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terça-feira, 26 de julho de 2011

Banda BLACK VIPER - a amizade faz Rock

Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Divulgação
Revisão Textual: Paulo Cappelli




Após algumas tentativas de estabelecer uma banda de rock diferenciada e com uma equipe bacana, coesa, Cristiano Gadelha junta-se aos seus amigos de escola para formar um novo trabalho: a Black Viper. Banda inspirada no hardrock, passando pelas influências várias das vertentes do rock e também da musicalidade brasileira, eles flertam bem com o trabalho conjunto, sendo o processo de composição da banda algo democratizado, construído mão a mão entre o Cris (Cristiano Gadelha), o baixista ( Henrique ou Baiano), o bateirista (Frederico Beltrão) e o guitarrista ( Esteban ).


Todos oriundos do bairro de Copacabana, Rio, eles conversam com O HÉLIO e comentam como é se lançar com rock num ambiente tão "sambístico" e alegre; falam das suas já consolidadas conquistas - 38 mil views no myspace, primeiro lugar no ranking deste site das bandas mais ouvidas, além de ganhadores do prêmio " a banda do mês de Junho", do site Rio Rock Zone. Com público eclético em nacionalidade, o quarteto afirma produzir um som simples e elaborado e mostra que o rock é de muitos ouvidos.

Por que o Rock como marca de trabalho?

Cris: Todo mundo aqui gosta de rock. Nós quatro estudamos no mesmo colégio, o Sagrado Coração de Maria. Anos depois, nos reencontramos e a vontade de tocar junto também veio junta.

Frederico: O bacana do rock é que você pode colocar qualquer coisa nele, misturar, que o som acaba saindo bom de ouvir. Dá muita abertura. A gente, por exemplo, já colocou baião dentro do rock. O Brasil tem uma bagagem musical excelente.

A gente está em Copacabana, bairro rotulado como bairro do samba. Como vocês enxergam a produção de outros gêneros aqui em Copacabana?

Cris: Aqui tem vários barzinhos com a galera produzindo música, mesmo que seja mais animada.


CRISTIANO, vocalista da Black Viper

Esteban: Na verdade, colocando a gente como exemplo, é muito difícil recebermos convite de algum show para fazer aqui no bairro. A procura é por outros estilos.

Frederico: Aqui não tem uma festa sequer que o estilo seja rock em sua maioria.

Esteban: A gente acaba tendo que sair para outras cidades, outros estados para tocar. Aproveitar festivais e tudo o mais.

Cris: Nós somos de Copacabana e ainda não conseguimos tocar aqui. (RISOS)

Frederico: O Rio é uma cidade que gera inspiração. Aqui, qualquer estilo se encontra.

Qual outro lugar da cidade acolhe mais o rock?

Cris: Baixada Fluminense.

Frederico: Duque de Caxias, Nova Iguaçu...


FREDERICO, baterista da banda


Já tiveram um show marcante na Black Viper?

Cris: Olha, o último show que fizemos em Botafogo foi bem legal.

Frederico: Na verdade, essa formação da Black Viper, só fizemos dois shows. Esse segundo foi melhor que o primeiro.

Esteban cita o evento MotoRock, no qual ele teve oportunidade de tocar. Diz que nesse local há um público grande, um evento bem organizado.

Vocês pretendem voltar a esse evento do MotoRock?

Cris: Se o ENEM deixar... (RISOS)

Vocês tem alguma meta para a Black Viper?

Frederico: Antes de mais nada, nós queremos nos divertir.

Esteban: A gente começou meio que no instinto mesmo. As pessoas gostaram do nosso trabalho, e isso nos motiva a continuar.

Frederico: Nossa preocupação primeira é se divertir mesmo. Fazer nossa música porque as pessoas gostam. Acho que você não pode forçar a barra em função social. Acho que a gente, com 19, 20 anos de idade não temos nada para protestar por enquanto, nem experiência para isso.

Cris: Eu tenho o que protestar: os bueiros da Light! (RISOS)

E a meta como músico?

