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domingo, 28 de agosto de 2011

“Não faço música para músico” – Cascadura Samba, a nova obra de Micheline Cardoso

Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Lucas Conrado / divulgação
Revisão textual: Paulo Cappelli




Fala com voz vibrante, no seu olhar a marca maior é o agito, o fogo de quem tem certeza do que está respondendo e procurando. Micheline Cardoso fala sobre o seu quarto álbum, “Cascadura Samba” e está à vontade com O HÉLIO para contar sobre sua experiência profissional como vocal de Tim Maia, Geraldo Azevedo, Nando Reis; sobre como iniciou na música e – sem medo – afirma que a relação com seus fãs é verdadeiramente próxima, sem o pedestal da diva. Em tempos de alta tecnologia aberta a todos, o espectador anda cada vez mais autônomo para escolher quem vai escutar. A internet entrou para a carreira de Micheline Cardoso como um dos elementos fundadores. Nascida no subúrbio carioca, esta artista trilha um singular caminho musical, consolida uma carreira no exterior e vem ao encontro dos brasileiros com o seu atual trabalho. A seresta, gênero muito executado pelo seu pai, foi o pontapé inicial para lidar com a música.

Obviedade é a última coisa que encontramos na fala de Micheline Cardoso e em seu trabalho artístico. A moça transborda o autêntico na música, na voz, no olhar e nas ações.

O HÉLIO: O seu atual trabalho fala sobre o quê?

MICHELINE CARDOSO: Fala sobre a vida, sobre o que eu vivi em Cascadura; fala sobre o amor, que é inevitável. Coisas cotidianas. Eu morava em Jacarepaguá numa casa super bacana, mas fui assaltada duas vezes, uma delas em frente a essa casa. E nessa época meu marido estava em Fortaleza. Peguei meus filhos e fui para casa da minha mãe, que mora em Cascadura. Nisso, a gente percebeu um novo ambiente, a estação de trem, as pessoas que moram lá.

O HÉLIO: O que tem lá de diferente?

Micheline: O aconchego. As pessoas são mais próximas. Eu não quero fazer essa separação não, acho muito chato isso. É diferente porque é diferente. O tempo das pessoas é diferente. As pessoas do subúrbio participam mais da sua vida. Porque tem tempo, tem churrasco. Ainda tem aquela coisa do vizinho. Quando saí de Cascadura, fui para Ipanema e não conheci quase nenhum vizinho. Aqui, fazemos as coisas muito correndo.

O.H.: Dá pra fazer samba mais fácil no subúrbio?

Micheline: (RISOS) Dá pra fazer samba mais fácil, rock mais fácil, tudo mais fácil...na verdade, isso também é uma curiosidade. Nunca falei isso em entrevistas; eu tenho por mania colocar o nome samba em todos os CDs. O primeiro se chamava “Samba de Pista”, e agora o quarto: “Cascadura Samba”. Mas, não tem só samba. Minha música tem elementos de samba. Tanto que vou participar do evento Festival da Nova Música Brasileira que é só de rock pesado. O atual está bem rock, acho que também por isso que a resposta do público está sendo bem rápida. Em outubro, vou fazer turnê para Europa e o nosso circuito será bem alternativo. Então, meu atual CD também é muito alternativo.

O.H.: Como assim?

Micheline: Fazemos circuito club. Para 800 a 1500 pessoas que querem escutar o meu trabalho. Eu só faço trabalho autoral e só canto em português.

O.H.: Até a sua forma de mandar beijo é autoral!

Micheline: Exatamente! (RISOS) Sempre mando sambeijos...já me mandaram registrar isso no INPI.

O.H.: Como é que você construiu o caminho profissional lá fora?

Micheline: Totalmente ligada à internet. Desde o nosso primeiro CD, deixamos tudo disponibilizado na internet. Há muito tempo, bem antes desse discurso “a música é de todos”. O myspace também nos ajudou muito nesse inicio. Os DJs e VJs lá de fora começaram a ver meu trabalho no myspace e me pediram música para remixar. E aí eu mandei a minha música “ Que nego é esse”. Essa galera me perguntou: você não quer fazer uma turnê aqui (na Europa). E foi assim, perfeito! Começou daí. Já estou na quarta turnê na Europa, começo a viajar dia 11 de Outubro. A primeira vez em que fui banquei passagem, agora isso mudou.

O.H.: Sua marca autoral mudou muito?

Micheline: Acho que não. Cheguei a resgatar músicas do meu CD “ Samba de Pista” para o “ Cascadura Samba”. No caso do atual, estou tendo uma distribuição lá no exterior. O que não acontece no Brasil; aqui eu mesma mando via Correios. Mas, lá fora, tenho uma distribuidora e uma gravadora, chamada “Afrobaile”, que penetra no mundo todo. Dessa vez, está bem diferente. Estamos chegando em revistas de Londres, da Holanda, Eslováquia. Eu nunca pensei que fosse chegar uma música minha na Eslováquia! Fiquei emocionada. Falei, porra! Por isso que eu digo que a música não tem esse negócio de rótulo. É sentimento. Se a pessoa sente que tem uma coisa que move diferente, ela fica.





O.H.: Como é que você pode traduzir MPB para Micheline?

Micheline: No meu entender, o Brasil é o país mais rico musicalmente. Não é querendo ser nacionalista exagerado. Mas, é a verdade. Aqui você tem frevo, samba, caboclinho, maracatu, chorinho, cara, é muita influência. Acho que a MPB, para mim, é mistura disso tudo. É o tempero. Somos um país miscigenado. Eu não sou branca pura nem ninguém é negro puro. Aqui é tudo misturado mesmo, e isso acontece na música. Até quem faz rock, samba, TUDO é misturado. Senão, não é Brasil, cara! Por exemplo, meu pai era cantor de seresta. Comecei, aos seis anos de idade, acompanhá-lo para as rodas de seresta. Ia com ele às serestas. Cantava Jamelão, Lupicínio Rodrigues... na verdade, as primeiras músicas que comecei a escutar eram músicas de seresta. E eu vivia no meio de adulto. Sou a mais velha de três irmãs. E meu pai tinha essa ligação comigo. Me dizia que era muito afinada, e as pessoas achavam muito bonitinho ver criança cantando. A gente era bem pobre mesmo, não tínhamos nem aparelho de som, então, as músicas eu aprendi ao vivo. Tocadas na hora. Eu comecei profissionalmente na Orquestra Tamoio e consegui comprar, economizando, aparelho de som. (RISOS) Nem era tão bom, mas funcionou!

