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sábado, 30 de abril de 2011

LEONI: outro futuro na música do garoto



Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Lucas Conrado
Revisão textual: Paulo Cappelli

Calçando um sandalhão franciscano, o cantor e compositor Leoni (ou seria melhor apresentá-lo como o garoto?) nos recebe em seu apartamento na Gávea, Rio de Janeiro. A tarde parece noite por conta da forte chuva e nuvens carregadas. O ex-abóbora selvagem nos pergunta qual o melhor local para conversarmos. Escolhemos o sofá branco, tendo como fundo um colorido quadro.
De abajures e gravador ligados, começamos o nosso bate-papo, passando desde a primeira ligação de Leoni, aos 16 anos, com a música até o seu próximo show, dia 06 de maio de 2011, na Lona Cultural Elza Osborne (em Campo Grande, RJ). Ele se inicia através do violão.
--- Eu tocava violão e basicamente todos os meus amigos tocavam guitarra. Aí, quando a gente decidiu montar uma banda, éramos quatro guitarristas. E eu não era o melhor guitarrista; achei que para eu garantir minha vaga na banda teria que rumar para o baixo. E eu sempre gostei do baixo, mas nunca tinha estudado. Com a formação da banda, eu garanti que ficaria com o baixo e comecei a estudar mais o instrumento. E dei sorte porque apareceram, na época, uns baixistas que eram fáceis de tirar.

O Hélio: Vocês tinham onde como base de ensaios?

Leoni: Na época, era muito comum tocar dentro do próprio quarto, independente dos pais apoiarem ou não. A gente começou com uma banda chamada “Chrisma”. Eu, Beni Borja e outros amigos.

O.H.: E dessa banda surgiu como o Kid Abelha?

Leoni: Kid Abelha e os abóboras selvagens surgiu da faculdade. Eu fiz Letras e Direito. Não terminei nenhum dos dois. Mas, quando fazia Direito na PUC, em 1979, aqui no Rio, conheci a Paula (Toller) e o George Israel. Começamos dali. Depois, batalhamos e conseguimos alugar o Teatro Ipanema, fizemos um show que lotou! Isso nos deu ânimo para prosseguir.

“A música Garotos II vem mostrar o outro lado da moeda. Vem mostrar que os garotos não conseguem levar as coisas até o fim porque eles não sabem lidar com relação”.

O.H.: Conseguiram espaço no bolo de que modo?

Leoni: Por mais que já tivessem bandas bacanas, como Blitz e tudo o mais, não se tinha uma potencialidade focada no Rock ou no Pop Rock. A gente percebeu os espaços do momento que fervilhavam, como o Circo Voador. E ali vimos que poderíamos ter chances.

O.H.: A chance foi tanta que Kid Abelha é sucesso até hoje, com mais de 9 milhões de CDs vendidos só no Brasil.

Leoni: Pois é. Depois do Kid, tive uma banda chamada “Heróis da Resistência”. O primeiro disco do “Heróis...” fez muito sucesso. Mas, o segundo não deu nada certo e parece que o terceiro pegou uma rebordosa desse segundo.

O.H.: E qual o motivo da banda acabar?

Leoni: A gente acabou num dilema. Os meus parceiros do “Heróis da Resistência” estavam numa de modificar toda a cara da banda, fazer uma banda de heavy metal. E aí tentamos adaptar as minhas músicas para heavy metal, só que não deu certo. Eu queria caminhar para uma área mais rock e pop rock. Mas não rolou nenhuma tensão, tanto é que gravamos numa parceria logo em seguida.

O.H.: Já a ruptura com o Kid Abelha houve tensão.

Leoni: Sim, houve um certo problema, mas que já foi resolvido.

“Ah, eu sempre tive muitos parceiros de composição. Por exemplo, a única música que o Ney Matogrosso compôs foi comigo”.

O.H.: Uma de suas músicas mais conhecidas é “Garotos II”. Saiu como àquela letra e música?