Baiano: Sendo muito sincero, eu nunca achei que nós fossemos entrar numa banda para subir. O que difere a Black Viper das outras bandas é que o nosso laço é muito forte, nós somos muito amigos. A gente nunca nem chegou perto de briga. Isso fortalece nossas bases. O primeiro ensaio da formação inicial já foi bem bacana, excitante eu diria.

Cris: É verdade, tudo ficou tão certinho. Aí a gente disse: é, vamos fazer.

Baiano: Você não sabe o orgulho que é entrar no myspace e ver que 48% dos seus ouvintes estão na Califórnia. Para mim, aquilo foi emoção em dobro, maior do que qualquer grana.

Frederico: E quando a gente fala que o principal é nos divertir, quer dizer também que qualquer coisa que vier, é lucro. Claro que há a questão da ordem prática: o dinheiro. A gente tem gastado bastante coisa. Seria bom ter um retorno (RISOS).

E sobre algumas declarações de pessoas que ainda taxam a figura “roqueiro” como vagabundo, drogado, agressivo?

Frederico: Olha, isso não se encaixa para nós. A banda é totalmente tranqüila, alegre. Roqueiros não só se matam ou berram.

Cris: Quanto às drogas, eu sou viciado em coxinhas de galinha (RISOS)

Baiano: A nova cara da Black Viper é muito paz e amor. Eu ficava muito chateado, particularmente, quando tinha cabelo grande. Se você tem cabelo grande e curte rock, é maconheiro. As pessoas carimbam logo. Isso é muito chato.

A escolha do figurino da banda passou por essa ideia de trazer uma sobriedade diferente do que geralmente se vê na vestimenta rock?

Baiano: Nossa primeira ideia foi tirar foto em posto abandonado dentro de uma kombi. Mas, isso seria obvio.

Esteban: Na verdade, foi tudo inesperado, inclusive o lugar em que nós tiramos as fotos.

Frederico: Era para dar tudo errado, mas no final deu tudo certo.

Cris: No começo, a gente ia tirar as fotos no prédio que o Eike Batista comprou lá na Praia do Flamengo. Mas, fomos barrados pelos seguranças.

Frederico: Aí, a gente foi obrigado a tirar as fotos no Aterro do Flamengo. E ficou bom! Fugimos do soturno.

Como é que vocês se classificariam dentro das vertentes do Rock, se é que isso é possível de mensurar?

Baiano: Eu, particularmente, tenho uma vertente metal muito forte. Tirando o Fred, o Cris e o Esteban também bebem dessa fonte. Eu considero a banda Black Viper como hardrock. Não chegamos a ser metal, mas é um quase metal.

Cris: Eu sinto que a gente é uma banda de hardrock. Mas, não um hardo rock clássico estilo Van Halen, entende? As pessoas até confundiam isso no começo. Deixava claro que a gente tocava outras coisas.

Esteban: Eu sempre toquei metal, mas é claro que outras influências se misturam. A nossa proposta é muito diferente. Nunca toquei nada parecido.

Baiano: A prova de que a Black Viper não é metal é que conseguimos agradar todos os tipos de ouvidos. Minha avó gosta da Black Viper! Metal não agrada a muitos, sabe? Em termos de massa quero dizer.

Frederico: Acho que a gente agradou a muitos porque nossa música é simples, direta. E bonita. Parece complexa, mas não é. É um simples elaborado.

Como é o processo de composição de vocês?

Baiano: Sendo bem sincero, as nossas duas músicas devemos muito ao Cris (vocalista). Ele foi o criador dos hits principais, mas as músicas acabam tendo a cara de todos os integrantes.

Cris: As músicas da primeira banda (Speed King) eram muito diferentes. Eu nem considero aquilo música compartilhada, porque só eu que metia a mão e fazia. Com todo respeito aos caras da banda. Agora, quando a banda foi refundada e se tornou Black Viper, a coisa mudou. Cada um de nós dialoga e interfere no processo de composição.