O.H.: Como é que você classificaria o seu legado? Porque é bem diferente, concorda? Você está fazendo uma carreira consolidada lá fora e ao mesmo tempo canta aqui dentro e com muitas parcerias. Você vive dois mundos.

Micheline: A gente tem a cultura de escutar música em outras línguas. E, às vezes, deixamos de dar valor às coisas que temos. Nada contra música estrangeira, galera! Mas, eu acho assim: o cantor, o autor, o compositor, ele tem que ter estilo, sabe, Paulo? Senão, fica muito repetitivo. Confuso. Ainda não está na época de deixar legado, mas as coisas estão acontecendo. Este quarto CD está me dando uma visibilidade muito grande. E, por incrível que pareça, essa visibilidade também está germinando no Brasil. É muito chato esse lance de um imitar o outro. Você pode chegar muito próximo a um cara do jazz, mas imitar nem pensar. Cada um tem que saber a sua verdade e mostrar. A pessoa tem que saber: essa aqui é a Micheline, essa aqui é a voz da Micheline. Entende? Quer me irritar é confundir.

O.H.: Você tem compromisso com alegria? Você cantou muita seresta, muito Lupicínio Rodrigues, mas você não parece melancólica, certo?

Micheline: De jeito nenhum tenho compromisso com a alegria, mas sou uma pessoa alegre e feliz por natureza (RISOS). Nas minhas canções, tem músicas de cortar pulsos, de mergulho; mas, também tem balada, dance. Eu tenho compromisso com as coisas que eu acho que tenho de falar. Hoje em dia, as pessoas demandam um certo carnaval, um espetáculo do artista. E lá fora eles não necessitam que o artista faça oba-oba. Se você vai para Europa fazer mulata Sargentelli, você vai fazer outra coisa! Agora, se você vai lá para fazer música, tem que ter músico foda! É tocar de verdade! Então, não é escarcéu. O nosso show, o nosso CD é todo autoral. Primo pelo estilo. Meus músicos tocam demais!

O.H.: Qual instrumento que te motiva, te arrepia e emociona mais?

Micheline: Piano. Ganha disparado. Eu e meu marido compomos juntos. É muito legal. O pouco que toco de violão dá para a gente trabalhar. A parte harmônica do meu trabalho é muito rica. Por isso, não dá para qualquer um tocar não...(RISOS). Tem tudo, tem improviso, tem seresta, tem dance, tem jazz. “Gema” é uma música que fecha o show, é o maior funk, o maior porrada. Tem o “Favela Funk” que fizemos com um DJ austríaco, ficou um excelente trabalho.

A cantora pratica algo muito raro, a valorização da figura do fã, compreendendo este grupo dentro do seu espaço de grande consideração.

O.H.: Tem diferença entre a Micheline que sobe ao palco e a que compõe?

Micheline: Nenhuma diferença. Tenho amigos que me chamam de louca, dizem que eu levo o fã para dentro da minha casa. Mas, Paulo, se eu pudesse, levava o fã mesmo para dentro da minha casa. Porque é essa galera que te leva para frente. Tenho colegas que falam “você nunca vai ser artista. A distância é necessária”. Vão cair de pau em cima de mim, mas eu não estou nem aí! Não crio distâncias mesmo. Para mim, não tem redoma mesmo. Não consigo compreender o porque esse clima pedante. Tenho uma fã que é presidente do meu fã clube de João Pessoa. Sempre quando ela vêm falar comigo, ela treme. E eu agarro ela, abraço ela forte e mando ela parar de tremer. (RISOS). Falando em Nordeste, Pernambuco é um dos lugares mais plurais e ricos musicalmente e ritmicamente. Vai ter gente caindo de pau nisso também! (RISOS). Agora, falando do Rio, para mim nunca existiu esse lance do samba do asfalto e samba do morro. Não faço essa distinção. Há muito preconceito interno também dentro da música.




O.H.: É difícil se sustentar através da música?

Micheline: Não. Eu trabalho com música há 20 anos. Acho que a pessoa, o músico, o artista precisa saber o que ele quer. E eu sempre soube o que eu queria. Comecei a trabalhar como cronner. Mas sabia que não podia ficar só nisso. Trabalhei na noite também e sabia que não podia ficar parada nisso. Senão, você morre. Passa rápido demais. É claro, tive muita sorte de estar em lugares bons e com pessoas vendo. Por exemplo, trabalhava com o Tim Maia como backing vocal dele e ao mesmo tempo fazia jingle e ia à luta. Outra coisa: nunca fiquei numa coisa só. Sempre fui múltipla. Tenho certeza, Pedro, que se você ficar no barzinho cantando a música dos outros, vai morrer ali. Você tem que fazer a sua música! No barzinho, se toca o que o povo quer. Tem que ter um estilo, senão você é confundido. Fora que a pessoa pode cantar para caralho, mas num barzinho os equipamentos de áudio não deixam você mostrar bem sua voz. O cara fica de música de fundo, e nunca quis isso para mim. Vejo muita gente foda, que canta à beça, mas não engata. Cara, eu fui criada no conjunto da Ordem dos Músicos do Brasil em Inhaúma (subúrbio do Rio de Janeiro); o meu vizinho de janela era o Zé Ketti! Voltando ao lance do fã, prefiro o palco ao estúdio. Porque no palco, é um momento único. Cada vez que canto, canto de uma maneira. No CD, eu já gravei, só vai ficar daquele jeito! Gosto da troca, de pessoas! É fogo, eu já cantei para duas pessoas e já cantei para 200 mil. A Janis Joplin fala que estar no palco e cantar para trinta mil pessoas é como transar com todas elas e depois ir embora para casa sozinha. É mais ou menos isso. Fazer show é êxtase. Não faço música para músico! Primeiro que músico não paga ingresso! Depois, fica criticando... (RISOS). Faço música para o povo! Para os meus fãs.

