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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

ALICE CAYMMI - HERANÇA QUE MOTIVA



Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Divulgação 

Alice Caymmi começa seus passos na música desde cedo, mas é agora que o impulso do palco a chamou. A música, companheira de Alice desde o útero, encheu a moça de beleza. A beleza dos Caymmi. Dorival, seu avô, Danilo, seu pai. 
Alice não tem medo do sobrenome nem da construção musical impecavelmente peculiar de sua família. Pelo contrário, assume com tranquilidade e lucidez essa herança que motiva. A cantora separou um pedaço de seu tempo para conversar com O HÉLIO.  

O HÉLIO: De que maneira  a música foi entrando e se consolidando na sua escolha profissional?
ALICE CAYMMI: A música sempre esteve presente na minha vida. A única coisa que mudou foi a idéia da arte como profissão. Sempre cantei e componho desde menina, mas me considerei artista após a idade adulta.

O Hélio: O que mais te emociona no seu trabalho musical?
ALICE: Eu não me emociono comigo mesma porque o que eu faço eu faço por mim mas para os outros.

O Hélio: Fala mais dele para O HÉLIO
ALICE: Eu lancei o meu primeiro disco há poucos meses e sinto que as consequências dele estão sendo muito boas. Espero que um trabalho autoral possa consolidar a minha personalidade aos olhos do público.

O Hélio: A sua herança musical familiar interfere/interferiu na sua produção musical, ou na maneira pela qual você se apresenta em público?
ALICE: Interferiu das duas formas. Mas, por mais que eles sejam a minha referência de origem eles pouco participam da minha vida prática na arte. Ninguém interveio no meu disco nem nas minhas composições.

O Hélio: Como a música te motiva?
ALICE: Ela é a maneira que eu encontrei de me colocar no mundo. Não imagino viver sem a arte. A minha necessidade de me expressar transcende qualquer prioridade.

O Hélio: Qual canção da família que você mais gosta de interpretar?
ALICE: Sargaço Mar, do meu avô (Dorival Caymmi).

O Hélio: Está procurando alguma marca para o seu trabalho ou acha que já a encontrou?
ALICE: Eu encontrei uma marca para este trabalho "Alice Caymmi". Os outros já são outra historia...

O HÉLIO: A internet é sua parceira? Ajuda a divulgar?
ALICE: Sim, mas não é tudo. Às vezes, o mundo virtual pode enganar a gente. Mas conto com ele quase sempre.

Alice Caymmi e Danilo Caymmi estarão juntos no palco do Teatro Rival Petrobras, na Cinelândia (Centro, Rio de Janeiro), no dia três de janeiro, às 19 h 30.


Alice cantando a música "Sargaço Mar", cuja autoria é de seu avô, Dorival Caymmi
http://youtu.be/Ouu1rwq1lVc 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

SIMONE SPOLADORE e LUCAS GOUVÊA: "A ARTE EXISTE PORQUE A VIDA NÃO BASTA"




Por Pedro Paulo Rosa 
Foto: Divulgação 

As aspas do poeta Ferreira Gullar esboçam o profundo amor dos atores Lucas Gouvêa e Simone Spoladore pelas artes. No momento, os dois estiveram juntos na peça “Depois da Queda”, escrita pelo célebre Arthur Miller. Os dois separaram um tempo de suas corridas agendas antes da penúltima apresentação no teatro Gláucio Gil (Copacabana, Rio de Janeiro) para conversarem com O HÉLIO.


O HÉLIO: Como é interpretar um papel que foi de Paulo Autran, 48 anos depois, Lucas?

LUCAS GOUVÊA: (risos) Procurei não pensar nisso. Acho que o teatro tem uma coisa ótima, porque é a arte do efêmero. Acabou, desmontou cenário. Só fica mesmo na memória de quem viu. Já é um peso muito grande um texto dessa envergadura do Arthur Miller. E a enorme dificuldade, porque é uma peça de quase três horas. Trazer para mim o pensamento desse meu personagem (o Quentin) já é um peso enorme. Claro que de vez em quando esse pensamento me volta. É uma honra suceder o Autran. Sabe, algumas pessoas da montagem original da peça disseram que vinham. E aí comecei a pensar mais nisso. Aí, eu tive um pesadelo com o Paulo Autran! (risos). Na véspera da estreia, sonhei que o Paulo estava na plateia me assistindo. Depois eu saía, ele me encontrava e arrasava comigo! Certamente o Autran veio no meu sonho para nos dar sorte.

O Hélio: Você repetiu a palavra peso algumas vezes. Qual seria o peso deste texto do Miller, Depois da Queda?

LUCAS: Bom, acho um peso tanto quanto um Nelson Rodrigues, um Shakespeare. Pela qualidade mesmo da escrita. Não é à toa que o texto é montado até hoje. Ele fala de uma realidade norte-americana e toda a questão da Crise de 29, e também do marcatismo. Mas, ao mesmo tempo em que Miller fala de seu país, os EUA, ele fala do mundo, dos homens. De questões humanas vividas por muitos de nós. Como Nelson Rodrigues fala sobre o Brasil, mas é universal. Acho que esse é o peso. Conseguir transcender o micro.

O Hélio: Notou muita raiva no texto?