Leoni: Então, na verdade, essa música é como uma resposta a música “ Garotos”, que a Paula canta. A música Garotos II vem mostrar o outro lado da moeda. Vem mostrar que os garotos não conseguem levar as coisas até o fim porque eles não sabem lidar com relação. E a mulher, ao contrário, desde menina vem sendo preparada para este traquejo de se colocar bem numa relação amorosa. Então, os garotos evitam porque não sabem jogar esse jogo.

O.H.: E como é o seu processo de composição? Ele é espaçado ou sempre chega coisa nova na cabeça?

Leoni: Só escrevo canções que falem da minha vida. Não faço letra para preencher melodia. Tem que ter eco emocional em mim. Mesmo que seja em um projeto para cinema, por exemplo. Agora, tem momentos em que fico no vazio mesmo. Gosto de compor muito em parceria. Nesse momento, as canções estão sendo feitas com parceiros.





“O Cazuza era muito meu amigo. E ele estava querendo, depois que saiu do Barão Vermelho, ter uma música que marcasse ele como cantor solo”.

O.H.: Te angustia quando esse vazio de não compor chega?

Leoni: Se eu não tivesse tantas músicas já escritas, talvez ficasse desesperado.

O.H.: E, como, mais ou menos, começou o seu processo de criação? Ou seja, em que momento você foi saindo do baixo e indo para a composição, voz?

Leoni: Eu sempre gostei muito da melodia, de estudar mesmo a melodia. Me considero um melodista. Me guio pela melodia. Adoro isso.

O músico para um instante para observar a cadência da chuva, que aumenta. Ele suspira. Olho para a mesinha à nossa frente, enxergo livros de Bob Dylan e revistas sobre música.

O.H.: Você comentou que no momento tem composto mais em parceria. Quem são esses parceiros?

Leoni: Ah, eu sempre tive muitos parceiros de composição. Por exemplo, a única música que o Ney Matogrosso compôs foi comigo. Essa música é muito cara para mim, chama-se “Dívidas de amor”, num CD chamado “Bugre”.

O.H.: Você também compôs com Cazuza um dos maiores sucessos solo dele, a música “Exagerado”.

Leoni: Sim. O Cazuza era muito meu amigo. E ele estava querendo, depois que saiu do Barão Vermelho, ter uma música que marcasse ele como cantor solo. E aí, nasceu essa música. Mas, tenho outras parcerias, como Herbert Vianna , Frejat, Paulinho Moska, George Israel e Paula Toller. As parcerias atuais são o Fernando Anitelli, do Teatro Mágico, e o Christian Oyns, um músico uruguaio incrível que tem um canal no youtube. Vale a pena conferir.

O.H.: Você, depois do “Kid Abelha”, depois do “Heróis da Resistência” teve um hiato muito grande na carreira, não é?

Leoni: Fiquei anos sem aparecer muito, mais de cinco anos. Fazia pouquíssimo show, fiquei mais em participações de amigos e outros trabalhos menores. Mas, em 2002, eu lanço meu segundo disco solo, chamado “Você sabe o que eu quero dizer”. Em 2003, tudo muda de figura e eu passo a ver que tinha um público cativo imenso, mas que não conhecia. Justamente nesse ano, gravo um CD pela som livre chamado “ Áudio Retrato”. Esse trabalho me possibilita várias outras coisas, inclusive a tocar no interior do país. Minas, Nordeste etc. Até hoje, o meu público nesses locais é muito forte. Mas, o negócio fica mais seguro mesmo para mim em 2005, quando a gente faz o DVD ao vivo do “Áudio Retrato”.




“Só o ser humano consegue olhar para essas montanhas (aponta para sua janela, com as montanhas da Gávea) e dizer: nossa, que visual lindo! Será que os passarinhos conseguem achar isso também?”.

O.H.: Quer dizer, depois de “ Áudio-retrato”, sua carreira tomou um vulto enorme.

Leoni: Exato.

O.H.: De certo modo, era necessário você mostrar que muitos dos hits e músicas de maior sucesso do Kid Abelha são suas.