O.H.: Tem fronteira entre arte e entretenimento?

Micheline: Tem não, cara. É o lance do Titãs, “Diversão e Arte”. Porque, por exemplo, pessoas que possuem menos grau de instrução escolar, que tiveram poucas oportunidades de ler, de estudar, elas conseguem absorver melhor quando estão se divertindo. Mas, essa diversão não precisa ser carnaval, entende? Tem que haver uma interatividade de forma que a pessoa consiga se reconhecer naquela expressão artística, sabe? Por isso, acho que não tem fronteira. E outra: música não escolhe classe social!




O.H.: Fala um pouco da experiência de trabalhar com o Tim Maia e, atualmente, com o Nando Reis.

Micheline: Vai parecer piegas, mas o Tim é uma escola. Foi e é uma escola. Ele tinha uma caixa torácica absurda, ventava tudo. Ele era maravilhoso, e a imprensa aborda pouco esse lado. Gravamos juntos quatro ou cinco CDs. Em março de 1998, por exemplo, ele já tinha parado de beber. E ninguém fala isso. Outra coisa que pouca gente sabe é que o Seu Tim não gravava duas vezes. Entrava e gravava de primeira! Se o cara não registrasse, se ele pensasse que era só passar o som, ferrou! Na primeira, ele acertava. Não tem como você falar que ele não é uma escola. Pedro, ele tinha uma preocupação com as crianças abandonadas muito grande. A gente ensaiava oito da manhã no Recreio dos Bandeirantes! E minha filha tinha dois anos. Ele gostava que eu levasse ela para os ensaios. E ele falava uma coisa linda: “o ser humano só vale até os sete anos de idade”. Ele catava as crianças do Recreio dos Bandeirantes e dava almoço, roupa, brinquedo para todo mundo! Criança de rua, criança de casa. Para o Tim, não havia a menor distinção. Ele era uma pessoa sensacional! Um cara, porra, formidável! Nunca tive problema com o Seu Tim. E, atualmente, com o Nando Reis, tem sido muito bacana. O Nando é indecifrável. O front do show dele é só 14, 15 anos. Mas, po, as letras dele são muito profundas. É um poeta absurdo. A penetração da arte dele é muito grande. É um puta artista. Eu sou uma louca no palco do Nando. E ele não tá nem aí! E nesse novo trabalho, tem uma música que a gente canta junto que é um grande teatro. É muito bom! Vou fazer cinco anos trabalhando com ele. Se eu fosse resumir, o que me chama mais atenção é a autenticidade do Nando.

O.H.: Atualiza a sua agenda para a gente.

Micheline: Dia 2 de Setembro, no Jokers Pub Café, em Curitiba; dia 10 de Setembro, lançamento aberto do Cascadura Samba, no Espaço Cultural Gabinete, no Rio. É uma casa nova na Lapa. Depois, dia 12, estarei no Festival Nova Música Brasileira. Aí, dia 17 de Setembro, estarei em Maracaípe, no mar, em Porto de Galinhas. (RISOS) Vai ser muito, muito bom!

O.H.: Qual é o seu desejo agora?

Micheline: Ah, que o meu atual trabalho possa marcar cada vez mais o mundo e os brasileiros. Que as pessoas curtam, gostem ou até que não gostem, critiquem, faz parte! O chato é quanto vão só falar mal, né? E continuar levando meus fãs junto comigo.

Dotada de lucidez e força para lidar com a música e com a fama, Micheline desconstrói o hábito da glamorização excessiva, enlaça o Brasil e a Europa com seu ritmo misturado e propagador de movimento. Impossível entrar em contato com a sua música sem se aliviar e sentir algo diferente, autoral que adentra e conquista.

LINKS RELACIONADOS:

http://michelinecardoso.com.br/
http://www.myspace.com/michelinecardoso

Fotos de divulgação: http://palcomp3.com/michelinecardoso/#fotos e Blog Acordes

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

MANU SANTOS – aliança entre brasilidade e alegria

Por Pedro Paulo Rosa
Foto: divulgação/Cristiano Soares
Revisão textual: Paulo Cappelli





Manu Santos enlaça a qualquer um com sua voz cadenciada e motivada pelo brilho da alegria. Em uma conversa no seu bairro de amor e de origem, Bangu (Zona Oeste do Rio), ela nos conta sobre a sua carreira, e como encara a MPB atualmente. De fala rápida e intensa, a artista mescla, em seu CD “Nossa Alegria”, fortes tendências do samba jazz com o batuque brasileiro. Saúda o mar como seu berçário íntimo e lugar de reflexão. A canção “Mulher Jangadeira” ganha força e carisma na interpretação assertiva de Manu. Seu disco traz, de forma autoral, muita religião e charme da música brasileira. A moça também gravou Ivan Lins, Fito Paez, Gilberto Gil e Caetano Veloso. O resultado do seu trabalho traduz o amor pelos palcos e o carinho especial que soube, belamente, construir junto a seus fãs.
O HÉLIO: O que você pode dizer, até o momento, que foi um divisor de águas em sua carreira musical?