Mas, como é que você constrói a letra, Cris?

Cris: Eu começava a escrever sobre qualquer assunto no caderno do colégio mesmo. Isso nas primeiras composições. Eu também estava de saco cheio de toda a banda que formava sair gente. Isso cansa. Então, minhas primeiras composições tinham a ver com essas angústias e com o desejo de querer tocar o que eu gosto com um grupo realmente formado. Isso sempre foi um sonho. Aí, fiz uma letra sobre isso. Agora, atualmente, o meu processo de composição é com todo mundo.



BAIANO, o baixista.

Esteban: Acho que o que mudou foi isso. O Cris fazia tudo no processo de composição. Agora, todo mundo desenvolve tudo.

Cris: E eu nunca quis ter carreira solo. Agora, nós somos o solo. (RISOS)

Esteban: Ninguém aqui tem pretensão de ser algo mais do que o outro.

E a visão de que o bateirista e o baixista não são os mais importantes da banda?

Frederico: Isso me irrita profundamente. Não existe nenhuma banda, em qualquer parte do mundo, que não tenha uma base rítmica que flerte com a bateria e com o baixo. Até o cara do violão clássico vai precisar. Tem pessoas que tocam bateria e tem pessoas que são bateristas. Tem muita gente que faz barulho e não faz música. O baterista, no seu verdadeiro ofício, é a base rítmica da banda.

Baiano: E sobre o baixo, muita gente vem me perguntar: “onde é que está o baixo?” Eu dou sempre o meu exemplo do barco. A guitarra, o teclado e o vocal ficam no convés do barco – que todo mundo vê. A bateria está no motor do barco. E o baixo, onde fica? Ele não está no barco, ele é o oceano – rodeia a banda. Se você tirar o grave, o seu agudo se distorce.

Frederico: Exatamente. Tudo precisa estar ali, nada é por acaso. Uma coisa que eu admiro numa banda é quando o baixo e a bateria ficam casadinhos. Foi o que eu disse lá trás, o rock é um estilo que você pode colocar muita coisa nele. Samba, saxofone (a exemplo, o Pink Floyd com saxofone, que é maravilhoso). Você juntar o folk com rock também fica maravilhoso.

Como vocês analisam os fenômenos Restart, Luan Santana?

Frederico: Acho que é o fordismo musical, daqui a pouco passa.

Cris: Bem, na minha visão são fenômenos do momento, sabe?

Frederico: Isso é produção em massa musical. Pega uns caras bonitinhos e que tocam alguma coisa. Acho uma coisa sem originalidade. Muito óbvio.

Cris: E não precisa ser óbvio para atrair pré-adolescentes. Eu mesmo recebi um email de uma menina de São Paulo de 13 anos que elogiou muito a nossa banda.



ESTEBAN, guitarrista

Frederico: Esses fenômenos são totalmente voltados para o mercado. Se daqui a alguns anos eles sumirem, aí terei certeza de que foram só linha de produção, só fordismo musical. Mas, caso eles perdurem, vão ter algum valor sim que a gente ainda não conseguiu ver.

Rock brasileiro. Como analisam?

Esteban: Nós como banda não nos identificamos, não temos como influência o rock nacional.

Baiano: A música do rock nacional é muito boa, embora não nos agrade como influência. Conseguir se firmar com música no Brasil é muito complicado. Não só o rock nacional, como a MPB tem o seu valor absoluto.

Cris: Acho que o rock nacional vive um momento meio capenga. Porque o público do rock, aqui no Brasil, está meio complicado.

Frederico: Acho que o Brasil é um caldeirão de diversidades musicais, e o rock acaba não conseguindo se destacar. Tem coisas no Brasil, em termos de rock, que são muito boas, mas não reconhecidas. Se a gente for citar o Tim Maia, Ed Motta, poxa, são maravilhosos com a mistura do soul, samba, jazz. Tem outra coisa: os próprios brasileiros não valorizam o rock brasileiro. É a ideia de que tudo o que vem de fora é melhor.

