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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

NOSSA VIDA É NOSSA PRIMEIRA FICÇÃO




Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Lilo Clareto
Revisão textual: Paulo Cappelli

     
      Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista, é a convidada d’ O Hélio. Dentre os mais de 40 prêmios nacionais e internacionais recebidos pela sua carreira desenvolvida na estrada do jornalismo e da literatura da notícia, aqui vamos ficar com o seu lado romancista.
“Uma Duas”, romance de estreia de Eliane, é a sua primeira obra ficcional, publicada neste ano. Com uma maneira direta de colocar a emoção dentro das letras, a palavra que salta mais alto durante a leitura de “Uma Duas” é o desespero do novo, do medo de lidar com o incerto, como mesmo diz o livro, a vida tem grandes chances de se tornar um grande mal entendido. Uma filha tentando ser mulher, e uma mulher não querendo parar de ser mãe. A ponte que as separa e interliga é belamente construída pela sensibilidade de Eliane Brum.
     
O HÉLIO: Qual o primeiro contato de Eliane com a literatura?

ELIANE BRUM: Acho que o meu primeiro contato com a literatura foi por inveja. Eu nasci meio temporona e meus pais e meus dois irmãos já liam. E liam muito. E, enquanto eles liam, a minha vida – a vida de quem não lê – era muito árida. Lembro deste sentimento de estar fora do mundo, porque não tinha acesso aos livros. Quando aprendi a ler, a vida se tornou possível. Eu passei a habitar a literatura, mais do que o mundo real. E então pude ser outras, viver outras vidas e existir em outras paisagens.

O.H.: O lugar de origem, Ijuí, te influenciou de alguma maneira em suas produções?

ELIANE: Sim, Ijuí até hoje é o lugar onde testemunhei e ouvi as melhores histórias de toda a minha vida. Gabriel Gárcia Márquez deve ter passado por Ijuí em algum momento para escrever Cem Anos de Solidão (risos). Um dia ainda vou contar as histórias reais de Ijuí e todos vão pensar que é ficção.

O.H.: O Jornalismo foi mais uma escolha e um esforço ou uma consequência natural oriunda de práticas?

ELIANE: O jornalismo entrou na minha vida um pouco por acaso, muito por sorte. Eu fui me inscrever para Informática no vestibular e alguém mais inteligente que eu, mas que morava dentro de mim, assinalou Jornalismo. Até bem perto de me formar tinha certeza de que não servia para ser repórter. Era muito tímida e não tinha vontade de escrever histórias sobre homens que mordem cachorros. Então, conheci um professor, Marques Leonam, que me disse que era possível escrever sobre as pessoas comuns, a vida que se repete. Eu fiz uma reportagem para a disciplina deste professor no último semestre da faculdade, sobre as filas que todos nós entramos desde que nascemos até morrermos; esta reportagem ganhou um prêmio num concurso entre universidades da região sul do país; o prêmio era um estágio na Zero Hora de Porto Alegre; e lá eu fiquei 11 anos, descobri que ser repórter é a melhor profissão do mundo e a primeira história que reescrevi foi a da minha própria vida.

O.H.: Quando que a Eliane escritora despertou para si mesma?

ELIANE: Eu sempre escrevi com os olhos e os ouvidos, mesmo antes de ser alfabetizada. Desde pequena gosto de olhar e de escutar. E desde pequena percebi que o mundo era desigual e doía por causa disso. A escrita para mim é uma maneira de dar sentido ao caos da vida, que não tem sentido algum exceto o que a gente inventa para ela. Nossa vida é nossa primeira ficção.

O.H.: No caso do seu esperado primeiro romance, a temática da mãe e da maternidade; bem como a relação aflitiva e ansiosa entre a filha e as várias representações que fazia da mãe nortearam um livro psicológico, denso e extremamente belo no conjunto de imagens que a narrativa propõe. Por que estrear falando de mãe, falando de morte?