MANU SANTOS: Eu e Aline Calixto fomos vencedoras do festival Carioca da Gema. Posso dizer que esse momento foi marcante e um divisor de água na minha carreira e no meu intuito de ser cantora. O Leonardo Lichote me entrevistou e tal, daí depois de um tempo encontrei ele no Facebook e a internet nos possibilitou um contato novo! Disse para ele que a matéria que ele fez comigo repercute até hoje. Mais um exemplo de como a internet junta as pessoas. Até que o Leonardo Lichote me liga informando que fez a crítica do meu CD! (RISOS) Eu comecei a gritar no telefone, ansiosa, querendo saber se ele tinha gostado. E aí, quando eu vi no jornal, chorei muito! Depois, disse para ele que me senti sendo lançada por ele. Tudo mudou mesmo. Muitas entrevistas aconteceram e shows, enfim...

O.H.: E você se acha uma música brejeira?

MANU: Olha, quem começou com esse termo foi até o Leonardo Lichote. Quando ele fala brejeira, não quer dizer maliciosa. Brejeira é uma pessoa que está cantando música mais regional. Foi o que compreendi da parte do Leonardo. Outro crítico me chamou de hiponga! (RISOS). Enfim, não ligo mesmo! Essa mistura de ritmos brasileiros é que compõe a minha música.

O.H.: Percebi muita religiosidade também no seu trabalho.

MANU: Pois é, eu sou ecumênica total! Nesse CD, tem de tudo. Eu comecei a cantar aos treze em uma igreja católica no meu bairro, o bairro Jabour. Aquilo era o meu caminho de agradecer a Deus. Depois, acabei me afastando da igreja católica. Meus pais são umbandistas, meu avô é kardecista. Enfim, até pastor tem na minha família. E dessa mistura a gente só conseguiu paz, sabe? Eu acho que a galera no Brasil, atualmente, está entrando nessa onda ecumênica pra valer. Se tiver que ir a uma missa, eu vou; se tiver que ir a um terreiro de macumba, também! (RISOS). E respeitar é fundamental.

O.H.: E aí, com treze anos você encontrou a música?

MANU: Encontrei e não encontrei! Porque, com essa idade, eu cantava por cantar. Minha vontade era ser oceanógrafa. E eu sou apaixonada pelo mar mesmo. Quero descobrir o que tem ali dentro, sempre quis! Mas então, falei com meu pai que gostaria de fazer oceanografia e ele me apoiou, mas me falou: “aqui no Brasil não tem condições de você estudar isso, porque não é uma carreira que te dê condições amplas. Você vai estudar no exterior”. E eu não quis! Mudou rapidamente minha vontade. Fiquei no Brasil com a minha família. Quando criança, não tinha a menor intenção de ser cantora, eu imitava Fafá de Belém, Wanderléia... (RISOS), só para você imaginar. Mas, não tinha essa pretensão de ser cantora.

O.H.: Seus pais mexiam com música?

MANU: Minha mãe tem uma voz belíssima. Meu pai era um músico muito especial. Eles com certeza são minha primeira influência musical. Agora, ouvi muito também Milton Nascimento, Caetano Veloso, Mercedes Sosa etc.

O.H.: Depois que você decidiu se profissionalizar em música, te deu algum medo ou insegurança fortes?

MANU: Não... não me dá medo. Eu estou aberta, mesmo. Eu aprendi uma coisa com meu pai: se você quer mesmo uma coisa, vai, corre atrás. É melhor lutar e tentar do que morrer frustrado. Eu estou na fase do tentar. Eu sou sagitariana, aventureira e paz e amor. (RISOS)

O.H.: Explica um pouco a parceria com o João Pinheiro.

MANU: Então, João me convidou para o projeto “Chico e Bethânia”, numa gravação que eles fizeram em 1975. Começamos a apresentar esse projeto no Rio em 2010 na sala Baden Powell. Então, agora o João está querendo levar para São Paulo. Recentemente, fui até São Paulo para gravar alguns vídeos para divulgação. Nos apresentaremos, mais tarde, no Teatro Cacilda Becker. E também para conhecer a galera de lá, que é muito legal.

O.H.: Você fez algum curso de voz, de música?

MANU: Não. Não verdade, comecei a fazer preparação vocal com a Eduarda Fadini, que inclusive cuidou disso no meu disco. Mas, pretendo voltar, pretendo estudar também sim. Até porque preciso entender mais a música, né? Eu tenho que entender cada pedacinho da música. Agora, cantar comigo flui. (RISOS). Você me dá uma canção, eu vou ler aquela música, entender, e cantar do meu jeito. Sabe? É muito assim... flui mesmo. Vai numa boa. Acredito que isso acontece fácil porque meus pais faziam isso em casa; lá vivia cheio de poetas.

O.H.: Há diferença em cantar na Zona Oeste e na Zona Sul?

MANU: Cantar em Bangu e no Jabour é cantar com a família. Cantar para quem conheço. Lá na zona sul, as pessoas também curtem a minha música, só que não tem o elo familiar com o espaço, entende? No fundo, é a mesma coisa. Comecei com uma temporada na “Letras e Expressões” que foi ótima. O Rio é muito variado. Se você cantar no Centro Cultural Carioca, por exemplo, o público é mais aberto. Se cantar em um teatro, a galera fica mais fechada. Se cantar na Lona Cultural, algumas pessoas querem te ouvir e outras querem comer tira gosto. Na verdade, a plateia é palco para mim. (RISOS). Lá de cima eu vejo tudo! Quem está gostando e quem não está gostando.

O.H.: Quais foram os principais desafios para lançar o primeiro CD?

MANU: Muitos! Vários! Afinal, sou uma artista independente. As pessoas falavam que meu disco estava virando lenda. Foram dois anos e meio de batalha. Só um exemplo, o estúdio em que estava gravando teve que mudar. Então, tudo mudou! Tive de gravar outras partes em outro estudo. A dinâmica da produção foi revirada. O lado bom disso é que conseguimos fazer a mixagem do CD com o Rodrigo Vidal (que fez o da Maria Gadu, e atualmente o do Ivan Lins). E o Luiz Tornaghi, e foi tudo lindo!





O.H.: Canta profissionalmente a quanto tempo? E como classifica seu público?