A internet entra nessa história como facilitadora para vocês?

Esteban: Primeiro é que os sites estão no nível global, a nossa divulgação não é só no Brasil. E é de graça, isso facilita muito.

Frederico: A internet, na minha opinião, trouxe mais benefícios para a música do que malefícios. Quem se ferrou mesmo foram as gravadoras. O que mais dá dinheiro para a banda é o show. O cara grava um disco para ter um material de promoção do show.

Baiano: Eu acho que CD, atualmente, é puro simbolismo. No show é onde mora a verdade do artista.

Frederico: Todo mundo baixa música, ninguém vai acabar com essa nova relação. Então, o CD acaba se tornando objeto de colecionador. Em 1990, por exemplo, como você ia arranjar um disco de uma banda japonesa? Hoje, rapidamente, você põe no Youtube e ouve. Seleciona o que você quer escutar. Acho que o mercado fonográfico não acaba, mas vai mudar a maneira de se transmitir música e os parâmetros de boas quantidades de venda vão cair.

Baiano: Eu acho ofensivo colocar uma música sua na internet, o cara escuta 30 segundos e se ele quiser ouvir mais, vai ter que pagar R$1,99. No nosso caso, a gente quer sair no zero a zero. Queremos tocar a nossa música. E, se você pode pagar pelos nossos shows, ótimo.

Frederico: O propósito da música é divertir.

Baiano: Se a Black Viper for fogo de palha, já valeram os seis meses maravilhosos em que nós estamos na banda.

Frederico: Por outro lado, eu não quero ficar famoso.

Baiano: A gente já ganhou palavras que superam cachês. Você ouvir de um cara experiente em rock e ele falar: “Essa banda traz algo que eu não escuto há muito tempo no Brasil”.

Frederico: Teve uma menina da Indonésia que elogiou muito a banda!

Qual a fronteira entre entretenimento e arte?

Cris: Toda a forma de arte vai te entreter se você considera aquilo arte. Acho que está aí a questão.

Vocês têm um planejamento de show?

Frederico: Estamos abertos à proposta!

Baiano: Eu queria levantar uma questão. Tenho ódio de gente que quer ganhar dinheiro em cima de banda de garagem.

Cris: É verdade, rola muita picaretagem em evento de bandas undergroud. O cara chama a gente pra tocar e a banda, naquela ânsia de querer tocar, a gente aceita. E o dono do espaço exige que a gente venda para ele 50 ingressos a vinte reais. Aí, você chega no lugar, ele ta todo ferrado, a bateria andando, o som uma merda, sabe? A divulgação é nenhuma e o cara pode cortar o seu show.

Esteban: E, infelizmente, os festivais de rock do Rio seguem esse estilo. Os melhores estão fora da cidade do Rio e até do Estado.

Cris: E a banda que investe nessas coisas, está matando o seu próprio trabalho. Porque investir num show picareta que não dará retorno é burrice.

Baiano: Nós já chegamos a 38 mil views no myspace. Isso é bom registrar.

Frederico: É bom lembrar também que a Black Viper chegou no primeiro lugar da mais pouvida no ranking do myspace. Ficamos ao lado de bandas como Iron Maiden. Isso mostra a potência do nosso som. Mas, infelizmente, tomamos uma trolada do myspace. Deu erro no HTML.

Baiano: E nós que fizemos todo o layout do nosso myspace. Tem banda que paga R$900 para fazerem layout. Não precisa. Vamos se esforçar! Se podemos dar algum conselho, é determinação.

Esteban: A gente pesquisa muito, olha tudo. Investimos grana em divulgação, enchemos o saco nas redes sociais, além de comprarmos novos equipamentos.

Cris: O principal do som da gente é que a energia que a gente passa de sintonia no estúdio passa para o ambiente do ao vivo. E estamos melhorando cada vez mais nosso desempenho ao vivo.

