mostrar-se, no nosso caso , artisticamente.

O Hélio: Como foi a escolha do nome Suricato?
RODRIGO: Há muito tempo atrás assisti um programa chamado “ No Reino dos Suricatos” no Animal Planet. É uma espécie de BBB de Suricatos em que uma família deles é documentada por anos no deserto de Kalahari na Àfrica do Sul. Não conhecia os bichos e os achei muito engraçados. Me chamou atenção serem tão pró-ativos , se dividirem em todas as tarefas além da árdua função de estar de sentinela o tempo todo num ambiente tão inóspito. No programa foi dado a cada indivíduo um nome e vc acompanha aquilo como uma novela. Passaram-se anos, esqueci o nome dos bichos e só voltei a lembrar na constrangedora ocasião de achar um nome para a banda. Liguei para o Diogo , sugeri e ele me disse : Sindicato?? É um bicho lado B.

O Hélio: Qual o processo criativo da banda?

RODRIGO: Costumo compor ao violão de aço. Dificilmente surge uma música da guitarra. Começo a desenvolver melodias e letras e vamos para o estúdio tocar e tocar. Por mais que viesse com alguma idéia bem resolvida de casa, ao colidir isso com o Diogo e o Lancaster ( baixista na época) , a coisa acabava tomando uma dimensão inesperada e bem diferente da ideia original. Fora isso,vejo uma banda como um casamento, uma sociedade. Não importa quem está lavando a louça ou passando aspirador de pó na casa, tudo é para um bem comum. Não falamos sobre o que é de cada um, quem fez o quê, pois a banda não existiria sem a magia do encontro de todos. Acho que “Não adianta brigar pelo pedaço do bolo de fubá do milho que ainda nem foi plantado”. Mas sei que cada banda tem um método. Pra gente funciona muito desse jeito. Volto a dizer que é exatamente como casamento , não é uma prestação de serviços. Todos tem muita liberdade de trazer ideias , tudo é levado em consideração.

O Hélio: Quem costuma compôr mais?

RODRIGO: Por ser a voz e a parte harmônica da banda (até então) é natural que traga as coisas mais adiantadas de casa. Acredito que no próximo disco o Diogo virá com mais surpresas. Tem uma voz muito bonita e em breve estará cantando também no Suricato. Já temos material para mais 2 discos e meio. Quem sabe com algumas parcerias.




O Hélio: O público de vocês é mais jovem, família?

RODRIGO: Não temos a menor ideia. É impossível saber a idade das pessoas hoje em dia (risos)

O Hélio: Nando Reis elogia muito o trabalho da Suricato. Como a parceria com Nando Reis foi costurada?

RODRIGO: Nosso baterista, Diogo, faz parte dos infernais e toca com ele há 9 anos. O Nando tinha show marcado em Niterói , com abertura do Moska , artista com quem já havia feito vários shows e por coincidência é do nosso mesmo escritório .Esse quase “eclipse” virou a ocasião perfeita. Ambos consultamos a possibilidade dos bichos abrirem a noite e todos deram ok. Ginásio lotado , começa o show , olho para trás e vejo o Nando assistindo o show do palco e gostando .Por conta disso , passou a deixar as portas abertas para eventuais aberturas. Ele é um cara absurdamente generoso. Não é desse planeta. Graças à ele fizemos shows por palcos incríveis, tocamos para públicos enormes sem ao menos ter o cd pronto . Uma vez , ao ver que tocávamos “Drive my car” dos Beatles , ele se ofereceu para cantá-la conosco para nossa total surpresa. Disse que cantava essa música nos primórdios dos Titãs, entrou no palco sem lembrar a letra direito e nos divertimos muito. Fez isso inúmeras vezes. Não imagino nenhum artista entrando no show da banda de abertura para cantar algo. Pessoalmente sou muito influenciado pelo trabalho dele, fã mesmo. É um cara nobre , muito verdadeiro e que estará tatuado para sempre em nossas vidas. Um amigo. Também não posso deixar de citar toda sua equipe que sempre foi muito gentil e solícita com os bichos.Viramos uma família esquisita de infernais e suricatos malucos por todo lado. Demos muita sorte. Penso que, se mais artistas e contratantes tivessem esse tipo de postura muita coisa legal apareceria por aí. Curioso é que fora do Brasil é muito comum ter um artista consagrado e uma banda emergente viajando juntas. Aqui isso é muito raro, infelizmente.