MANU: Olha, profissionalmente canto há dez anos. Sobre o público, vejo de tudo! Ainda mais em Bangu. Jovem, idoso, criança. Enfim... aqui é uma região muito farta de músicos. Excelentes artistas. O chato da Zona Oeste é que falta espaço para você se apresentar. Assim, muitas pessoas acham que a zona oeste termina no Recreio. Isso me dói o coração. Gente, pelo amor de Deus... tem Bangu, Campo Grande, Realengo, Padre Miguel, tem vários lugares na Zona Oeste. O Governo precisa olhar para cá musicalmente e culturalmente. A gente precisa dessa motivação.

O.H.: O Rio tem que parar com essa distribuição segmentada, limitada e preconceituosa, né?

MANU: Exatamente. Porque é muito triste, você se sente mal com isso.

O.H.: Você pensa em se mudar daqui?

MANU: Não. No final de 2007, morei em Botafogo, mas depois voltei para cá. Não pretendo sair daqui, pelo menos por enquanto. Mesmo com a violência alta. Está tendo muito tiro. No meu bairro - Jabour - temos a favela da Koréia, do Rebu, do Sapo. Enfim, estamos cercados. E o Governo não olha para cá. Mesmo assim, não quero sair! É amor que sinto por esse lugar. Nasci aqui, cresci aqui e quero ficar. Agora, falta muito emprego. Isso estimula a violência. Mas, também falta motivação para as pessoas arranjarem emprego, entende? Tem que se movimentar, gente!




O.H.: Você sente que o Rio de Janeiro tem um apelo forte pela fama e pela glamorização exagerada da figura do artista de modo geral?

MANU: Olha, que pergunta difícil, eu ainda não pensei nisso. Mas, pra falar a verdade, quando eu saí no O Globo, no Segundo Caderno, tudo mudou mesmo. Várias pessoas vieram me procurar. É impressionante, né? Você sempre esteve ali, mas você só passa a existir depois da fama, depois da foto. Mas, para tentar amenizar isso, a gente sempre usou muito a internet! Eu tenho uma comunidade no Facebook chamada “Espalhe o Amor”, com quase 500 mil pessoas. Fora o youtube que impulsiona muito os contatos. A internet é minha parceira. Eu uso essa ferramenta direto, é a maneira de divulgar minha música, meu trabalho. Aliás, é o nosso trabalho! Eu converso com todo mundo. Não tem que ter essa distância entre o artista e o público. São os seus fãs que vão te colocar lá na frente. Converso com eles no Twitter, no Facebook. E é muito legal que muitos me chamam de amiga! (RISOS). Perguntam como estão minha mãe e tal, é muito legal.

O.H.: Qual a dica que você dá para quem está começando agora na música ou em outra arte?

MANU: Olha meu querido, acredite no seu trabalho e vá para a internet, que é o melhor caminho. E não desistir nunca Existe uma frase que me que não me lembro da autoria, mas fala assim: “O futuro pertence aquele que acredita na beleza dos seus sonhos”. Então, vá à luta, companheiro e faça acontecer!”. Ah, bom lembrar: temos uma apresentação dia 28 de Agosto no MAM. Mas, a minha expectativa é conhecer o Brasil, levar a música para todo esse país, sabe? O meu maior prazer é ver as pessoas sorrindo com a minha música. É saber que as pessoas saem suaves do meu show.

O.H.: Como é ser comparada à Vanessa da Mata, Roberta Sá?

MANU: Ah, para mim é uma honra. Agora, meus arranjos são simples. Brasil para mim é percussão, é chão. Elas colocam arranjos complexos, lindos, mas que eu não me vejo executando. Agora, tanto Vanessa quanto Roberta são maravilhosas naquilo que fazem.

O.H.: Qual o recado para o seu público?

MANU: (RISOS) Galera, fica de olho que eu to chegando e vamos que vamos! Vão me acompanhando aí!

Manu Santos celebra a música com muita humildade e carisma, deixando transpassar pela sua voz, sorriso e composições a alegria bem resolvida das canções que executa. É uma artista que prioriza a MPB enquanto brasilidade, afirma que nossa música é do chão, da terra, do mar, da mistura dos quatro elementos. Manu lança “Nossa Alegria” conduzida pela beleza e som do mar. O resultado, após ouvir o disco, é suavidade e entrega.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O HÉLIO também é programa!

Com a certeza de que estamos dialogando cada vez mais, o Blog ganha uma versão audiovisualizada, buscando um formato diferenciado, ao mesmo tempo que livre da obrigação de ser totalmente diferente. Esse novo espaço é construído em parceria com você. Nasce o Programa O HÉLIO!

Mande sugestões, dicas de pauta, de entrevistado para programaohelio@gmail.com

Assista ao teaser com o ator Caco Ciocler copiando o seguinte link:

www.youtube.com/mrohelio

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

GUSTAVO FALCÃO – arte como manifestação humana

Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Ravini Padilha
Revisão textual: Paulo Cappelli





O Hélio conversa com o ator, roteirista e empreendedor cultural Gustavo Falcão. De fala mansa e olhar atento, o maduro artista pensa sobre o seu ofício, problematiza o personagem Bartleby, o qual interpretou na montagem do diretor João Batista “Bartleby, o escriturário”, cujo texto original é de H. Melville. Gustavo, que é também diretor executivo do Lunático Café, assume-se um vocacionado para o teatro e afirma que o teatro que o escolheu. Valoriza a labuta diária e discute sobre as mudanças nas políticas culturais implementadas no Brasil. Ele conta para nós o quanto o filme e a peça “ A Máquina” marcaram o seu trabalho e a sua vida pessoal.

O HÉLIO: Como é que você encontrou o Teatro?