ELIANE: A necessidade de escrever ficção ficou clara para mim depois de trabalhar por dois anos com a questão da morte na reportagem. Não a morte violenta, amplamente coberta pela imprensa, mas a morte que a maioria de nós terá, por doença e por velhice, e por ser a morte da maioria é tão calada na nossa época. Esse profundo confronto com a morte fez transbordar um não-contado em mim que veio de toda a minha vida, de todas as histórias que eu escutei, vivi, senti, percorri. Percebi ali que há certas realidades que só a ficção suporta. E para dar conta delas, antes que dessem cabo de mim, precisei criar uma voz na ficção. O tema do relacionamento entre uma mãe e uma filha se impôs para mim, de dentro para fora. Escrevi sobre um tema universal e crucial para as mulheres: como uma filha se arranca do corpo da mãe. O José Castello, que fez a primeira crítica do livro no Prosa & Verso, de O Globo, deu um título muito preciso a seu artigo: “Eliane no útero”. Acho que é simbólico que minha primeira ficção seja sobre este arrancar-se do útero.

Capa do livro " Uma Duas"


O.H.: Onde tem marcas pessoais suas ali naquela personagem ou o livro não possui nada de autobiográfico?

ELIANE: Eu sou filha e também sou mãe. Meu romance não é sobre minha relação com minha mãe – nem sobre minha relação com minha filha. Neste sentido, não tem nada de autobiográfico. Mas é claro que tem ecos de todas as experiências que vivi, testemunhei ou escutei em uma trajetória de quase 24 anos como contadora de histórias reais. Eu sou uma olhadeira e uma escutadeira da vida. Meu romance contém essa trajetória.

O.H.: Que leituras, autores têm te acompanhado durante a vida, especificamente, no atual momento?

ELIANE: Eu sou uma leitora obsessiva. Mas também sou uma leitora que só leio por prazer. A leitura para mim é algo tão nobre que não concebo ler por obrigação. Não tenho nenhum prurido de dizer que leio best-sellers quando estou massacrada pelo cotidiano e preciso apenas sair de mim por algumas horas. Mas os escritores que me marcaram e que me acompanham pela vida são aqueles que me transtornaram. E eu tenho fases. Quando gosto de um autor, leio tudo dele. Foi assim com Balzac, Dostoievski e Tolstoi, com Thomas Mann, com Tanizaki, com Jack London, com Raymond Chandler e David Goodis, com Edgar Alan Poe e Lovecraft, com Érico Veríssimo e Jorge Amado, com Gabriel Gárcia Márquez e Mário Vargas Llosa, só para citar alguns.  E, antes deles todos, com Monteiro Lobato e até mesmo com José de Alencar. Hoje, estou tentando conhecer melhor a literatura brasileira e portuguesa contemporânea, autores como Luiz Ruffato, Cristóvão Tezza, Gonçalo Tavares e o prório José Castello, que lançou um primeiro romance lindo. Mas, os autores que espero com mais ansiedade hoje são Ian McEwan, Coetzee e especialmente Philip Roth.

O.H.: Como avalia os desafios que uma pessoa que deseja se aventurar a escrever uma obra literária precisa ter? Foi fácil o processo de escrita, como é que é esse caminhar?

ELIANE: Escrever não é fácil, como quase nada é. É um ato de entrega absoluta – e se entregar não é uma escolha fácil nem sem alto custo pessoal. É preciso estar disposto a mergulhar nos abismos interiores, lá onde moram os peixes cegos, e conseguir voltar de lá. Pelo menos esta é a minha experiência. Enquanto escrevi meu romance, vivi nos subterrâneos de mim e encenei a vida de todo dia. Foi brutal.

O.H.: De que maneira a Eliane Brum enxerga a literatura digital e a tão falada possibilidade do livro formal, impresso, "morrer" ?
ELIANE: Eu adoro cheirar livros, apalpar, acariciar... Mas acho que estou adorando mais ainda carregar um montão de e-books sem nenhum peso físico no meu Ipad, dentro da minha bolsa. Não faço o tipo nostálgico e acho todas essas novas possibilidades excitantes e maravilhosas. Nosso mundo está bem novidadeiro e fico feliz de estar viva para participar disso. A literatura continua no mesmo lugar, é só o livro que muda. Não acho que isso altere a experiência de ler a ponto de alterar a experiência literária. O que altera profundamente – e deve alterar mais ainda – é o modelo de negócio editorial.
O.H.: Acredita que a leitura, a literatura transforme o social de maneira mais efetiva que o esporte?