LUCAS: Não, não... até que não. Se bem que, às vezes sim, mas essa não é a tônica. Ele faz uma grande viagem por todas as coisas que ocorreram na vida dele e faz uma escrita belíssima disso. Tiveram pessoas, por exemplo, em Nova York, que chegaram a dizer que Miller estava, com essa obra, depreciando a imagem da Marilyn (Monroe). Penso que isso não é verdade. É uma declaração de amor, sobretudo uma obra contra a hipocrisia.

O Hélio: Lucas, o que seria a “queda”? Seria a morte de Marilyn Monroe, a morte da relação de Miller e Monroe, a morte dele enquanto homem?...

LUCAS: São várias mortes, viu, Pedro. A queda é a morte dela, é a morte da ideologia dele certamente. São várias mortes. Essas mortes que a gente vai carregando ao longo das nossas vidas. Acho que todo mundo nessa faixa dos 40 anos, tende a fazer uma revisão da vida.

O Hélio: Como é que você sente esse texto psicologicamente? Acha que Miller analisa o passado de uma maneira rígida ou mais indulgente consigo próprio?

LUCAS: É como se Arthur Miller abrisse o peito dele. Tenho a sensação muito clara...acho que ele escreveu isso numa sentada. Acho que ele sentou numa madrugada, depois que a Marilyn morreu, e escreveu isso. O texto tem essa virulência. Não foi uma coisa muito burilada. É pungente, verdadeiro. Tento colocar dessa maneira no palco. Essa coisa de ficar três horas sem cena e não sair em nenhum minuto, acho isso importante. É importante ele estar ali, vendo a sua memória sendo projetada. E, como ator, acho que é um espetáculo que não tem refresco. Para que ele ocorra em toda a sua potencia. Entrou em cena, fudeu. Acho que o espetáculo tem que acontecer dessa forma, como num vômito.

O Hélio: Como você compôs esse personagem? Me fala do processo anterior, dos ensaios
LUCAS: Então, um texto desse tamanho, fizemos um trabalho de mesa (leituras coletivas) e procurei ler muita coisa do Arthur Miller. Li peças dele, romance, fiz uma pesquisa sobre a vida dele. Tentei trazer esse personagem para mim. Então, quais são os pontos em comum com a minha vida. Eu também tenho quase 40 anos. Eu também estou no meu terceiro casamento. Quando resolvi me casar pela terceira vez, também fiz uma retrospectiva da minha vida. Terceiro casamento exige reflexão pra caramba. O mais bacana mesmo foi o elenco. Lidar com amigos. Lidar com gente.
O Hélio: Simone, o que você acha que o teatro ainda tem pra dizer? O que acha que a arte, de modo geral, ainda precisa tocar?
SIMONE SPOLADORE: Não sei... acho que a gente fica fazendo isso pra tentar entender essa pergunta. Acho que ninguém tem essa resposta. A gente tem necessidade de pensar sobre as coisas. Na verdade, a gente está vivo e a gente quer pensar. Embora talvez tudo já tenha sido dito.



O Hélio: Qual é a potência de atualidade que tem esse texto do Miller, que data de 1964?
SIMONE: É um texto potente na medida em que caminha para o lado humano. O humano não envelhece, não tem época, não tem lugar. É uma peça americana. Mas, Miller consegue atingir a todos. Em seus medos, angústias...o que é certo para um é errado para o outro.
O Hélio: Falem um pouco dessa relação que seus personagens, a Maggie e o Quentin, no caso, Marilyn e Miller, tentam viver.
SIMONE: (risos) É, acho que eles tentaram. Eles se apaixonaram. Acho que eles tiveram um grande sonho de amor, um castelo fantástico que se desmoronou. Todo mundo vive isso no amor em algum momento da vida.
LUCAS: Toda essa questão da diferença e do glamour da fama influencia muito. Ele e ela eram pessoas muito diferentes, e de culturas também muito diferentes. Então, eles foram engolidos pela máquina da exposição. E é difícil para o amor sobreviver nisso. Acho triste, como toda história de amor que não dá certo.
O Hélio: Como é que é para você fazer a Marilyn Monroe?
SIMONE: É uma responsabilidade, sim. Todo personagem exige isso. Por outro lado, você tem que se libertar dessa responsabilidade. É necessário se livrar do ideal e ir para o real. Imagina se a pessoa vai ficar pensando nas outras milhares de personagens e espetáculos que ela poderia fazer? Isso seria uma prisão. Então, precisamos pensar na quantidade de grana que temos para o espetáculo, por exemplo. De tempo e por aí vai. Além de tudo, um ator não pode se dedicar em apenas um projeto, porque as contas precisam ser pagas. Tem que fazer novela junto, como é o meu caso. Sabe? Eu estou no Brasil, como é que não vou pensar nisso?
O Hélio: Você se sente pressionada?
SIMONE: É claro que é uma pressão fazer a Marilyn. Mas, isso me dá mais prazer do que pressão.
O Hélio: Qual a intencionalidade dessa peça para vocês?
SIMONE: Além de tudo o que o Lucas apontou antes, o Miller também fala muito sobre a questão do destino americano do sucesso esplêndido, sabe? E vai mostrando o quanto isso é ilusório. A Marilyn é famosa, rica, bela, mas não é feliz na verdade. A impressão que eu tenho é de que ela não se aceita. Esse texto meio que destrói esse mito do sonho americano. Agora, a Marilyn é um mito, é uma coisa maravilhosa. E ninguém vai ser igual a ela. Impossível.
O Hélio: O que vocês falam para jovens que querem ser ator e olham para vocês e se emocionam?
LUCAS: No primeiro momento, fico bem apavorado. Dar aula de teatro é uma responsabilidade tremenda. Despertar essa chama é muito sutil e dá muito trabalho. Mas, a vida é assim: difícil. O importante é ter o brilho no olhar e o esforço.
SIMONE: Tem que ler, ler teatro, ler poesia, ler literatura. Estudar. A nossa profissão hoje em dia é muito vulgarizada. É preciso ter uma visão crítica das coisas, senão a gente acaba caindo num lugar comum do lugar da celebridade. E ser um ator ou uma atriz, é ser outra coisa. 
Agradecimentos: Victor Nalin 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