GUSTAVO FALCÃO: Eu comecei o teatro em Recife em 1994. Comecei publicidade e passei a usar esse tempo para fazer coisas para me atualizar. Aí, fiz um cursinho de computação para dar uma atualizada. Depois, fui fazer teatro. Minha irmã tinha acabado de entrar para o teatro no colégio em que estudávamos, o Colégio Nossa Senhora do Carmo, em Recife. Então, em maio de 1994 iniciei artes cênicas com o Romero Andrade. Na verdade, Pedro, eu ia responder a pergunta dizendo que é o teatro que te acha. Você só descobre que o teatro te queria. Acho que é essa a relação que o artista tem com a arte. A arte te descobre, te acha e não ao contrário. É claro que tem uma coisa de suor, de empenho.

O.H.: Acredita em dom?

G.F.: Não, porque o dom extrapola nossas possibilidades. Todo mundo tem, inerentemente, um dom artístico. A arte é uma manifestação humana como o falar. Agora, o trabalho árduo, a labuta não te abandona. É a tal da dedicação. Aí acho que está a vocação. O esforço. Entende? Agora, potencialmente, qualquer pessoa pode fazer qualquer coisa. Vocação é você nascer com aquilo. E eu acho que tenho vocação para arte. Quando eu comecei a fazer teatro era um ator muito ruim. Hoje, acho que melhorei muito (RISOS). Melhorei graças à vocação. E ela me possibilitou. Descobri que não tinha a menor vocação para ser publicitário, que publicidade não tinha nada a ver com o que eu queria construir depois para minha vida.

O.H.: E o que você queria construir?

G.F.: (RISOS) Então, isso eu só fui descobrir bem depois. A primeira vez em que subi ao palco, descobri que o teatro tinha coisas que eu queria desenvolver para mim. Uma dessas coisas é que, através das possibilidades de você expressar sentimento e materializar histórias isso te promove um processo de autoconhecimento muito profundo. Porque esse processo te faz acessar determinadas áreas em você mesmo, tanto física quanto emocional, que são muito loucas! Isso mexeu muito com a minha percepção de mundo, com a minha relação com as pessoas! Isso era uma coisa que eu vim descobrir depois. Não se percebe isso na hora. Constatei que eu queria aperfeiçoar essa relação, com o potencial expressivo, de tornar sentimento em ação, gesto, fala. Uma outra característica que confirma que me fez querer teatro é a minha capacidade de abstração; muito facilmente me coloco no lugar e na posição do outro. Transito e vejo através do outro com muita facilidade. Quando eu descobri isso, vi que fazia sentido fazer teatro. E o teatro, no processo de interiorização, te pede que faça isso, que você viagem até o outro. O teatro me deu muito, me fez entender mais o mundo. Descobri que o teatro pode fazer isso com as outras pessoas também. Com o público! A gente pode gerar questionamentos, mudar a ordem da sociedade, das pessoas através do teatro. Através da arte. Vi que eu poderia, como ator, fazer isso. Enfim, reinventar o mundo através do teatro.

O.H.: Falando mais do Bartleby, a gente pode falar que ele é esvaziado? Eu tive um medo dele! Ao mesmo tempo, como Bartleby é carismático, né?

G.F.: Outras pessoas já comentaram que tiveram medo. O legal é perceber as diferentes impressões do público sobre esse personagem teatral. O Osmar Prado foi assistir à peça e fez uma interpretação que me chamou atenção – disse que Bartleby era um gênio incompreendido. Eu acho que ele não é definível.


GUSTAVO FALCÃO em seu espaço cultural no Jardim Botânico, LUNÁTICO CAFÉ




O.H.: Num tempo de tanta falação, ele é um personagem que assusta com tanto silêncio. Parece que ele expressa a dúvida e a certeza pelo mesmo silêncio.

G.F.: Exatamente. O Deleuze fala que o Bartleby é um texto que obriga o leitor a participar do conto. É como se o Melville (autor do texto) deixasse umas frestas que te obrigasse a completar aquilo do seu modo. É uma obra realista e ao mesmo tempo não é! Literatura já é meio assim, você tem que completar. Você tem que criar do outro lado, e o Melville te obriga a participar, a criar de uma maneira mais ativa. O Deleuze fala também que é uma asneira você tentar decifrar ou definir o Bartleby. O mais legal foi colocar o personagem no mundo e autorizar o leitor a levar o Bartleby sob seu modo de vê-lo para casa. E esse era o maior desafio para a gente, materializar isso! O grande desafio foi interpretar alguma coisa indefinível.

O.H.: Qual foi o ponto que você deu no personagem?

G.F.: Acho que o grande barato foi esse. Fui muito feliz, no final da peça, ao notar que não defini o que eu faria. Porque se eu tomasse uma opção para o meu Bartleby, se eu escolhesse uma, eu ia acabar induzindo o espectador a ir por um caminho determinado. E era exatamente isso que não poderia fazer. Não coube ao Melville fazer isso, como eu faria. Agora, como fazer isso no teatro? Há 15 dias da estreia, cheguei para o João (Batista, diretor da montagem teatral) e disse que não sabia o que fazer. E quando entendi que o que eu tinha de fazer era não fazer alguma coisa, que é diferente de não fazer nada. Era não fazer algo, porém também não fazer nada. Agora, depois da temporada, notei que era esse caminho labiríntico que eu precisava ter feito mesmo. Ver cada pessoa com uma impressão após o espetáculo me causou muita felicidade. E o João (Batista, diretor) é totalmente co-responsável por esse acerto. Ele parece, às vezes, um guruzinho porque meio que sabe exatamente o que vai acontecer lá na frente. Ele vai guiando e as coisas chegam aonde devem chegar. Ele foi muito parceiro e cúmplice dessa construção enigmática e labiríntica que foi o Bartleby. Agora, só para completar, o Bartleby não é vazio! Passam-se muitas coisas dentro dele. Se eu o fizesse esvaziado ou doidinho, essas seriam as únicas leituras possíveis. Ele tem que fazer alguma coisa sem que esta coisa seja exteriorizada. Sem dizer: “é isso!”. É como se nessa xícara você saiba que tem algo dentro, mas não sabe o que é. Eu preencho o Bartleby com algo que nem eu sei. Ninguém pode saber o que é, nem eu! Se na xícara tiver chá de limão e eu souber que é chá de limão, posso te dar a dica de que tem chá na xícara. É totalmente abstrato! Ando na corda bamba o tempo inteiro ao fazer Bartleby.