O Hélio: A música encontrou vocês quando? E quando/como se conheceram?

RODRIGO: Toco desde os 8 anos de idade. Tenho 2 irmãos mais velhos que amam música e me ensinaram os primeiros acordes. Em pouco tempo já tocava melhor que eles e , com a adolescência , começaram a surgir alguns convites para bandas. Tudo muito amador. Nessa época o Diogo conseguiu meu telefone, não sei com quem, e marcamos de levar um som. Fizemos 3 ensaios com outros amigos e depois cada um seguiu seu rumo. 15 anos se passaram e nos reencontramos por acaso , no estúdio de um amigo em comum , para montar um projeto de covers com algumas poucas composições minhas. Ele se interessou pelas músicas e disse que , se fosse uma banda autoral, também estaria dentro. Fiquei surpreso e muito estimulado por ouvir isso de um músico tão bom. Foi o primeiro grande passo que mudaria tudo . Em pouco tempo já éramos mais que amigos, agora com o relógio da vida marcando o mesmo horário. Com o Mário foi quase o oposto: Tocamos cover juntos na noite do rio durante muitos anos , numa banda de amigos muito queridos , a Fato Consumado. Costumo dizer que temos mais horas de baile que muito piloto tem de vôo. Ele é um dos meus melhores amigos e quando o Lancaster saiu da banda achei que antes de achar “o som” deveria achar “a pessoa”. Fiz o convite e ele topou na hora. É um cara muito simples e incrível.  Sempre houve muito amor dentro do Suricato e é muito fácil trabalhar quando se olha ao redor e vê cumplicidade por todo lado. Foi assim com o Lanca e continua com o Mário. São todos meus irmãos, pessoas vitais.

O Hélio: Qual o recado manda para quem ainda não conhece o trabalho e para quem já conhece?

RODRIGO: Muito obrigado por compartilharem nosso som e por todo carinho que temos recebido. Para quem ainda não nos conhece: www.suricatooficial.com.br Mas só funciona de ouvir bem alto.


O Hélio: Fala da agenda para a gente.
RODRIGO: Dia 4 de agosto , sábado , na Reserva + do arpoador, ao lado da galeria River. De graça. 18 hs.


terça-feira, 17 de julho de 2012

MARCUS FAUSTINI: O MERCADO NÃO É A MEDIDA DA VIDA

      



Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Yasmin Thainá 

Marcus Faustini, cineasta e escritor, inventor da Agência de Redes para Juventude e de tantos outros mais. É um ser humano multifacetado, tocado definitivamente pelo sensível. Criador de uma metodologia baseada na arte como expressão social. Faustini conta para O Hélio sobre como tudo começou. 

O Hélio: Você ainda se lembra daquele Marcus do Cesarão? (favela em Santa Cruz, Rio de Janeiro) O que está mais latente dele em você, no Marcus de hoje, julho de 2012?

MARCUS FAUSTINI: É uma bússula, é uma das principais, porque foi um momento de formação. Porque muitas experiências que me fazem produzir conceitos vieram dali. Eu, moleque, ia pra lote XV, Jacarezinho, Cidade de Deus...

O Hélio: Aquela sua ideia de circulação...

FAUSTINI: É... porque ela foi decisiva. Meu avô vendia garrafa de maracujá, levava os netos. Meu outro tio vendia amendoim e levava a gente.

O Hélio: Você nasceu onde?