Leoni: Sim. Eu tinha que quebrar a ausência de voz que eu tinha na música que eu compunha. Não tinha gravação, até então, de mim cantando essas minhas músicas tão conhecidas.

O.H.: Sua meta era ou ainda é a fama?

Leoni: Não. A meta é ter uma carreira sustentável. E eu não tenho do que reclamar. Pago minhas contas, consigo manter meus dois filhos. (Risos).



“Estou aprendendo a viver sem Deus, a me comunicar diferente. É como se, depois dos 50 anos, eu estivesse vivendo uma segunda encarnação. A esperança, se nos viciarmos nela passivamente e com inércia, pode se tornar impotência”.


Leoni, um dos pioneiros em fazer da internet sua aliada, criou um espaço de mobilização virtual que vai além do que um simples site. Neste local, o artista e seu fã estabelecem um laço bem mais íntimo e firme. O site promove concursos de música e o fã, escolhido pelos cadastrados no site (já são 58 mil cadastrados), canta junto com Leoni em seus shows pelo Brasil afora.

O.H.: Como é Deus para o Leoni?

O ex Kid Abelha cruza os dedos, freme os lábios e suspira em silêncio:
--- Depois que completei 50 anos, esse é um ponto, atualmente, bem sensível e acho que doloroso também na minha vida. Sou de uma família católica do interior do Espírito Santo. De uma forma ou de outra, sempre busquei Deus ou...algo místico. Mas, no atual momento, que é de fato doloroso, eu me vejo mais afinado com as filosofias do que com a religião. Por exemplo, vai sair um artigo meu em um livro beneficente cujo título é “Aprendendo a viver sem Deus”. Nesse artigo, eu coloco mesmo que é muito desconfortante para o ser humano admitir que está sozinho, que não há mais nada. E que ele não pode comprovar esse conjunto de narrativas religiosas que criamos para, de alguma maneira, darmos sentido à nossa vida. E digo mais: eu estou cada vez mais apaixonado por nós, homens. Só o ser humano consegue olhar para essas montanhas (aponta para sua janela, com as montanhas da Gávea) e dizer: nossa, que visual lindo! Será que os passarinhos conseguem achar isso também? Quer dizer, temos um pensamento, um cérebro, apaixonante.

O.H.: Você é um humanista bastante otimista! (Risos)

Leoni: Sim, sou. Eu tenho esse olhar bastante otimista para e sobre o ser humano.

O.H.: Mesmo com todas as atrocidades que vemos, como por exemplo, a tragédia de Realengo e a mulher que depositou a filha recém-nascida na caçamba de lixo?

Leoni: Ainda assim, Pedro. Hoje menos pessoas passam fome, hoje a gente já está antenado com relação à poluição do Planeta. Sou um otimista.

O.H.: Bem Rousseau.

Leoni: Não seria nem tanto Rousseau. Na verdade, leio muito Nietzsche e, atualmente, o André Comte-Sponville, filósofo materialista francês. E gosto muito também de Luc Ferri. Pois é, sempre curti muito ler, pesquisar, estudar. Mas, não sinto falta das duas faculdades que não terminei. Estudo por prazer. E mais sobre o homem: a gente sabe que não somos naturalmente bons. Tanto sabemos que a gente quer, o tempo todo, conseguir ser uma pessoa boa, sem inveja, sem cobiça etc. Estou aprendendo a viver sem Deus, a me comunicar diferente. É como se, depois dos 50 anos, eu estivesse vivendo uma segunda encarnação. A esperança, se nos viciarmos nela passivamente e com inércia, pode se tornar impotência. Porque é a gente que tem de correr atrás das coisas que queremos.

O.H.: Mas, recordo-me que você chegou a frequentar por um bom tempo o Templo Budista KTC, em Vargem Grande e colocou um mantra budista na música que compôs para Herbert após o acidente dele com o ultraleve.