Esteban: Todo nosso show a gente costuma gravar para ver onde é que estamos errando ao vivo. A gente testa o lugar antes, temos toda a matemática na cabeça.
Qual o recado para o público de vocês?

Cris: Muito obrigado!

Baiano: A gente quer, antes de terminar, chamar pessoas que toquem teclado, que sejam tecladistas para fazer um teste com a gente. Quem se identificar com nosso som, por favor, mandem email para nós: bandablackviper@gmail.com Nós estamos querendo e precisando de um bom tecladista. Manda telefone que a gente combina e estamos dispostos a fazer essa parceria.

Cris: Lembrando que estamos abertos a shows e festivais. Mas, não pagaremos pra tocar, isso não. O contato para shows é pelo facebook, myspace, pelo telefone: 9343-6634 ou email. Estão todos conectados sempre.

Baiano: Inclusive, queremos agradecer ao site Rio Rock Zone. Concorremos como a banda do mês de Junho e ganhamos. Nós concorremos com várias bandas do Brasil excelentes.

Baiano: A mensagem é obrigado, thank you, merci bocu, arigatô, todo mundo que nos ouviu, dentro e fora do Brasil, para nós é um orgulho muito grande. E continuem curtindo.

Frederico: A verdade é que são os fãs que nos movem. Não tem motivação maior do que as pessoas gostando do que a gente faz.

Com notório profissionalismo, a banda segue rumos assertivos e comprova que o laço, a amizade, traz maturidade e - no caso deles - faz rock. Realiza música.


LINKS RELACIONADOS:

http://www.myspace.com/blackviperofficial
http://www.riorockzone.blogspot.com/

domingo, 10 de julho de 2011

A CANÇÃO COMO RAINHA

Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Lucas Conrado
Revisão Textual: Paulo Cappelli


O cantor e compositor César Lacerda



O músico César Lacerda, ou seria melhor percebê-lo como cancionista (?), nos cede um rápido bate papo numa livraria em Botafogo, abordando principalmente que não tem uma “luta pela tradição”. César diz que A canção existe e sua maneira de existir é muito natural. E que ele possui uma admiração profunda por esta manifestação humana de produção de cultura e arte. Com visões que podem parecer polêmicas, o compositor se declara um amante de Minas Gerais e enxerga Belo Horizonte como o celeiro de um novo horizonte para a produção original da canção no Brasil.

Na segunda parte da nossa entrevista (que será postada em breve aqui no Blog), vamos falar dos projetos musicais de César Lacerda com mais profundidade. São muitas as ideias e reflexões desse velho jovem pensador da arte musical.


O HÉLIO: Onde tudo começou no RJ, César? E porque do desejo de juntar-se a outras pessoas?

César Lacerda: Tenho um trabalho com a Luiza Brina (cantora, compositora e multiinstrumentista mineira), que se chama Lu e César (www.myspace.com/luecesar). Mudei-me para o RJ há quatro anos, e quando ela se mudou para cá, passamos a nos encontrar regularmente para compor. O que resultou destes encontros vai sair agora em disco, no segundo semestre. Nasceu daí, a ideia de juntar toda a galera da minha geração em Minas. Uma forma de catalogar, cartografar a geração, o que é, em si, pragmaticamente ou, do ponto de vista da logística, uma irrealidade. Vem daí o show Por um passado musicável: notícias numa fita, que é a junção minha, da Luiza Brina e do Luiz Gabriel Lopes (da banda Graveola e o Lixo Polifônico). Esse show se deu da seguinte forma; encontramos via internet para compor todas as canções, via skype mesmo. Depois nos encontrávamos para ensaiar e tocávamos. Nessa, já fizemos Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. Onze shows ao todo. É inclusive importante dizer aqui que, atualmente, a banda mais importante do cenário é o Graveola e o Lixo Polifônico. Eles vão lançar no segundo semestre o segundo disco (e meio). No disco uma parceria minha com o Luiz Gabriel.



O.H.: E aí, você e Luiza...?