FAUSTINI: Nasci no Hospital da Lagoa, minha tia era enfermeira de lá. Minha primeira infância foi na Baixada Fluminense, no bairro da Chacrinha. Bairro onde a gente atravessava a rodovia Washington Luiz para pegar pica-pau. Depois, meu padrasto trocou um revólver e um fusquinha por uma casinha no Cesarão, lá em Santa Cruz, no Rio. Então, minha adolescência e juventude foi no Cesarão, que me configurou muito mais no meu entendimento de lugar. As imagens da infância estão em Caxias. E a juventude é o momento em que começo a andar a cidade sozinho.

O Hélio: Se você pudesse resumir, qual é o cheiro, qual que é a trama da periferia?Hoje, por exemplo, você não deve morar mais lá.

FAUSTINI: (risos) Não, sou um homem de 40 anos de classe média. Que bom que o Brasil está caminhando pra melhorar as condições de vida das pessoas de origem popular. A questão que me coloco como central, e não cobro isso de ninguém que fez trajetória parecida com a minha, mas eu me coloco como central, e principalmente essa questão da circulação é um dado e se fiz essa trajetória de maneira extraordinária ou por obstinação ou por algumas estratégias que fui aprendendo, algumas sensibilidades que fui vendo, aumentando redes, aumentando repertórios, não posso deixar essa minha trajetória ser extraordinária e eu tenho que inventar uma maneira de outras pessoas que vêm de onde eu venho poderem ter direito a essa trajetória. E trabalho pra isso. Por isso surge a Agência (Agência de Redes para a Juventude), o Guia (Guia Afetivo da Periferia), por isso vou fazer edital de funk...pelo entendimento de que ali, mais do que cheiro, é...a primeira negociação de uma moleque de periferia é “mãe, posso ficar no portão?”. A rua é tão importante como lugar afetivo quanto o quarto. A rua tem um lugar determinante. Então, pegar a rua como lugar de ação. A rua é sempre descrita no Rio de Janeiro como lugar de vadiagem. Então, disputar isso e falar que é um lugar de encontro, não é só um lugar para os carros trafegarem de um ponto ao outro. A minha vida eu devo a encontros. Tive grandes encontros na cidade. Fui encontrando diversas pessoas na cidade. Mas, o encontro não pode ser jesuítico. O traço do encontro do menino da favela, do pobre na cidade com a classe média, é hegemonicamente jesuítico. Eu quero inverter essa lógica. Quero um encontro de troca.


O Hélio: Nesse sentido, você acredita na isonomia territorial? Quando você põe na sua porta “aqui se pensa território como cultura”. Então, pra você tudo é lugar, Ipanema, Pavuna, Caxias?

FAUSTINI: Claro. A favela não é o outro do mundo. Durante os anos oitenta, se tinha a Baixada como lugar de derramamento de sangue. E era na Baixada onde se desenhava a maior onda de have metal. E não no Caverna. E saíamos de lá para irmos no Caverna. Tinha uma cena muito forte de metaleiros. Então, a favela sempre teve os atravessamentos do mundo. Ela não é um outro isolado que não tem nada. Ela está fora das redes e dos repertórios. As redes de saberes, de poder da cidade. Muito comum um menino de origem popular que até consegue entrar pra faculdade, mas não consegue uma profissão no que ele se formou porque ele está fora das redes e dos repertórios.

O Hélio: Está fora do lugar da importância.

FAUSTINI: Está fora do que chamo de máquinas expressivas. É um conceito que gosto muito. Todo muito inventa coisas na vida. Só que alguns têm acesso às máquinas expressivas, que potencializam aquilo que você faz. Publicar um livro é uma máquina expressiva. Periferia faz literatura há muito tempo, só que ela está publicando livro há muito pouco tempo. Então, é uma máquina expressiva que tem que se dado o direito, pra você poder se expressar no mundo. Todo mundo que tem direito de se expressar como sujeito estético, ganha uma possibilidade de diálogo maior na cidade. Pedro, o teu livro (O Hélio) tenho certeza que te leva a lugares, combinações, encontros. Essa foi uma percepção que fui tendo desde moleque, cheio de energia.

O Hélio: Você academizou esse pensamento para criar essas metodologias tão próprias e ao mesmo tempo...?