Leoni: Precisava de alguma resposta. Herbert é um dos meus melhores amigos e parceiros profissionais. Frequentei a KTC por cinco anos. Isso foi na época em que nós morávamos em Vargem Grande, eu era vizinho do Herbert (Vianna). Cheguei, durante o tempo em que frequentei a KTC, a fazer show lá no Templo, a ajudá-los nas limpezas dos banheiros e tudo o que precisasse.

O.H.: Sobre o atual cenário da música brasileira, o que te agrada muito?

Leoni: Ah, tem muita gente boa por aí... Destaco agora “Teatro Mágico”, “Móveis Coloniais de Acaju”, Jonas Sá, Marcelo Jeneci e vários outros. Não posso deixar de lembrar uma amiga veterana, inclusive fizemos músicas juntos, que é a Zélia Duncan.

O.H.: Analisa de que forma a gestão da ministra da cultura Ana de Hollanda?

Leoni: Em primeiro lugar, respondo dizendo que a internet veio para salvar a música. Veio para abrir as comportas e popularizar grupos musicais excelentes que, antes, precisavam passar por sei lá o quê para conseguir entregar fita demo em gravadora. Não é pirataria você baixar minha música na internet! Se você baixa, ou é porque você me conhece e me curte ou porque quer me conhecer. Pirataria é você copiar 100 cópias e vender cada uma a cinco reais no meio da rua. Então, quem me baixa na internet, é meu fã.

O.H.: E é até bacana porque esse fã que te baixa vai ao seu show e leva mais dez, quinze amigos.

Leoni: Exatamente. Hoje em dia, você faz show para ser conhecido, para ter laço com teu público. Antes, você se enfiava na hibernação e o CD é que chegava ao público, antes de você! Por exemplo, se eu quisesse escutar uma banda da Inglaterra, teria de esperar um amigo meu que fosse à Londres trazer para mim. E eu ainda poderia não gostar da banda e ter gasto o dinheiro. Hoje, escuta-se de tudo, simultaneamente, pelo Youtube.

O.H.: E sobre a postura da Ministra Ana, acha que ela não se posicionou?

Leoni: Sim, ela se posicionou. Ao lado dos conservadores. Imagino a pressão que não deve estar rolando. Acho que as atitudes dela são deslocadas e que ela vem defendendo um modelo antigo de direitos autorais, como se a internet fosse roubar o artista.

O.H.: Fala mais.

Leoni: O Ministério tem encarado o pessoal, eu, por exemplo, da cultura digital como se fôssemos crianças.

O.H.: Diante disso, ainda pensa em lançar CDs?

Leoni: CDs eu não sei. Usar CD para me lançar, acho que isso não vou fazer mais. Tudo mudou. Hoje em dia os parâmetros são outros. Agora, lançar novas músicas, isso com certeza. E irei disponibilizá-las de graça no meu site para os fãs registrados.

O.H.: Quer dizer, você além de ter se aliado à internet e de estar ganhando todo tipo de apoio por meio do virtual, ainda recebe o presente de, no meio do seu show, ouvir um coro de fãs cantando músicas inéditas.

Leoni: Pois é! (Risos).




O.H.: Qual tem sido sua rotina de shows atualmente?

Leoni: Tem sido bacana, cinco a seis shows por mês.

O.H.: Mudando um pouco o foco, é muito complicado ser pai?

Leoni: (Risos) A questão é que muda toda a sua relação com a vida. Suas prioridades mudam completamente. Eu tenho um casal de filhos.

O.H.: Atualiza a sua agenda para a gente.

Leoni: Então, dia 6 de maio na Lona de Campo Grande, no Rio. Dia 7 de maio, em Barra do Piraí. Dia 14 de maio, na Lona de Vista Alegre. Dia 19 de maio, tocarei no Fundão (UFRJ), um show ao meio dia! Aí, dia 21 de maio, na Lona de Realengo. Em junho, dia 10, na Lona de Jacarepaguá e dia 11 na Lona de Bangu. Falando nas Lonas, eu adoro fazer show lá, nunca digo não. Além de ser um público sofisticado, conhecedor de todas as músicas, são muito carinhosos e passam calor humano. É sempre um prazer tocar nas Lonas Culturais.