César: Daí, foi natural. A coisa aconteceu. Tanto eu quanto a Luiza acreditamos num tipo de produção que é essa do agora. Que envolva o agora. A gente senta em casa e produz a música. Não tem percussão, a gente bate numa panela. (RISOS) Não tem guitarra? Então, vamos gravar com violão. Por exemplo, em um dos encontros havia uma obra de construção de um prédio que nos incomodava muito! Resolvemos, vencidos pela obra, a abraçá-la e a colocamos na música. É isso: como que o ambiente pode interferir na produção e o que se extrai disso.

O.H.: E você sempre carrega um pouco de B.H. em seus trabalhos.

César: A gente sempre carrega alguma coisa do lugar de onde a gente vem ou passou. É o nosso código genético natural.

O.H.: O que tem lá de tão especial?

César: Belo Horizonte foi... Bem... A coisa começa assim: De repente, levados pela noção de que muitos novos compositores estavam compondo e querendo mostrar aquela produção pra um público, juntou-se um monte de gente pra fazer música em conjunto. E juntou mesmo! As pessoas perceberam uma necessidade de escoar aquela produção e começaram a fazer shows, discos, filmes, livros em conjunto. Daí, dos encontros no "Reciclo Geral" que nasce o disco mais importante pra essa nova geração; o A Outra Cidade de 2003. Que é um disco (manifesto) importante. Que quer, por um lado, escoar essa produção mas por outro, e mais incisivamente, pretende formatar, inventar um porque de criação artística que reafirme o sentido da produção cultural e a relação disso com a cidade. Isso acabou gerando uma constatação de que era e é viável produzir canção com um leque variado de pessoas, de músicos e com uma relação com a cidade bastante enriquecida e formadora. É a relação cancional interagindo com a cidade. Isso é muito peculiar. Ao mesmo tempo em que se tinha uma relação clara e óbvia com a coisa da cidade e da produção anterior, havia também uma negação. Não pretendia plasmar sobre a canção as mesmas identidades anteriores; do Clube da Esquina ou mesmo do pop dos anos 90. Eu falo disso neste artigo aqui: http://phiattro.blogspot.com/2011/02/sobre-outra-nova-cidade-e-invencao-da.html. Ou seja, o que tem de tão especial em Belo Horizonte hoje é que se conseguiu entender que essa lógica mundial de compartilhamento pode ser levada ao extremo. Então, hoje o cara da banda de rock junta com o cara da banda de pagode e faz um Carnaval. Inventa um Carnaval. Lá não tem essas barreias como aqui no Rio: “a galera do samba” x “ a galera da bossa nova” x “ a galera do forró”. Em BH, existe a galera da música. A galera da Arte.

O.H.: Como é, sob seu ponto de vista, todo esse processo aqui no Rio de Janeiro?

César: Aqui no Rio, as estruturas estão muito sólidas no sentido ruim. Acho que o Rio, por conta talvez da imensa beleza da cidade, esses espaços do fazer artístico foram sendo segmentados de maneira muito estanque. Por exemplo, o samba é uma invenção. Não é uma produção genuína. Ou melhor, é uma produção que morreu atrelada à necessidade de ser genuína. Essa genuinidade que é vendida no Rio é falsa porque é apenas turística.

O.H.: Como assim?

César: Esse espaço da morena, do samba, do Carnaval, é muito consolidado aqui. E eu não sei até que ponto isso é genuíno. O cara do samba, aqui no Rio, nunca vai dialogar com o cara que faz rock. A produção deles não vai vazar para nenhum lugar. Porque eles estão enquadrados, preenchidos por essas lógicas de “tradição e repetição”. E a repetição pode levar a um lugar que é pouco genuíno. Por exemplo, é muito chato você ir à Lapa e ouvir o mesmo repertório. Por quê? Porque aquilo está ligado ao entretenimento. A pessoa não vai lá para ver um show, mas sim para beber cerveja, assim como não vai para assistir a uma peça. As pessoas vão porque precisam ocupar o tempo com alguma coisa que as reconecte com um suposto lugar de felicidade.