FAUSTINI: Eu sou um camelo turro! (risos) Aprendi tudo com os vendedores de presto barba no trem. A herança do moleque de favela é a oralidade. É ir pra rua conversar. Então, a oralidade é uma chave para o conhecimento. Se diminui muito a oralidade, mas ela é muito potente. A cultura brasileira deve muito à oralidade. Quando larguei o movimento estudantil e fui fazer teatro na Martins Pena...




O Hélio: Você pagou Martins Pena?

FAUSTINI: Não, era gratuito. Na verdade, queria fazer cinema na UFF, mas não tinha dinheiro mesmo sendo de dia e gratuito. Então, a única de formação artística que tinha era a Martins, ali no centro da cidade. E ali era “preto, pobre e morava longe” (risos). Lia uma peça por dia. Isso me ajudou a ter um conhecimento da cultura brasileira. E ali comecei a ver, a sistematizar, a aprender a pesquisar. Vi que tinha que inventar conceitos, produzir minhas peças. Basicamente, nesse movimento que fazia pela cidade, me incomodava ver que o lugar em que vivia era representado ou como lugar de violência ou como o outro.

O Hélio: Mas, no Rio, essa coisa do lugar ainda é muito forte. Por isso, quis muito falar com você, Marcus. Porque você tem um olhar sobre a cidade, sobre a vida que muito tange com o meu. Essa coisa do território é tão forte historicamente. Essa coisa do bonito, do feio...os perfumes que estão em Ipanema, os perfumes que estão na Pavuna, sabe? Isso está muito latente.

FAUSTINI: Sim! É muito injusto, Pedro, só uma parte da cidade ter suas representações garantidas por máquinas expressivas.

O Hélio: É cafona demais isso!

FAUSTINI: Cafona (risos), muito bom. O moleque que mora em Santa Cruz e faz teatro, tem o direito de ser chamado de teatro contemporâneo assim como o moleque da zona sul. Mas, o moleque de Santa Cruz vai ser chamado de amador.

O Hélio: Isso te incomoda ser uma espécie de “bandeira da periferia”?

FAUSTINI: Já fui chamado de tanta coisa! São tantos anos de história...Não tenho do que reclamar. Sempre tive atenção, desde moleque, com o meu trabalho. As pessoas sempre olharam com atenção ao meu trabalho. Não tenho mesmo o que reclamar. Acho que a gente tenta construir uma trajetória que demonstre uma coerência. E uma incoerência dentro dessa coerência para poder buscar um sentido, uma significação. O que estou tentando fazer, em mais de 20 anos nisso: de um lado, tentar produzir as representações da periferia de maneira a colocá-la no contemporâneo, entende? Porque periferia é um conceito cultural atualmente. Então, mostrar que os Clóvis, por exemplo, são contemporâneos. Porque é no contemporâneo que estão as melhores verbas, então quero disputar esse lugar do contemporâneo. Sabe, mostrar que a periferia tem um projeto estético. E de outro lado, inventar metodologia estética para intervir na vida, no capitalismo; pra criar espaço-tempo para esse jovem de origem popular crescer. Porque o espaço-tempo colocado para ele é ser trabalhador de carteira assinada trabalhando 12 horas...