O garoto Carlos Leoni mostra ter convicção do que fala e marca uma trajetória profissional de muita coragem e desbravamento. Ele construiu e reconstruiu muitos castelos. Hoje, quer sair por aí, encontrar os fãs, mobilizar através do inovador site e mostrar suas antigas eternas canções e as que estão por vir.

Links relacionados: http://www.leoni.com.br/


Agradecimentos:

Rick Werneck

quinta-feira, 28 de abril de 2011

CABEÇA COMEÇA A GUERRA OU NEGOCIA A PAZ *





Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Lucas Conrado
Revisão Textual: Paulo Cappelli

A família Werneck nos recebe em seu estúdio com bolo e brigadeiro. Por quê? Xande, o vocalista da banda WWW, faz aniversário. A banda WWW, que inspirou a minissérie “Geral.com”, exibida na TV Globo em julho de 2009, com direito a ter segunda temporada, mostra que tem raiz na música.
Influenciados pela família, principalmente pelo produtor e também músico Rick Werneck (pai de Xande e Luke e tio de João, Pedro e Mateus), o quinteto cresceu em ambiente de rock anos 80 e surf, praia, viagens instigantes. Como a última, para Austrália.
João Werneck, guitarrista, ressalta que uma das fontes de inspiração para compor são as viagens que faz. E, claro, as fãs, as mulheres, e o cotidiano. Interessante notar que a sintonia construída entre a banda, Rick e Laila Werneck dá muito certo e na medida em que as músicas traduzem essa interação verdadeira no grupo. Quando pergunto se há muitas brigas, eles dizem que não, mas admitem que é difícil conciliar com o horário da escola/faculdade.
A matriz musical da banda compõe influências do rock brasileiro, passeando pelos Titãs, Raimundos, até chegar, por exemplo, em Gabriel Pensador. Eles não têm preconceito, mas sim compromisso com a carreira. Back Vocal é o grande diferencial melódico da banda, na qual os cinco fazem coro em muitas músicas, porém a voz principal é de Xande Werneck, o vocalista.
Embora sejam tão jovens, a maturidade parece ter nascido com eles: já emplacaram dois prêmios no Festival Sui Generis, lotaram o Canecão num show batalhado que lotou a casa no dia primeiro de agosto de 2010, tendo recebido a ilustre presença de Milton Nascimento, que depois acolheu a Banda WWW em sua residência e, até hoje, estabelecem uma troca artística.




XANDE, o vocalista da Banda WWW

O Hélio: Como começaram?

Luke: A influência da família foi sempre muito forte. A gente ouve rock em casa desde muito pequeno.

O.H.: As principais influências das músicas que cantam buscam onde? Bebem de qual fonte artísco-musical?

Xande: Recebemos muita influência do Rock brasileiro, passando por Titãs, Rock dos anos 80 até Gabriel Pensador, por exemplo. Não temos preconceito com nenhuma vertente, mas nos afinamos mais com o Rock. Seja pela forte influência familiar ou não, é o rock que nos harmoniza como grupo, como banda.

O.H.: Onde foi o primeiro show?

Pedro: O primeiro show foi na casa da nossa avó. Reunimos aproximadamente 200 pessoas, e aquele primeiro contato foi inesquecível.

O.H.: Já podem falar de um show mais marcante na carreira de vocês?

Luke: Com certeza; foi o show no Canecão (todos concordam). Dia primeiro de agosto de 2010. A galera adorou, a casa ficou lotada!

Xande complementa:
--- Nesse show, especialmente, ocorreu uma coisa muito diferente, que foi uma chuva de pulseiras! As fãs jogam de tudo um pouco no palco, mas nunca imaginávamos àquela chuva enorme de pulseiras.

O.H.: Como foi receber a notícia do fechamento do Canecão?

João: Por um lado, nos sentimos sortudos. Sorte porque conseguimos tocar no Canecão antes que ele fechasse.




O.H.: Qual a meta da banda?