O.H.: Qual o problema do público do Rio?

César: Falando assim, me coloco num lugar de acusador e de ressentimento. Não sei qual o problema, de fato. Mas acho que o melhor público do Rio é o pessoal do subúrbio. Das comunidades. É um público ávido, dedicado, respeitoso. Aqui no Rio, você só é visível se sair na foto do jornal famoso, entende?

O.H.: Sua formação?

César: Eu nasci no interior de Minas, numa cidade que se chama Diamantina, e minha mãe estava abrindo uma escola de música para crianças. Ela até hoje toca piano, não tem como parar. E ali que se abrem as fronteiras pra mim. Depois, fui para Fundação de Educação Artística em Belo Horizonte, no fim da infância. A minha formação é em música erudita, por conta da universidade. Por outro lado, há uma tradição da canção brasileira que me puxou. Talvez, a minha formação se dê no entrechoque de informações que existem entre estes lugares; a academia e as mil tradições orais, fonográficas, urbanas...




O.H.: Faz o quê na UNIRIO atualmente?

César: Eu vou me formar como flautista, mesmo não sendo um! (RISOS) Não sou por não querer ser e porque politicamente não sou flautista. Acho brega essa instituição “o flautista”. Porque isso vai de encontro com a minha questão com a canção. Aliás, esse papo de que a canção morreu é mentira, hein!? Talvez o Osama tenha morrido. Talvez! (RISOS).

O.H.: Como encara a questão Ana de Hollanda?

César: Eu quero a Ana fora. Porque ela é fruto de algo que já acabou. Ela poderia ser ministra do Geisel, mas não ministra de uma época pós Gil.

O.H.: O que é a canção, César?

César: Talvez a canção seja tudo aquilo que nos conecte com a terra. Uma reconexão, um refluxo da informação que há entre o nosso trabalho diário de viver e maneira como processamos esta lógica.

O.H.: Algum pensamento que sintetize nosso bate papo?

César: O Roberto Alvim (diretor teatral) falou uma coisa numa entrevista para O Globo que me chamou atenção: É muito duro para o ser humano essa ideia do conhece-te a ti mesmo. Ele, e eu também, gostamos mais da ideia do constrói-te a ti mesmo. Talvez, daqui a 20 anos eu não concorde comigo mesmo. Mas, hoje, aos 24 anos, penso assim.


Guiado por um pensamento filosófico e questionador, César aproxima para si e expande para o seu público discussões inquestionáveis para o modo de pensar arte e de fazer música no Brasil e no mundo.



LINKS RELACIONADOS:

http://www.youtube.com/watch?v=Mw-Q6DbSOS8
http://www.youtube.com/watch?v=Wyamofi-FiQ&NR=1
http://www.youtube.com/watch?v=z5DRyujZCJY&feature=related

terça-feira, 5 de julho de 2011

BETO GUEDES – a música emocionada

Por: Pedro Paulo Rosa
Foto: Dimitrius Borja
Revisão Textual: Paulo Cappelli



O marcante timbre de voz do mineiro de Montes Claros voltou a encantar o Rio de Janeiro. Com um show gratuito na cidade, Beto Guedes retomou – numa levada rica em metais e solos de guitarra - clássicos como “ Lumiar”, “ Amor de Índio” e “Nascente”. Além de compositor, cantor e violonista ele transmite em suas canções um verdadeiro encontro entre letra, melodia e dá um fechamento peculiar com sua voz inconfundível.
Tímido, esse músico raro e um dos mestres da nossa MPB divide com a gente um bate-papo acerca do seu processo de composição e da alegria por manter um público fiel e que, cada vez mais, cresce e ultrapassa gerações.

O HÉLIO: Qual é o seu pensamento ao produzir suas canções?