O Hélio: É, no máximo, trabalhar na C&A

FAUSTINI: Exato. Ou no máximo ser aluno de projetos sociais. Cresci na Baixada Fluminense na mesma geração do Heraldo HB do cineclube Mate Com Angu. Inventamos um bando de coisa, e a gente não tinha muitas redes e repertórios. Então, voltando, inventar metodologias para interferir na vida e aí acho que estamos falando de arte. Não faço projeto social, faço arte como uma maneira de fazer política. E produzir uma representação contemporânea desses espaços periféricos da cidade. Esse é núcleo duro do meu trabalho. E tenho uma preocupação enorme com a juventude do Rio de Janeiro. Tem três capitalismos disputando ele. Tem muita oportunidade nesse momento, mas que não está significando reduzir as desigualdades. Temos o capitalismo de infra-estrutura, que pensa essa cidade como oleoduto, como porto, que quer essa cidade como base de alumínio pra jogar tudo pra fora. Aí, tem o capitalismo imobiliário aliado ao capitalismo financeiro, que endivida, pensa o território como commodities. E ainda tem o capitalismo do entretenimento, que pensa essa cidade como lugar do turismo para o fluxo de capital. Esses três modelos estão nesse rearranjo desse capitalismo mundial que usam Jogos e Copa para sugar potencias dos territórios escolhidos.  Então, nesse momento, tem muito dinheiro, muito fluxo de capital, mas essa oportunidade de negócios não está diminuindo as desigualdades. Gosto sempre de chamar atenção a uma coisa: por exemplo, são três anos de UPP, e o governo ainda não sabe dizer quem é o jovem da favela, mas sabe dizer qual o negócio a ser feito dentro da favela. Então, isso é preocupante. O mercado não é a medida da vida. A vida tem outras expressões. É uma disputa. Minha primeira formação foi na teologia da libertação. Era um militante de base da Pastoral da Juventude da Igreja de Nossa Senhora da Glória lá em Santa Cruz.

O Hélio: Tem que escrever outro livro contando sobre isso

FAUSTINI: (risos) Vamos ver... Estou escrevendo a história da minha família, os 18 filhos que se espalharam pelos conjuntos habitacionais... é um épico familiar.

O Hélio: Está sofrendo?

FAUSTINI: To. Não sei quando vou lançar. Não tenho muito essa dor de “ah, preciso fazer mais um filme, mais uma peça”. Faço o que dá. Agora, vou fazer minha primeira exposição, o “Iphone-me”, mandei para um edital, foi aprovado. A ideia é fazer todos os usos do Iphone de maneira plástica. Eu sou meio ciborgue e assumo isso. Não sei sentir sem esse objeto! (risos) Isso aqui é uma prótese emocional.

O Hélio: É verdade, a vida tem mudado muito depois da chuva tecnológica.

FAUSTINI: A vida é uma invenção. Você pode inventar sua vida, reinventar sua vida. A questão também é você pensar como a invenção da sua vida pode beneficiar outros também. Acho que aí o bagulho fica mais instigante ainda. Mais maneiro. Como é que você pensa? É possível. É possível inventar algo sobre a cidade, sobre a vida. Estou muito otimista com a juventude. Olho para trás, as coisas estão mudando, cara. Tenho visto muita coisa diferente. Muita gente misturada, sabe? Acho que pior do que o preconceito, é quem é do campo de transformação ser rancoroso. Acho que os rancorosos ficam malucos em ver tanta gente com capacidade de realizar e inventar. E tem tanta gente rancorosa que não suporta ver uma geração chegando. Gosto de dizer que minha geração é José de Alencar da parada. (risos) Machado de Assis vai chegar já...já! Vem aí a geração PROUNI, que vão ser nossos intelectuais da periferia. Esses sim vão ser os intelectuais da periferia! E aí, nego, o imaginário do Brasil vai mudar! Porque esses camaradas vão fazer tese sobre o Orkut, por exemplo. Tese de doutorado.

Marcus Faustini e Pedro Paulo Rosa (em primeiro plano) na Agência de Redes para Juventude 


O Hélio: Você calcula isso nos próximos vinte anos?

FAUSTINI: Dez, no máximo! E isso vai ser sensacional. Porque o Orkut foi um lugar que ajudou muitos moleques a escreverem. Defendo a orkutização como um conceito, é preciso orkutizar todos os espaços da vida. Para com essa coisa de termos espaços nas redes sociais que são apenas para os que são mais cool. Vamos orkutizar a vida, os direitos. Onde todos possam, de fato, trocar. Acho que a imagem de rede, tradicional, é essa aqui, não é? (Marcus desenha no papel) De pontinhos ligados. Mas, rede pra mim é essa aqui (desenha um circulo com pontos interligados). Pra mim, é isso. O simbólico instituiu o real, já diria Bourdieu: enquanto a gente usar essa representação formal de rede, a gente ainda vai ter mediadores para os encontros. Nessa nova concepção de rede, há a criação de um ambiente, de um espaço-tempo. Onde todo mundo vai poder disparar ações e combinações infinitas. Quem tem medo disso, é quem quer hierarquizar. Então, a Agência não é uma ONG, é uma metodologia.