PEDRO PAULO ROSA: ECOS PELO MUNDO




Por Bia Willcox 

Foto: Divulgação 

Pedro Paulo Rosa, jornalista, escritor. Adolescente idoso e homem brincalhão. Lança, agora, seu segundo livro, O Eco da Girafa (editora Faces, 2012). Pela primeira vez na história do blog O HÉLIO, os papeis se invertem. Bia Willcox, jornalista e dona da Editora Faces, troca de papel com Pedro e se torna sua entrevistadora.



BIA WILLCOX: Tudo bem, Pedro?


PEDRO PAULO ROSA: Tudo bem, Bia?

Bia: Pedro, você estuda História ( na UNIRIO) e atua como jornalista, produtor de vídeos, produtor de eventos dentre outros. Qual o tamanho da formação acadêmica na sua vida?

Pedro: Olha, excelente pergunta...A academia só me traz coisas boas, coisas que incrementam a minha percepção de mundo e os meus olhares pela vida e pelos encontros. Valorizo muito essa coisa da coincidência. Tento observar o caminho da coincidência na minha vida e na vida de cada pessoa. E acho que isso monta um repertório, na maioria das vezes, bonito, no final de tudo. E isso vira literatura, isso vira academia, vira livro.

Bia: Vejo você como um auto-didata. Na verdade, acho que a academia faz o papel de provocar.

Pedro: Exatamente.

Bia: Você lança o seu livro hoje, dia 16 de outubro, O Eco da Girafa. Que metaforiza questões profundas e delicadas das relações sociais e humanas. Que ecos são esses que você quer propagar?

Pedro: Na verdade, são ecos de incômodo pelo mundo que a gente vive. A humanidade acaba sendo um plano falido se a gente olhar pela perspectiva de que a gente viveu enormes e diferentes civilizações e, até hoje, a gente não conseguiu uma harmonia mais plena. Enfim, é um olhar romântico mesmo para o mundo e eu não tenho vergonha de dizer isso. São ecos de incômodo pelo mundo em que a gente está vivendo; ecos de admiração também por esse mundo. Na verdade, é uma chamada pras pessoas que estão ligadas a um palmo além dos seus umbigos. O Eco da Girafa é para essas pessoas.

Em primeiro plano, a editora Bia Willcox e o escritor Pedro Paulo Rosa


Bia: Eu digo, Pedro, que o mundo é dividido numa grande maioria que vai vivendo e numa minoria que acredita que pode mudar o mundo. Você se enquadra nessa minoria?

Pedro: Com certeza (risos).

Bia: O Eco seria, então, a sua arma?

Pedro: É a minha arma.

Bia: Objetivamente falando, seu livro é fácil de ler. Conciso, objetivo, direto ao ponto, o que o torna acessível a diversos grupos de leitores. Foi de propósito?

Pedro: Foi. Foi totalmente de propósito, muito por conta do que ouvia algumas pessoas dizerem do meu primeiro livro, O HÉLIO. Algumas pessoas disseram que é um romance muito pesado. Discordo, mas cada um esboça o que quer. Fiz O Eco pensando mesmo em agregar as diferentes pessoas, idades, pensamentos, coletivos.

Bia: É engraçado, muito interessante você ter usado a palavra eco. Sinto que o livro O Eco da Girafa tem essa coisa de "vamos espalhar esse ideal". E quando você vê o formato do livro, percebe que a tua palavra chega a todo mundo. Bem, o livro hoje costume ter desdobramentos midiáticos. Conquista outros públicos, assume outras linguagens. Algum palpite para O Eco da Girafa?

Pedro: Olha, acho que O Eco da Girafa tem todo potencial, acho que os leitores vão poder dizer isso melhor do que eu. Depois que o reli inteiro, acho que é uma obra que tem todo potencial para se tornar uma peça teatral.

Bia: Uma peça infanto-juvenil?

Pedro: É... depende da leitura. O livro também tem coisas muito adultas. Daria também um bom musical.

Bia: Em parceria com alguns compositores brasileiros, né? ... Bom, fica a ideia. Algum recado para hoje?

Pedro: O recado que eu tenho pra dar é pras pessoas que possam e queiram comparecer, compareçam pra gente tomar um pouco de vinho e refrigerante e compartilhar dessas ideias que nada mais são do que tentativas de uma nova maneira de se comunicar, de se encontrar e fazer cultura na cidade.

Bia: Pedro, vão ter outras sessões de autógrafos, não é?