BETO GUEDES: Eu não sou aquela pessoa que anda sempre com violão, tocando, como vejo outros amigos. Mas, o processo de criação é um trabalho qualquer como o outro. Tem que sentar, pensar, procurar até achar alguma coisa. (RISOS)



O.H.: Tem muitos elementos nas suas músicas. Um dos principais, a natureza.

Beto: Nesse show em especial, aconteceu uma coisa: eu estava muito atento à banda e acabei me perdendo. Daí, quando eu me perdi, decidi seguir para frente e depois voltar. Você percebeu que eu fiz um “Lumiar” instrumental? Isso é inédito. É a única vez que alguém fez assim.

A sensibilidade de Beto é percebida em cada momento; o simples sorriso junto com os braços que se levantam para – repetidas vezes – agradecer à plateia e cumprimentar àqueles que cantam em coro suas músicas.

O.H.: Como sente o calor do seu público?

Beto: Ah, acho muito bom. O cara está lá no trabalho dele e sai depois do trabalho, cansado e diz: “quero ver o show dele”. Isso é muito bom. Enfim, a humanidade tem que ser gentil.

O.H.: Você é um otimista, Beto, da humanidade?
Beto: Sim, acho que sim. Mas, também sou uma pessoa detalhista e, às vezes, faço ponderações coerentes. Por exemplo, o uso exagerado da tecnologia. O cara que pagou o mesmo preço que você no meu show pode filmar meu show com celular de câmera e tudo certo. Eu não acho isso justo. Tem alguém que concorda com isso?



O.H.: Tem alguma música em especial que você guarde com mais carinho?

Beto: Eu guardo todas como se fossem meus filhos. É claro que umas marcam mais, ficam melhor gravadas. De repente, o baixista era outro, por exemplo.

O.H.: Como é tocar com o filhão (Ian Guedes)?

Beto: É muito bom! Ele é um bom músico. Estamos caminhando, sempre tentando acertar.

O.H.: Qual o recado para o seu público? Público que, cada vez mais, cresce e se modifica.

Beto: O recado que eu tenho é paz, felicidade e saúde. O resto é adjunto! (RISOS).



IAN GUEDES (baixista) e ADRIANO CAMPAGNANI (guitarrista) também conversaram conosco. Tentaram traduzir a linguagem de Beto Guedes e a sua originalidade como uma das constituidoras da música nacional.

O.H.: Vocês estão há quanto tempo na banda?

Adriano Campagnani--- Eu estou na Banda do Beto tem 13 anos. Geralmente, mantemos a banda em sua composição original. Só quando um músico não pode que substituímos.
Qual é a busca da linguagem do show de vocês?

Ian Guedes --- Ah, cara, tem uns momentos de feeling que o meu pai sente e a gente segue. O show não é tão amarradinho. É muito do Beto.

Adriano --- A gente só sugere. Se ele gosta ou não, a coisa flui a partir daí. Continua ou não.

O.H.: Teve alguma situação inesquecível, uma situação legal de retorno do público como a que hoje vimos aqui?

Ian --- Acho que todo show tem o seu momento. O público do meu pai é muito fiel. A única coisa que pode atrapalhar é se a técnica do local em que a gente ta se apresentando for muito ruim. Porque isso corta a onda dele e a nossa.

O.H.: E como vocês classificariam o atual público do Beto Guedes?

Adriano – O público do Beto já subiu uma geração. Quem ouvia Beto Guedes, seus filhos já o escutam. Então, continuamos com o mesmo astral. O público é muito fiel. Teve um show em Fortaleza, por exemplo, que o lugar cabia 1.500 pessoas e ficaram mais de mil do lado de fora.



O.H.: O que vocês sentem quando executam a música do Beto?

Adriano --- Eu costumo falar que as músicas do Beto são músicas do tempo em que se faziam música de verdade. E não com esse superficialismo atual que só quer dinheiro.

Ian --- Eu também acho isso que o Adriano comentou. Mas acrescento que, na música do meu pai, há muito respeito e arte.
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Contato Dimitrius Borja: (21) 9899-5873 ou dimiborja@gmail.com