O desenho da esquerda é o modelo de rede em que Faustini acredita 


O Hélio: Por que você escreve?

FAUSTINI: Porque escrever me dá precisão. Escrevo todos os dias. Todas as outras artes são negociações. Teatro é negociação com ator; cinema é negociação com a câmera. Precisão. Escrevo por precisão. Por isso.




sexta-feira, 6 de julho de 2012

GRANDES ATRAÇÕES DA FLIP 2012 NA FLUPP



Na próxima segunda-feira, dia 9 de julho, o Casarão dos Prazeres vai receber a ilustre presença de autores internacionais que foram a principal atração da FLIP 2012 

Pela primeira vez, na história da cidade do Rio de Janeiro e no Brasil, comunidades pacificadas cariocas se tornam lugar de profundas trocas de experiências literárias e recepcionam figuras de renome cultural internacional, como é o caso de Cynan Jonas, um dos novos nomes da literatura regional inglesa (trazido pelo Britsh Council) e Jonh Freeman, editor da maior revista literária do mundo, a Granta Magazine. Igualmente de maneira inédita, a Granta reservará uma edição dedicada aos escritores brasileiros. 

A mesa redonda começa às 14 h. Jonh Freeman e Cynan Jonas vão discutir a literatura inglesa e como esta reflete momentos históricos vividos pelo Reino Unido. 

Seguindo com esse clima, a partir das 16 h, Paulo Scott e Zoé Valdés brindam a plateia com talento. Valdés é um dos nomes mais importantes da literatura cubana. Gaúcho, o poeta e escritor Scott nos presenteia com sua vasta experiência literária. E não termina aí. 

Às 18 h, teremos o prazer de encontrar com Hanif Kureish, grande nome da literatura hispânica contemporânea e uma das principais atrações da FLIP 2012

Maiores informações no site: http://www.flupp.net.br 

* O Casarão das Artes fica no bairro de Santa Teresa, no centro do Rio. O endereço é: rua Almirante Alexandrino, 3.286. Senhas serão distribuídas uma hora antes do evento, que começa às 14 h.

Ecio Salles e Julio Ludemir. Integrantes da equipe criadora da FLUPP - Festival Literário Internacional das UPPs

segunda-feira, 2 de julho de 2012

PEDRO MORAES: O CLARO ESCURO DA MÚSICA

Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Divulgação 
Revisão textual: Paulo Cappelli 




O cantor e o compositor Pedro Moraes reserva toda sua manhã dentro dos muros do Parque Lage para bater um papo com O HÉLIO. O tema é seu trabalho musical ClaroEscuro, uma produção que tem biografia: as músicas têm dez anos de existência. Pedro se enamorou pela música nos cômodos de casa, especificamente na festividade sambista da mãe e na sedução que Beethoven causou em seu pai, intelectual de esquerda. 

Seu trabalho revela um polivalente compositor, que mescla elementos de música circense (na faixa Triste Folião e Marcela, isso se evidencia) com uma melancolia traduzida nos solos de oboé, nas interpretações próprias com que Pedro emoldura suas músicas, composições que unem fé, paixão e movimento. Fazem o corpo mexer. A versão meio reggae que Pedro cria para Dora, de Dorival, é inesquecível. Ousada. 

PEDRO MORAES: O Cd normalmente está comprometido com a lógica do mercado. O disco, o filme são produtos filhos da indústria. A música não é, mas o disco é. Filhos principalmente dessa indústria do século XX. O Claro Escuro tem cinco anos. Entrei no estúdio em 2007. (Caralho, sua letra é muito parecida com a minha! Quando olhei seu bloco, pensei, po, pareceu meu!)

O HÉLIO: De que maneira você nomeia o início do seu trabalho? 