Pedro: Sim, dia 27 de outubro, um sábado. Vai ser no Espaço Lunático, ali na rua Visconde de Carandaí, 6. No Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Ao longo do lançamento vai ter um show da banda Gambiarra, da Hanna Halm; é uma banda jovem também e uma excelente banda. Enfim, e vai tá fazendo música pra gente junto com literatura. Café Lunático, do Gustavo Falcão. Todo mundo convidadíssimo. A partir das 17 h até umas 22 h.

Bia: Valeu, Pedro, até lá, então!

Pedro: Obrigado, Bia.


Você também pode escutar a entrevista acima no seguinte link:





Outras matérias relacionadas:
O Globo - http://oglobo.globo.com/zona-sul/pedro-paulo-rosa-eco-do-jovem-criador-6361427
Nícolas Queiros - http://nicolasqueiros.blogspot.com.br/2012/09/o-eco-da-girafa-pedro-paulo-rosa.html
Jornal do Brasil on line - http://www.jb.com.br/heloisa-tolipan/noticias/2012/10/07/o-eco-da-girafa-mostra-talento-de-jovem-escritor-apadrinhado-por-caco-ciocler/
Leitura Subjetiva - http://www.leiturasubjetiva.com.br/2012/09/escritor-brasileiro-lanca-livro-de.html
Fernando Saúde - http://fernandosaude.blogspot.com.br/
Jornal O EXTRA - http://extra.globo.com/noticias/rio/pedro-paulo-rosa-eco-do-jovem-criador-6361544.html

Onde comprar?

www.editorafaces.com.br - http://www.editorafaces.com.br/o-eco-da-girafa/

Livraria da Travessa - http://www.travessa.com.br/Busca.aspx?d=1&cta=1&tq=O%20Eco%20da%20Girafa




terça-feira, 9 de outubro de 2012

DANIEL LOPES: DESCOBERTA DA BELEZA




Daniel Lopes conversa com O HÉLIO sobre seu atual trabalho na área da música. O CD BONITO é, de fato, uma obra de arte sensível e para ouvidos apurados, que fecham os olhos ao escuro belo do som. Publicitário e músico, Daniel Lopes congrega as duas atividades com aparente calma. Em seu leque de influências musicais, ele destaca o compositor e cantor Leoni (que já conversou também com O HÉLIO) e Tom Zé.
 
O HÉLIO: Conta um pouco do seu arrebatamento primeiro com a música. Pensava em alguma outra profissão totalmente diferente antes?

DANIEL LOPES: Minha iniciação na música começou aos 5, 6 anos de idade, através do meu pai que tocava violão, e tinha muitos discos… quando tinha 6 anos ganhei um tecladinho casiotone e descobri que conseguia tirar melodias de ouvido. A força das melodias e harmonias sempre foram essenciais pra mim, e me chamava a atenção os sentimentos distintos que os acordes podiam passar… Mas nunca tinha me interessado em tocar profissionalmente, coisa que foi acontecendo paralelamente enquanto cursava publicidade. Acabei abrindo uma produtora de áudio para publicidade, conciliando as duas carreiras, musical e publicitária, e até hoje atuo nos dois universos.
     

O Hélio: Se você pudesse pontuar o que mais peculiar tem em Bonito, o que pontuaria? 

DANIEL: Minha busca pessoal pela descoberta da beleza… o que representa o belo pra mim. 

O Hélio: Como foi a escolha desse nome? O Daniel é uma pessoa muito conectada aos sentidos e significados da palavra (risos)?

DANIEL: Tive essa ideia na mesma época em que viajei pra Bonito (MS) pra fazer um show. Esse nome é muito provocante e ficou na cabeça. Pode revelar modéstia, no sentido de não se auto-definir como excepcional ou fantástico, ou pretensão por propor uma qualificação que não deveria partir de mim, e sim de quem consome a obra. De qualquer maneira, acho que a palavra define muito minha intençao, ou o que eu gostaria de alcançar ao compor essas musicas. Nesse caso, o significado da palavra , ou os muitos significados da palavra, foram muito importantes.

O Hélio: Lendo sobre seu trabalho e te escutando, é impossível não ir para um lugar de paz, de mantras mas também de choques melódicos de bom gosto. Fala um pouco disso.

DANIEL: Uma vez ouvi o Tom Ze falando sobre o conceito "música da natureza". Dizia ele (modestamente demais, aliás!) que fazia música com o racional, com o pensamento, por não possuir o dom da "musica da natureza". Eu achei aquilo muito curioso, e pensei em quem estaria no outro extremo: Debussy? Mozart?. Nao sei se esse conceito é pertinente, mas busquei essa ideia da música da natureza na tonalidade, nos modos... nos significados embutidos em todos nós culturalmente a cada acorde. A tal busca do belo… harmonias, sensações… é por ai.



O Hélio: Quais os novos desafios que esse novo trabalho deseja transpor?

DANIEL: É um disco de música delicada… Gostaria muito que nos tempos de informação excessiva e frenética algumas pessoas achassem o tempo pra apreciar algo que não grita e não berra… que esta ali pelos detalhes.

O Hélio: De que maneira avalia o atual ambiente de produção musical brasileira, Daniel? 