Xande: Olha, a gente trabalha com a meta de expandir nosso público. Atualmente, o principal público é o adolescente. O que não nos incomoda, muito pelo contrário. Mas queremos ampliar nosso alcance. Fazer mais show, mais música. Criar alegria, consciência curtição com a música. Como em uma das nossas músicas chamada “ Kbça”. Nessa música, a gente pretende mostrar que a cabeça, a consciência, enfim, a nossa mente é tudo! E é preciso saber usar.

O.H.: Gente, e como é receber elogios do mestre Milton Nascimento e, além do mais, tê-lo no show de vocês lá no Canecão?

Luke: (Risos). Poxa, é muito bom. Muito bom mesmo, sem palavras (todos falam).

Pedro: E o Milton é um cara super generoso, tem aquela coisa de apadrinhar, de dar dicas. Muito bacana e humilde. Ele incentiva gente nova.

Luke continua:
--- Exatamente. Nós gostamos muito. E ainda cantamos uma música em homenagem a ele no show. Foi a “ Cravo e canela”.

O.H.: E a experiência de ter a vida de vocês contada numa minissérie (com duas temporadas) na TV Globo?

Xande: Poxa, foi muito desafiador. A gente viu a responsabilidade crescendo muito naquele momento, até porque sabíamos que estaríamos sendo assistidos por milhões de pessoas.

João completa:
--- Foi uma oportunidade única, que abriu muitas portas para a gente.

O.H.: Qual a dica que vocês dão para jovens que queiram, como vocês, montar uma banda?

Pedro: Ah, tem que correr muito atrás das coisas. Primeira coisa: ter certeza de que é isso que você quer fazer. E se dedicar, se esforçar.

João também diz:
--- E colocar a internet como nossa aliada. Por exemplo, fazemos show e ao mesmo tempo nossos discos são vendidos. O Rick monta umas blusas maneiras para vender pra plateia. O lance é batalhar mesmo. Correr atrás.

O.H.: E como explicar uma plateia berrando pra vocês? Cantando a música junto, sabendo a letra?

Luke: (Risos) Ah, a adrenalina que isso traz não tem palavras!

O.H.: Quem é o compositor da banda?

João: Na verdade, todo mundo compõe! (Risos) E os temas são variados; mulher, viagem, romântico, surf, temas sociais etc.

O.H.: Não dá briga?

João: Não, a gente se entende. Até o Rick compõe junto com a gente em algumas canções e fica uma mistura que dá a cara da banda.
O bolo do vocalista aniversariante estava ótimo e o som deles excelente. Porque, além de ser autoral, é diferenciado pela ênfase no back vocal ressignificado. Eles têm uma melodia muito própria e contagiante. A família Werneck vem das safras daquelas famílias que todos seguem o caminho da arte e mostram que dá certo sim trabalhar junto.


O quinteto da Banda WWW fará show amanhã, sexta-feira (29/04), na Lona Cultural Gilberto Gil, às 20 h.
Links relacionados: @bandawww

* o título é um trecho da música “Kbça”, composta por Luke Werneck, Mateus Werneck, Xande Werneck, João Werneck e Rick Werneck.




Agradecimentos:

Rick Werneck e Laila Werneck
Shopping Midtown

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O LEGÍTIMO É PARA SEMPRE

Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Lucas Conrado
Revisão Textual: Paulo Cappelli



Natara ganhou o último Festival do Rio com o seu curta " Um outro Ensaio"


O cinema estava marcado na vida de Natara Ney, montadora reconhecida por sua pluralidade inovadora e persistência. Com muita lucidez e brilho nos olhos, a profissional de cinema fala sobre a importância de conhecer as diversas áreas da profissão.
Estar aberto para diferentes funções se torna indispensável para uma coesão interna da carreira. Envolvida em várias produções, ela ressalta novos trabalhos, inclusive o seu curta-metragem “Um outro ensaio”, exibido no Festival de Guadalajara.
A montadora do belo filme “A Máquina” (Direção de João Falcão) e ganhadora do kikito de ouro (filme “Carreiras”, direção de Domingos de Oliveira) emite pensamentos fortes, reflexivos e comprometidos com o engajamento do profissional da sétima arte, além de frisar a necessidade de ser humilde e aprender com outros profissionais fazendo assistência por exemplo
Natara nos recebe em sua produtora carioca, Arrudeia Filmes, para esta entrevista.