MORAES: Comecei a trabalhar com música em 2000, e até 2007 fiz várias coisas como compositor. Então, nasci no Rio, mãe baiana; (pausa. Suspiros) pai aqui do Rio de Janeiro. A família por parte de mãe entre Salvador e interior da Bahia. Minha mãe e negra. Mistura de neto de escravo com senhor de engenho. Aquela história bem Gilberto Freire.

O.H.: Isso te incomoda?

MORAES: De maneira nenhuma, de maneira nenhuma. A família da minha mãe, num determinado momento, ganhou uma loteria, aí comprou fazendas e tal. E mandava os filhos para estudarem no Rio de Janeiro. Minha mãe se tornou médica, mas, muito musical. Canta até hoje. Muito samba. Ela tem uma voz bonita e tal, não tem nenhum músico profissional. Muito sarau, sabe? Meu pai já tem uma família com outro background. Como falei, no caso da minha mãe, todo mundo muito pobre e ganhou grana por sorte. Já na família do meu pai, eram intelectuais de esquerda e minha avó judia. Minha avó e meu avô se conheceram em reuniões do partidão. Meu avô estava sendo perseguido em São Paulo e veio para o Rio. Então, a casa de pai era intelectual, literatura. Não era nada musical.

O.H.Engraçado falar isso, porque o seu CD é bem isso. Cheio de literatura mesclada à música.

MORAES: Sim! Até que meu pai descobriu Beethoven e isso impactou muito ele. Para você ter uma ideia, começou a tocar violão. (RISOS) Meus pais ensaiavam em casa, seresta e tal. Agora, o lance da escolha pela música, levar mais a sério, foi bem posterior. Agora, o gosto pelo fenômeno da música, foi lá em casa. Mas, teve um momento chave: tranquei minha faculdade de psicologia e passei um ano na Índia. E fui descobrir que a literatura me dá muito mais de autoconhecimento do que a própria psicologia.

O cantor Pedro Moraes no palco, em Recife.


O.H.Por que você sente isso?

MORAES: Porque, de modo geral, com nobres exceções, a psicologia carece de rigor epistemológico.

O.H.Falta de conhecimento, você acha?

MORAES: Falta de questionamento rigoroso sobre as bases do conhecimento. Para você conhecer aqueles que conhecem, você precisa antes ter um questionamento muito profundo sobre o que é conhecer. Questionar com clareza aquilo que está dentro dos seus olhos, por exemplo. E um questionamento desse processo, na psicologia, pouco acontece. Quando começa a rolar, é interrompido e deixam para a área de filosofia cuidar. Vira literatura depois. Como a psicanálise, é filosofia e literatura, pelo menos para mim. Psicologia é uma ciência jovem e com uma certa arrogância de se assumir científica sem se questionar. E a ida para a Índia era uma busca que me acompanha ao longo da vida. Foi intenso e muito rico. Fui sozinho e fiquei num ashram. Lá, travei contato com músicos brasileiros, mexicanos, australianos. Aconteceu uma coisa curiosa; uma cantora mexicana apaixonada por música brasileira (casada com um baterista brasileiro) me disse que estava procurando repertório para o primeiro disco de carreira dela. Ouviu músicas minhas e, alguns meses depois, me mandou um email pedindo para gravar duas músicas minhas. Na Índia, a coisa da música foi se internalizando como uma necessidade maior, sabe, Pedro? Quando voltei da Índia, não tinha mais nenhuma dúvida de que seria cantor e compositor.

O.H.Qual é a emoção, a intenção, o conceito do seu disco?

MORAES: As minhas músicas me levam a um processo longo. Claro Escuro... já tinha tentado colocar coisas minhas na rua, mas não me sentia maduro. Mas, o caminho é longo. O conceito do meu disco, da minha música é o êxtase. Quando subo ao palco é um prazer físico, extasiante. Não dá para comparar. 

AMANHÃ, dia 3 de julho, às 19 h 30, vocês podem conferir o show de Pedro Moraes no Teatro Rival Petrobras, na Cinelândia, Rio de Janeiro. O cartaz segue abaixo:



>>> Confira o clipe da música "Incomunicável", de Pedro Moraes

<>