DANIEL: Muita gente muito boa produzindo... Muita gente mesmo. E ao mesmo tempo, sinto falta de um crescimento de público… Parece algo inversamente proporcional, infelizmente.

O Hélio: O que ainda precisa ser dito pela MPB? Aliás, considera a sua música MPB?

DANIEL: Não sei se ela ainda precisa dizer algo. Talvez você se refira à tradição política dos festivais, dos dribles à censura.  Hoje, acho que MPB incorporou a música globalizada do mundo. Talvez não fale mais de sua própria tribo.  De qualquer forma, por ser tão ampla, sempre aparece alguém  novo, como o Criolo falando da periferia de São Paulo. Criolo é MPB? Pode ser… é um rótulo onde cabe muito. Então, no meu caso, posso ser MPB pra alguns, e pra outros não…  não me preocupo muito com isso.
    
O Hélio: Me conta de uma referência forte na sua carreira. Seja ligada à música ou não.

DANIEL: Leoni é uma referencia fortíssima pra mim. Um cara que não é valorizado como deveria, aliás… Um compositor voraz, que não  para nunca. Compõe por necessidade. E assistir isso de perto por alguns anos foi inspirador pra mim.

O Hélio: O vazio, o silêncio, são elementos que lhe ajudam no processo de composição?

DANIEL: Mais do que o silêncio, a solidão pra mim é importante… Bonito foi composto quando eu morava sozinho, num apartamento como uma varanda grande, em um andar baixo. A nostalgia do barulho dos carros passando era uma constante. Gravei esse som no celular e usei em "Medo de Avião".



O Hélio: Um recado para quem ainda não teve a bela experiência de conhecer o seu som.

DANIEL: Conheça!  É um disco verdadeiro, de vida exposta. Se você embarcar nele, ele vai te fazer bem.

O Hélio: Agenda. 

DANIEL: 9 de outubro, as 20h30 na Miranda (RJ) no projeto PatuÁ
Novembro em SP e MG.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

MARCOS HASSELMANN: NASCER É O MAIOR DESAFIO






Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Arquivo pessoal do entrevistado 

Marcos Hasselmann traduz na sua voz a potencialidade do ser sensível que é. De Niterói, ele agora ganha o mundo com o seu show "Sala de Estar", ao lado do conceituado e sensível maestro Osmar Barutti. Com apreço ao jazz e música clássica, Hasselmann não deixa de lado as suas raízes juvenis, quando subia os morros niteroienses em busca de um bom samba e do seu cavaquinho. Unindo cordas e ar, o samba jazz de Marcos Hasselmann e Osmar Barutti faz com a música uma alquimia de muito bom gosto. O cantor separou um pouco do seu tempo e conversou com O HÉLIO. O músico não esconde da onde vêm tanta inspiração: do grande amor e saudade que sente pelo pai. E da sua infinita admiração pela música. 

O HÉLIO: Como foi sua infância?

MARCOS HASSELMANN – Tive uma infância deliciosa. Morávamos numa casa confortável, onde tinha muitos amigos. Estudava em um colégio muito bom. Da infância, trago ótimas recordações dos dias de sol na prainha da casa dos meus avós, com meus primos, que eram muitos. Brincando, pescando, nadando... também me lembro de tentar dar uma de jardineiro com o meu avô. Ele era um cara muito especial pra mim e adorava ouvir as histórias que ele contava.

O HÉLIO: O primeiro encontro com a musicalidade se deu de que maneira, se você pudesse mapear?

MARCOS: Quando era menor, passava em frente a umas lojas de instrumentos musicais no centro da cidade e ficava vidrado nos violões; adorava o cheiro deles. Era uma coisa que me atraía muito. Aliás, para mim tudo tem cheiro. Sempre tem cheiro ligado a uma situação, época, música. Pedia à minha mãe que comprasse violão pra mim toda hora. (RISOS) Até que um dia ela me deu um. Foi aí que tudo começou. Antes, ouvia música; cantava algumas, mesmo em inglês que eu não falava naquele tempo.

O HÉLIO: Você ao mesmo tempo que curte um jazz, ama um cavaquinho. Conta.

MARCOS: Sempre ouvi de tudo. Tinha acesso a todo tipo de música. Faço aniversário em janeiro, aí, já viu, pedia LP de presente. Então, minhas férias eram ao som do LP ganhado no aniversário. Adoro samba, meus pais sempre ouviam discos de samba enredo. Clara Nunes direto, Alcione, Beth Carvalho...além dos internacionais. Tive um professor de violão que me ensinava músicas do tempo dele; nesse sentido, pude ter acesso às músicas de serestas, caipiras etc. Foi com este professor que também tive a oportunidade de cantar e tocar nos saraus de fim de ano.  Minha mãe também canta super bem; é muito gostoso subir ao palco com ela.

O HÉLIO: De que maneira a música lhe transporta?

MARCOS: Isso é muito interessante. Para mim tudo é música. Tudo tem música e cheiro; e quando estou cantando, fecho os olhos e me deixo levar pelos sentimentos que a música está passando. É uma viagem.

O HÉLIO: Quem você destacaria, na sua família ou fora dela, como um dos seus principais incentivadores?

MARCOS: Meus pais, sem dúvida nenhuma.
O HÉLIO: Assumir-se cantor é abrir o peito. Exige muita coragem num mundo tão programado. Tá preparado para isso?