ELIANE: Nunca pensei em comparar literatura com esporte. Acho que são coisas bem diferentes. Não sei falar do esporte, porque ele não tem um lugar importante na minha vida. Faço Pilates para manter minhas quatro hérnias na coluna vertebral em forma e todo ano prometo que vou fazer mais, mas é só. Sei que pode ser muito transformador para muita gente, mas não conheço o suficiente para falar a respeito. E palpite anda sobrando no mundo. Já a literatura e também a reportagem tenho certeza de que são altamente transformadoras, porque esta é a experiência de mediação com o mundo da qual posso falar com alguma propriedade, não só como escritora, mas principalmente como leitora. Rogério Pereira, editor do Rascunho, e o escritor Luiz Ruffato, inclusive, brincam com a ideia de criar a “Igreja do Livro Transformador”. Basta participar dos saraus de poesia da periferia de São Paulo para ter certeza de que a literatura transforma a vida e abala as relações de poder estabelecidas.

O.H.: Quais as perspectivas para o brasileiro se tornar um leitor pleno?

Educação de qualidade, coisa que nunca, mas nunca mesmo, foi prioridade neste país. Em nenhum governo, em nenhum nível (federal, estadual e municipal). E também não no governo Dilma, como não foi no de Lula e também não foi no de FHC, só para ficar nos governos mais recentes. Em São Paulo, por exemplo, acho que o PSDB deveria ter vergonha de estar há tanto tempo governando o estado mais rico do país e manter uma educação de péssima qualidade. É preciso fazer muito mais do que se faz. E acho que não fazer é criminoso. A boa notícia é que os moradores das periferias, aqueles que frequentam a escola pública e dependem dela, estão começando a fazer por si mesmos. Mas não podem fazer sozinhos. É preciso que o Estado faça – e faça agora – a sua parte. E que a gente pare de votar em quem não faz – e passe a responsabilizar quem não faz. É só pela educação que se qualifica o desejo de um povo. Se a educação fosse melhor neste país, nós teríamos uma literatura escrita muito mais interessante, porque já estive muitas e muitas vezes diante de analfabetos que faziam literatura pela boca. O brasileiro tem uma linguagem sofisticada, riquíssima, cheia de achados, mas, infelizmente, boa parte é analfabeto ou semianalfabeto, mesmo frequentando a escola, e por isso fica apartado do mundo da palavra escrita.

O.H.: Dicas a jovens que sonham em publicar seus primeiros livros. É, de fato, para poucos?

ELIANE: É para quem quer muito. E eu acho que poucos querem muito. Se você quer escrever um livro, você escreve. E, hoje, a internet está aí para “publicá-lo”, se for recusado pelas editoras. E há novas formas de financiamento para projetos de todos os tipos. Mas o desafio é o mesmo de sempre: escrever um livro com qualidade suficiente para que as pessoas queiram lê-lo.

O.H.: A distribuição cultural no Brasil, principalmente via os preços dos livros ainda altos, é desigual. Isso te incomoda de alguma maneira?

ELIANE: Em todos os meus livros, fazer um livro barato é sempre um dos temas centrais da minha negociação com as editoras, assim como lançá-los na periferia com desconto. Por enquanto, tenho conseguido fazer isso na Cooperifa, sarau da Zona Sul de São Paulo. Os livros são muito, muito caros. Mas os livros digitais e a internet já começam a mudar isso.

O.H.: Como conceituaria o jornalismo que pratica?

ELIANE: Como jornalismo.

O.H.: Qual o pensamento que está lhe acompanhando neste momento?

ELIANE: Se estou sendo honesta com o meu desejo e com a minha busca.

O.H.: Durante uma vida experiente e tão diversa em atividades, poderia sublinhar fases de maior dúvida na sua vida? Dúvidas que nos movimentam.

ELIANE: Eu sempre estou duvidando, de tudo e especialmente de mim mesma. É a dúvida que nos move. Fujo de gente com muitas certezas. Especialmente se forem repórteres.

O.H.: O livro "Uma Duas", classificado como um romance, é a história de amor e temor entre uma mãe e uma filha? Qual é o saldo que tira da obra estreante?

ELIANE: Escrevi o que queria escrever. Acho isso muito grande. Agora é com os leitores, já saiu do meu controle.

O.H.: Expectativas: novo livro chega quando?

ELIANE: Não sei. Agora preciso passar um tempo no vazio, para elaborar tudo o que vivi nestes últimos anos, dar um lugar para algumas coisas que permanecem fora de lugar, desacomodar outras que ocupam um lugar que não lhes pertence. É hora de me reinventar de novo.