O Hélio: Como o cinema entrou na sua vida? Como que você entrou nesta estrada? Ele que te escolheu ou foi você?

Natara Ney: Na verdade, o cinema não foi minha primeira escolha. Eu sou de Recife, né...em 1986 entrei na faculdade, e o curso de cinema não existia, e não se fazia longas metragem em Recife. Tinha o Cláudio Assis, Lírio e Paulo fazendo uns curtas, mas não tinha, por exemplo, moviolas para montarmos esses filmes, não tinha laboratório ou equipamentos para estudarmos. Eu entrei na faculdade para fazer jornalismo. Meu primeiro estágio foi na TV Pernambuco. E todo mundo queria ser repórter de rua ou apresentador. Eu não me via fazendo essas coisas. Eu preferia escrever, ficar por trás das câmeras. Mas, eu achava que a TV seria um meio interessante de aprender mais coisas sobre jornalismo. Eu acho interessante essa coisa de fazer a informação chegar rápida ao espectador acho emocionante a adrenalina no jornalismo diário, ao vivo sem margem para erros, sem poder refazer . Quando eu entrei lá na TV, a primeira coisa que eu vi foi uma ilha de edição. Daí eu perguntei o que era feito ali, e me disseram: aqui se editam as matérias que vão ao ar no jornal. Daí eu falei comigo: então é isso aqui que eu quero fazer.


O.H: Te veio isso de cara, assim? Esse insight veio na hora?

Natara: Foi, foi de cara. Comecei na edição e não parei mais. No inicio, editava as matérias de jornalismo assim que elas chegavam da rua. E foi uma coisa que eu fui gostando de desenvolver, de ver que eu poderia contar uma mesma história de várias formas. Nesse mesmo período, a TV Pernambuco passou por algumas reformas, que foi quando Miguel Arraes assumiu. Reforma que trouxe o Lírio Ferreira e o Paulo Caldas para fazerem coisas novas para a TV. E esses dois começaram a me mostrar novos horizontes. A gente começou a editar um programa que era sobre curta-metragem e eu fui vendo o que as pessoas estavam fazendo de cinema fora de Pernambuco, fui conhecendo outras formas de narrativa.

O.H: E nessa coisa de estágio, você foi ficando, né?...

Natara: Fui ficando. Depois, comecei a fazer umas coisas para a TV Viva, que eram minidocumentários feitos para serem exibidos nas praças. Era quase cinema!. Você preparava a peça e via a repercussão na comunidade. Eu fiquei encantada com aquilo

“O que eu vejo é que as pessoas saem da faculdade muito despreparadas”.

O.H: Muito legal!

Natara: A TV Viva tinha e ainda mantém um trabalho com a comunidade muito interessante.



O.H: Você acha difícil se profissionalizar em cinema? Acha utópica essa coisa da faculdade? Porque a gente vê um crescimento muito forte dos jovens querendo fazer cinema.

Natara: Eu acho que a faculdade é uma ferramenta boa, porque ela faz você encontrar com pessoas que têm propostas semelhantes com as suas. O que eu vejo é que as pessoas saem da faculdade muito despreparadas. Os laboratórios são muito fracos. Eu peguei muitos estagiários aqui egressos de faculdades e vi que eles não sabem se portar no trabalho, que eles não têm ideia do começo e do fim do trabalho. Eles não têm compromisso. Eu não vejo eles consumindo os filmes que são produzidos aqui no Brasil, eu não vejo eles aguerridos em criar uma linguagem. E quando eu vejo pessoas que estudaram cinema fora, eles vêm com uma formação e com um embasamento e com uma técnica mais aprofundada. O “cara” lá fora faz som, faz continuidade, faz produção, faz claquete ... então, quando ele volta ao Brasil, ele entende que o cinema envolve uma rede imensa de funções, que não se resumem apenas em diretor, roteirista e ator. Existe uma gama de funções! Você vê poucas pessoas saindo da faculdade querendo ser diretor de arte, roteirista, querendo ser continuístas, querendo fazer som. Como se isso fossem funções menores do cinema. E, na verdade, o cinema é um mosaico composto de vários elementos. Não existe um mais importante. Claro que é uma orquestra, que precisa de um maestro, de uma partitura mas, não existe só o maestro e a partitura. Cada instrumento da orquestra tem a sua função indispensável .