MARCOS: Nascer é o maior desafio. Não temos noção do que vamos passar e  mesmo assim nos esforçamos para nascer. Pra mim, cantar é viver. E pra isso tenho muita coragem.

O HÉLIO: Como se deu a parceria com o maestro Osmar Barutti?

MARCOS: Nos conhecemos faz quatro anos, quando fui convidado para o “Programa do Jô” por causa de um incidente engraçado que aconteceu comigo. Quando me convidaram, topei e falei que era cantor e que gostaria de cantar no programa.  Aí, mandei uma MP3 minha cantando uma música muito difícil chamada Moody’s mood. O maestro, quando me ouviu, gostou muito e me convidou para dar uma canja num show dele com o Bira em Campinas (SP). Fiquei muito honrado e feliz. Fui, né? (RISOS). Tempos depois, fiz contato com ele e resolvemos montar este show, o “Sala de estar”.

Marcos Hasselmann com amigos. Com ele, estão Osmar Barutti e  Bira 

O HÉLIO: Pode falar um pouco sobre o conceito que estão construindo para o show de vocês?

MARCOS: O que queremos é mostrar boa música para as pessoas. É basicamente isso. Criamos a nossa sala de estar para trazer o público para o nosso mundo musical. Para as músicas que ouvimos.

O HÉLIO: Dentre várias coisas, qual a principal que sente que seu pai lhe pontuou? O que diria a ele naquele seu primeiro show lotado?

MARCOS: Meu pai me ensinou a sonhar. Me ensinou a enxergar a vida e as pessoas com os olhos do coração. 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

ANTONIO BORDALLO: DEUS É FÍSICA E QUÍMICA, É O SOL



Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Arquivo pessoal do entrevistado 

         Essa é uma entrevista que se edita com os olhos boquiabertos. Ainda que olhos não sejam boca, a surpresa – após ler esta entrevista – reside em todos os sentidos do corpo. Antonio Bordallo, brasileiro, atualmente radicado na Estônia, aceita gentilmente falar sobre sua trajetória, ou pelo menos, um dos seus principais divisores de água. Numa conexão Brasil-Estônia, ele fala ao O HÉLIO. Após ter sido brutalmente arrastado por um ônibus dentro do túnel velho de Copacabana (oficialmente chamado Alaor Prata), Antonio teve o seu sonho de residir na Europa interrompido para viver uma difícil fase de aprofundamento forçada pelo acidente. Ler, ouvir, falar com Antonio Bordallo é um enriquecimento da nossa simplicidade humana, atualmente cada vez mais rara entre nós.

O HÉLIO: Morte. Como você mudou a sua relação com essa palavra? Quais novas sensações emergiram a partir do ocorrido?

ANTONIO BORDALLO: Naturalmente que minha relação com a morte mudou. Ninguém que fica realmente cara-a-cara com ela consegue sair ileso de uma experiência dessas, e posso dizer que essa relação não muda uma única vez... Ela vai se modificando, como se moldando ao longo dos tempos, em função das experiêcias vividas. Com toda a dificuldade e sofrimento que vivia nos primeiros anos, por mais que as coisas estivessem sempre melhores que no dia anterior, a morte representava de certa forma uma libertação, um momento em que finalmente todo aquele sofrimento iria cessar, um merecido descanso. A vida de uma pessoa deficiente sempre tem um certo grau de dificuldade, pois mesmo os com deficiência leve convivem com o fato de que há algo que já não podem mais fazer como faziam antes. Talvez por isso que quando fico sabendo do falecimento de algum deficiente, apesar da tristeza pela perda, penso que essa pessoa finalmente se libertou de um sofrimento nesse corpo/matéria que o aprisionava e vai poder enfim aproveitar uma “vida" sem limitaçoes onde quer que esteja... Posso estar errado nesse raciocínio, mas me baseio no fato de que nos meus sonhos eu sempre apareço andando, sem deficiência alguma, e não à toa que houve época que eu preferia ficar dormindo do que acordar e ter que constatar essa difícil realidade, a ponto da coisa se inverter a um nível em que o sonho parecia que era minha vida rotineira e a realidade me soava apenas como um pesadelo pontual que eu tinha que passar, como um protocolo. Apesar de chegar a esse nível, nunca tive nenhum quadro concreto de depressão (ao menos não considero isso que acabei de dizer como tal) ou qualquer convicção ao suicidio (até mesmo porque, se eu quisesse mesmo... 

O Hélio: Pode falar mais sobre isso? 

ANTONIO: Pedro, já estive com a faca e o queijo na mão pra decidir, mesmo tendo dias que me deu vontade de não ter existido, mas se a gente pensar bem, todo mundo passa por isso. Independente de ter alguma deficiência ou não. Uma analogia divertida que passei a usar como "desculpa" pra continuar vivendo. Minha vida é como se fosse um filme em primeira pessoa que estivesse assistindo: eu poderia deixar a sala de projeção antes do filme acabar, mas já que sou uma pessoa muito curiosa pra saber o final do filme, eu continuo aqui na poltrona, assistindo e torcendo pro protagonista superar tudo isso e se dar bem.