O.H.: Nossa, foi uma tarefa e tanto!

G.F.: Sim, muito complicado. Ainda mais que estamos acostumados a pensar que o ator atua. E você expressar algo que não quer definir é um desconserto. É desmontar o que o ator está acostumado a fazer.


O.H.: Como é conseguir achar o olhar desse personagem?

G.F.: Poxa, achar o olhar é uma coisa louca! Às vezes, no ensaio, a gente fazia algumas demonstrações, alguns esboços e o João sabia dizer na hora exata: “não é esse o olhar dele”. Quando o olhar estava do jeito certo, o João não sabia explicar que jeito tinha aquele olhar certo. Mas, quando eu olhava errado, o João sabia, em suas referências, dizer com o que o meu olhar estava parecido. (RISOS). Foi ficando claro que era para parecer algo que não fosse possível de identificar. E pra conseguir entender isso, cara?

O.H.: Para você difere muito a atuação entre cinema, TV e teatro?

G.F.: Difere. Mas, eu acho que só consigo entender essa diferença depois. É um entendimento que não é racional. Eu sei que tem diferença. Acho que são experiências que têm uma intersecção que se visitam, só que ao mesmo tempo são extremamente diferentes. Se tem uma coisa no teatro que é totalmente e radicalmente diferente é a experiência com o público. É saber que você está fazendo algo junto com quem te assiste. Você saber que o que está sendo apresentado está acontecendo no mesmo momento dentro da plateia e dentro do seu corpo. É um corpo só. Enquanto que no TV e no cinema, isso só acontece com quem você contracena e com a câmera. No cinema, a gente contracena com a câmera de certa forma. É a câmera que faz a ponte com o espectador. É um tipo de experiência completamente tecnológica e também louca! (RISOS). A energia que um ator e sua equipe vivem é captado pela câmera, ela imprime frame a frame a sua emoção gerada naquela cena e envia isso para o espectador. Eu acho o teatro, por ser mais simples, muito mais sofisticado justamente porque não há aparelhos nem ciência. É uma ciência do acreditar. Quando você, publico, se permite rodear pelo o que ocorre no palco, está acontecendo um fenômeno ali. E isso ainda se dá, felizmente, no século XXI. Algo de muito sagrado e profundo é compartilhado entre o que ocorre no palco e na plateia. Acho que, futuramente, no século XXII, os homens terão saudade dessa proximidade. Vão querer isso de volta. Atualmente, as pessoas estão inebriadas pela experiência com a imagem. Acho que, mais tarde, as pessoas irão voltar a querer ter essa experiência pessoal e emocional. O teatro é isso! Ele não é ensaio, o teatro – a experiência teatral – acontece com o público.


GUSTAVO FALCÃO fala sobre a experiência de filmar " A Máquina "



O.H.: Como foi a experiência de fazer o filme “A Máquina”?

G.F.: Ah... (pensativo) fazer o filme foi uma coisa tão especial para mim. Mais até que a peça. Porque o filme incluía a peça e o livro. De certa forma, o filme fechou um ciclo, uma história de “A Máquina”. Foi um registro de um período de vida na história da gente. Na minha história, na história de Lazinho (Lázaro Ramos), de Wagner (Moura) , de Karina (irmã de Gustavo), de João (Falcão), de Adriana (Falcão), de Vlad (Brichta). Então, interpretar o Antonio foi muito especial. O rumo que nossa vida juntos tomou foi muito fantástico. Viramos irmãos. O que esse filme gerou de desdobramentos foi absurdo. Lazinho foi fazer Madame Satã, Wagner foi fazer filme também.... sabe? Tudo isso meio que já estava escrito. Foi mais um momento inspirado do João (Falcão). É um filme que consegue, como muito poucos, possuir uma energia absolutamente cinematográfica e teatral, sem que uma negue a outra. É de um arrebatamento poético louco! Nada se exclui nesse trabalho.

O.H.: Algum momento marcante contracenando com Paulo Autran?

G.F.: Ah, tiveram vários, cara, vários! Fumamos vários cigarros juntos, conversamos muito. (pensativo) Vai ficar um pouco cafona falar isso, mas... olhava o Paulo Autran e percebia que, no cheiro dele, no jeito como ele olhava, que a sua vida era totalmente dedicada ao ofício dele, ao teatro. À arte. E isso está cada vez mais raro de um ator ter. Era difícil olhar para ele e não ver isso. Paulo tinha uma história de vida dedicada ao teatro. Tanto no pensamento quanto nas ações. Ele tinha um talento sensacional. Um talento que vinha e se sustentava por essa dedicação e paixão incondicional que ele tinha pelo teatro. Isso me inspirava. Era muito bonito de ver. Quando ele gravou, a gente notava o seu corpo já velinho, mas quando ele ia para a cena, algo acontecia. Ele se engrandecia e você dizia: nada pode ser maior do que isso.

O.H.: Para você tem alguma fronteira entre arte e entretenimento?