Antonio Bordallo em três momentos diferentes antes do acidente 


O HÉLIO: Como foi sua infância?
ANTONIO: Apesar de alguns discordarem, tive sim uma infância bastante difícil, pois apesar de nascido e criado em Copacabana, venho de uma família muito simples, que compartilhava um apê quarto e sala bem pequeno. Minha mãe, uma costureira que fazia roupa pras madames de Copacabana (cuja manutençao de sua clientela até hoje depende dela se virar pra viver lá) e um pai dentista, porém quase falido por conta do vício em apostas em corridas de cavalo (dia desses mesmo andei refletindo que, talvez por conta dele, nunca fui a nenhum circo, mas era habituée do Jóquei Clube aos fins de semana) e que não dava a mínima pra minha família, já que possuía outra com quem morava. Ser criado em Copacabana sempre denota que você está no bairro mais famoso do Brasil, tendo tudo do bom e do melhor. Isso acontece quando você é de uma família tradicional. Se você nao tá no topo da pirâmide, vai ver todos a seu redor tendo tudo do mais legal: brinquedo , guloseimas, cinema... só que o acesso verdadeiro não existe. Enquanto uns criam uma aversão aos playboys (alguns deles a ponto de entrar pro crime pra tomar à força o que acham que lhes pertence), outros passam a refletir os problemas dessa desigualdade social e pensar em formas de evoluir de alguma forma, e é justamente aí onde me encaixo e sei que faço parte da maioria. Graças aos esforços da Dona Cristina (minha mãe), me preparei e continuei meus estudos num colégio federal (Colégio Pedro II), o que na época representava um estudo com qualidade apesar de público.

O HÉLIO: Não fica nenhum tipo de raiva em você depois de tudo?

ANTONIO: Se eu disser que não senti raiva, é mentira. Na verdade era um grande sentimento de injustiça que acabava se transformando em raiva. Não cabia na minha mente a ideia que na mesma noite em que lutava entre a vida e a morte num leito de hospital público, o (inclua seu adjetivo preferido) do motorista que passou por cima de mim estava muito bem dormindo em sua cama quentinha, sem nenhum arranhão. Não, eu não queria que ele tivesse perdido uma perna ou se ferido também, mas que pelo menos fosse punido ou multado por sua imprudência. A barbárie nunca gerou solução para nada, mas é esse Estado de Direito que, mesmo passados 7 anos, considera normal o fato de eu não ter recebido nem um centavo sequer dos algozes legais. Até um tempo atrás, esse sentimento de raiva/injustiça se fazia bastante presente, mas depois de muito conversar com minha esposa, ela me convenceu de que cultivar esses sentimentos na minha mente não era nada bom, que eu tinha que, se não perdoar, pelo menos eliminar da minha cabeça qualquer sentimento ruim em relação a eles, que as coisas poderiam passar a fluir melhor a meu favor. Desde então minha raiva acabou se transformando em pena, pois não deve ser nada legal você, por mais que negue para si próprio, saber lá no fundo que foi o responsável por destruir a vida de uma pessoa. Deve ser um incômodo que não desejo nem pra ele mesmo.
O HÉLIO: Então, o amor te amenizou?
ANTONIO: Pode até soar brega dizer que "só o amor constrói", mas o fato é que até hoje nunca vi nada realmente grande e duradouro ser construído à base de ódio ou rancor. Além disso, a sensação de ter uma vida conjugal estável, dormindo e acordando todos os dias com essa pessoa, dá uma sensação de segurança muito boa. Ter uma pessoa parceira do lado ameniza qualquer tensão, angústia, insegurança.


O HÉLIO: Conta como é que tudo aconteceu.
ANTONIO: Para ambientar melhor os leitores, um pouco da minha situação anterior ao acidente: depois de ter cursado Letras e Relações Internacionais anos antes, resolvi continuar com meu trabalho de guia de turismo no Rio, que já fazia desde 2000, para juntar dinheiro e então realizar um sonho que tinha desde minha adolescência: emigrar pra Europa. A única coisa que me prendia no Brasil era a carteira de motorista. Na pior das hipóteses, poderia pegar algum emprego de motorista em Londres, que era o meu destino planejado. A passagem eu já estava pra comprar nos próximos dias, uma vez que a data de embarque havia sido decidida: em duas semanas, no máximo, a partir daquela semana. O dia 4 de maio era um dia sem trabalho marcado, e por isso fui cuidar de outros assuntos e fui à academia perto do meio-dia. Ao sair de lá, umas 13h 30 min mais ou menos, resolvo concluir a malhação dando uma volta de bicicleta pela Lagoa. Em vez de pegar o caminho de sempre, pelo Corte Cantagalo, resolvi cruzar o Túnel Velho, que era há poucos metros da academia, e seguir pelo Humaitá. Entro no túnel, vazio naquele momento, mantenho-me no canto da pista, a fim de evitar ser pego por outro veículo que viesse no meio na pista e não me visse.
Quando estou na metade do túnel o que vivenciei parece ter sido uma troca abrupta de cena no meio do filme: numa cena estou dentro do túnel cuidando pra me manter no meu canto, e do nada corta pra outra cena completamente diferente. Eu deitado com minhas costas raladas a queimando num asfalto quente das 13h. Um ônibus surgiu do nada, sem sinalização visual ou sonora, me atropelou e foi me arrastando debaixo dele até fora do túnel. Olho pra baixo e minhas pernas estão num estado impossível de descrever, e longe de mim uma multidão me observa e diz pra não me mexer muito, que a cada momento que tento me levantar, bombeio mais sangue pra fora do meu corpo. Os pedestres me observam estirado no asfalto quente, sem coragem alguma pra descerem e me prestarem qualquer socorro. Nem mesmo o motorista ou qualquer pessoa que está dentro do ônibus. Pensam que já era mesmo, que em questão de tempo morrerei na rua ou no hospital. Enquanto isso, não parava de tentar me levantar, de querer tomar alguma atitude; mesmo sabendo que não tinha lá muito que se fazer. Uma senhora acabou criando coragem e desceu para acalmar e esperar a ambulância comigo. Lembro claramente do momento dentro ambulância, com os paramédicos me reanimando, mas ao mesmo tempo batia aquele sono dos mais gostosos que já senti, aquele sono tentador, ao mesmo tempo em que ao meu redor havia pura tensão e caos. O paramédico dizia pra eu não fechar os olhos e nem dormir, pois muitos numa situação dessas se entregam ao sono e não retornam nunca mais. Tive que escolher entre um sono maravilhoso, que me faria escapar de todo aquele caos que me rodeava ou uma vida que sabia: não seria mais como eu planejava.