G.F.: Sim. Eles estão muito misturados. Agora, você se entretêm batendo um papo, andando de bicicleta. Agora, arte requer outras coisas. Muitas vezes arte pode também entreter como também pode não entreter em nada. Arte pode incomodar, inclusive, desentreter. E talvez a gente viva uma crise da identidade disso. Existe um problema que é o seguinte: a gente começou a criar um modelo de produção, de gestão de projetos culturais que envolve quase uma auto-suficiência do projeto. Antes, era muito claro o percurso das coisas. Você fazia uma peça com a grana do banco. Depois, pagava com a bilheteria. Hoje, tudo mudou. O viés comercial cresceu muito e gerou em nós outra coisa. Você quase não consegue, hoje, conceber um projeto sem patrocínio. Acho que a gente precisa pensar. Mas, sem nos paralisar. Existe uma outra questão: o patrocínio, a longo prazo, tem outra natureza. O patrocinador de hoje não é um mecenas. É um investidor. Espera retorno. Espera ganhar dinheiro com o artista; hoje ter público acaba sendo um compromisso. Tem que dar a tal bilheteria. Quero dizer que houve um crescimento dessa arte comercial. E a arte que é chamada mais de arte autoral, que é mais abstrata e experimental e que, eventualmente, atrai menos público, foi ficando um pouco em xeque. Por isso, é muito difícil um projeto sem pensar patrocínio, sem pensar público alvo sobreviver. Nesse sentido, como chegar num bom número de público? Como aprofundar? Agora, falta um monte de coisas. O Brasil é um país onde a distribuição social e cultural é assimétrica. Difícil você pensar que uma pessoa que ganha um salário mínimo venha fazer aulas de acrobacia, por exemplo! Ou pagar R$10 para assistir a uma peça de teatro. Agora, tem também a questão da arte ainda ser vista, no Brasil, como um produto supérfluo. Arte tem que ser estruturada na vida de uma pessoa desde pequena.

O.H.: Como nasceu a ideia do Lunático Café, Gustavo?

G.F.: Essa ideia veio muito de Juliana (esposa de Gustavo Falcão). E eu comecei a dar aula de acrobacia junto com ela. E eu acho que a gente foi percebendo o potencial do nosso trabalho. Não só pela técnica, mas o nosso trabalho estava proporcionando uma vivência artística para as pessoas. Sempre buscamos, dentro da técnica, emergir uma expressividade próxima à teatralidade. Aqui, a gente tem aula de ballet, acrobacia e música. É muito legal você ver um médico, um advogado, um publicitário indo para o palco fazer acrobacia! Os caras nunca iam vivenciar isso. Isso é se reinventar. Quando é que eles passariam por aquilo? Eu e Juliana, vendo essa transformação, pensamos em abrir mesmo um espaço. Fora isso, algumas circunstâncias nos levaram a isso.

O.H.: E por que o nome Lunático?

G.F.: Isso foi uma viagem da Adriana Falcão. Nós juntamos toda essa vivência que tínhamos com alunos mais o sonho da Juliana. Juntamos dez pessoas para abrir o centro cultural! Eu, Juliana, Wagner (Moura), João (Falcão), Adriana (Falcão), Vladimir (Brichta), Lázaro (Ramos), Bruno Garcia e Lucio Mauro Filho e o Zé Britto. Mas, nós tivemos que reduzir o plano. Eu e Juliana nos juntamos ao João e à Adriana. Num brainstorm da vida, buscamos algo que estivesse fora do chão. E aí, um dia, Adriana teve o lampejo do nome Lunático. É um nome gostoso de você falar. E tem relação com lua. Eu gosto muito.

Equipe O HÉLIO trabalhando



O.H.: Como é que essa beleza da arte entra no mundo político? Qual é a sua visão sobre a política?

G.F.: As políticas culturais estão em desenvolvimento, estão se estruturando. Acho bom o artista ter, no mínimo, uma vaga noção. Até porque, não só para entendermos o que está sendo feito com a arte, é preciso você ser cidadão, ser trabalhador. Hoje estamos vivendo um fenômeno, por conta da modernização pela qual o país está passando, o artista está ficando cada vez mais empreendedor dos seus projetos. Então, tem muita gente produzindo, montando espaços culturais, como é o meu caso, o caso do Nanini, do Guindane etc. É claro que a essência criativa do artista é caótica e não cabe à política. O barato de hoje é você conseguir conciliar. Ou seja, não perder a loucura, a abstração, mas também saber onde pisa. Eu não sou um descrente com a política não, só com algumas pessoas da política. O governo Lula, devido ao político que o Lula foi e é, uma figura fascinante, deixou o jogo político ser prazeroso demais. Talvez, esse prazer pelo jogo político, tenha feito emergir esse fisiologismo, essa corrupção toda. O Lula cruzou fronteiras que muita gente não cruzou. Por outro lado, expôs a flor da pele uma característica, um hábito terrível da política brasileira que é o fisiologismo político. Ele melhorou muita coisa, mas a reboque fez emergir um monte de falhas. Hoje, está muito difícil dizer: “eu acredito no PT”. Então, hoje prefiro acreditar em pessoas bacanas do PT, sabe?

O.H.: O que você tem a dizer sobre o teatro de rua?

G.F.: Acho lindo, acho um negócio super difícil. Eu já fiz. Há uma potência no teatro de rua que é uma energia arcaica do teatro. Me faz sentir o teatro medieval. Teatro de rua é comunicação olho no olho. O teatro italiano, por sua vez, criou uma outra relação, bem diferente da relação do teatro de rua.

O.H.: Como é que você se despede dos seus personagens?





G.F.: Na verdade, eu não me despeço não. Eu vou deixando ele ali. Com calma, ele sai ou depois volta (RISOS). Bartleby, Antonio e tantos outros personagens. O personagem ganha uma certa autonomia, pelo menos para mim. O que eu vivi interpretando o Antonio da “A Máquina” vai ficar comigo para sempre. Os meus personagens se realizaram junto com o público, com os espectadores. Eles não se encerram em mim. Os personagens vivem apesar de mim. Eles estão em algum lugar. E a experiência que compartilhamos é uma coisa que fica gravada. Na minha alma, no meu corpo, no meu coração. E na memória. Agora, o Bartleby, tenho a sensação de que não vou encontrá-lo mais. Eu acho que ele, talvez, deixe de existir. Será que ele deixa de existir porque eu deixo de acreditar nele? Não sei... (RISOS). O que fica comigo é todo esse registro que está dentro e que vai ficar comigo para sempre.


Com imensa e bela sensibilidade, Gustavo Falcão demonstra estar a serviço da arte, e ter nessa manifestação a essência de sua humanidade; a certeza de que é vivo e transformativo como ser humano e como ser ator.


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