O HÉLIO: Narra para a gente as suas sensações após o acidente. 
ANTONIO: A primeira lembrança que tenho após chegar ao hospital e entrar na sala de cirurgia foi no dia seguinte - uma médica se aproxima e, conversando placidamente comigo, me diz que o acidente que sofri foi muito grave e por conta disso tive a perna direita amputada e a esquerda lesionada seriamente. Pode parecer estranho, mas minha reação automática foi dizer: “foi só isso mesmo, doutora? Então tô no lucro até”. De fato achei que, dada a dimensão do acidente, a consequência seria muito pior que uma perna amputada. Eu que sei a porrada que é ter um ônibus te atropelando e te arrastando. Eu não estava nem me lamentando pelo que perdi, mas celebrando o que sobrou! Não me lembro de ser tão corajoso assim como sou hoje.


Antonio logo após a cirurgia. Ele sorri por ter saído vivo. Resistiu ao  perigoso sono


O Hélio: O que é essa coragem, Antonio?

ANTONIO: Olha, Pedro... Essa coragem na verdade é a minha vontade de viver que está disfarçada. Quando faço coisas impensáveis para um cadeirante, como descer escadas sozinho, na real foi a minha vontade de descer a tal escada que me levou a calcular um jeito seguro de fazer isso, e aí sim, no final eu preciso um tantinho de coragem pra me jogar perante o desafio desconhecido. Uma vantagem disso é que cada vez mais adiciono no meu repertório de façanhas, coisas que não imaginam muito que um cadeirante faça. Afinal, muitos ainda se perguntam como que um cadeirante como eu faz pra morar no quarto andar de um prédio sem elevador, e tendo que subir e descer escadas todos dias pra ir ao trabalho.

O Hélio: Você, por acaso, se transformou numa pessoa fanática, religiosa?

ANTONIO: Se tenho algum fanatismo é por aproveitar tudo o que essa vida quer me oferecer. Sei que acontecimentos impactantes tal como um acidente sério assim como o que sofri costumam transformar as pessoas, e muitas destas viram pessoas super religiosas, mas não foi muito meu caso. Após o momento do meu acidente, não tive nenhuma história mirabolante pra contar.

O Hélio: Fala mais disso.

ANTONIO: Não vi nenhum filme passando pela minha cabeça, nem Deus surgindo na minha frente com aquela voz com eco fazendo uma revelação pra mudar minha vida. Respeito quem diz que viveu isso. Mas, comigo, isso não rolou. Não me considero ateu (mesmo morando atualmente no que é considerado o país mais ateu do mundo, a Estônia), até porque creio bastante nas forças da natureza e do pensamento. Tenho simpatia com algumas crenças, mas isso não me faz um seguidor, até porque pra mim as religiões se apresentam sempre como um pacote completo: você não pode apenas crer no que você já tem convicto dentro de si, mas sim aceitar compulsoriamente uma outra série de dogmas e normas de conduta para se enquadrar naquele perfil de fiel. Eu acredito no que quero apenas, e nisso inclui o respeito às pessoas que diferem da minha opinião. Pra mim Deus é Física e Química, é o Sol, assim como é também a arte do acaso, a sorte, e principalmente o bom senso. Baseado nisso que me considero pra lá de sortudo de ter sobrevivido a esse acidente. Como digo, foi uma segunda chance de viver que ganhei de Deus, esse mesmo Deus que disse anteriormente. Ele sabe que lhe sou muito grato, e por isso mesmo que meu objetivo maior nessa nova fase é ser feliz e fazer os outros felizes. Pra mim, uma pessoa poderosa não é aquela que todas acabam por obedecer, mas sim a que consegue fazer de certa forma todos a seu redor, mais felizes. Isso sim é poder pra mim. À propósito, mesmo com essa opinião forte em relação à religião, pessoas das mais variadas crenças rezaram e pediram à Deus por minha recuperação, e por isso que sou extremamente grato a todas elas. Cada um pediu a Deus minha melhora na sua forma mais verdadeira e sei sim que cada um que pediu por mim foi responsável em parte pela minha recuperação.

 Antonio em Londres (2012)