O.H.: Então, falta isso nas universidades brasileiras, no professor, no aluno?

Natara: Sim. Falta o aluno entrar na faculdade sabendo o que ele quer da faculdade. Por isso que, por exemplo, nos Estados Unidos, você entra na faculdade e você tem um ano fazendo diversas cadeiras aí, depois desse tempo, você escolhe as que mais combinam com você. Aqui não, antes de você fazer o vestibular, com dezesseis anos de idade – quando você não sabe nem o que quer da vida – você tem que escolher a sua carreira! Você entra na faculdade e fala: “eu vou fazer cinema”. Eu digo: “ Sim. Mas por que cinema? Para quê cinema?” Tem que saber se aquela é a sua vocação legítima.

O.H.: E você sabe se as universidades aqui do Brasil possuem muitos convênios com escolas de cinema estrangeiras?

Natara: Não sei, não pesquisei muito sobre isso. Um exemplo recente é que eu fui ao cineclube da PUC aqui do Rio e eu pensei: “Pó, as pessoas pagam R$1.000,00 para estarem nesta faculdade e o cineclube é isso!?”.

“Agora, eu acho também que existe o verdadeiro talento. Não adianta eu te contratar para ser o cantor da minha ópera se você não canta porra nenhuma”.

O.H.: Pouca estrutura física?

Natara: Pouca estrutura física. Exatamente. Acho que, quando o estudante chega decidido a fazer cinema, ele deveria ter uma orientação sobre o que é fazer cinema. Porque é uma área que cabem diversas outras áreas. Desde figurino até pesquisador, é um espaço imenso, e eu acho que, às vezes, as pessoas entram na faculdade sem serem orientadas sobre as possibilidades que elas têm lá dentro.


O.H.: E sobre o famoso “Quem Indica”? Sobre a famosa “panelinha” nas profissões. O pessoal costuma dizer que na área da comunicação isso é mais forte. Você concorda com isso, acha que o “Q.I “ inviabiliza caminhos?

Natara: Cara, eu acho que – em todo lugar – as conexões que você tem te ajudam. Isso é óbvio! Em todo lugar e em todo mundo tem isso, desde que o mundo é mundo. Agora, eu acho também que existe o verdadeiro talento. Não adianta eu te contratar para ser o cantor da minha ópera se você não canta porra nenhuma. Uma hora a verdade vem à tona. Mas todo mundo se utiliza dessa rede de conexão. É besteira pensar que alguém não se utiliza disso. Porque eu não vou ligar para a pessoa me conseguir um trabalho se eu conheço essa pessoa? E ela vai me dar esse trabalho se eu tiver competência para fazer. Eu tenho aqui vários estagiários, amigos de amigos, ou minhas afilhadas que foram minhas estagiárias.

O.H.: É aquele estágio camaradagem ou estágio regulamentado?

Natara: É estágio sério. Eu aprendo muito com as pessoas que vêm estagiar aqui e espero ensinar um pouco para elas também. Acho que ensino mais sobre compromisso do que exatamente sobre edição, O “quem indique” tem e vai ter sempre. É horrível! Mas, ao mesmo tempo, eu acho que se a pessoa não tem a vocação, não adianta. O legítimo prevalece acima de todas as coisas.


O.H.: Uma influência marcante?

Natara: Quando eu vim para cá, eu estava querendo trabalhar com cinema, com documentário. E em Recife, não tinha espaço profissional. Um filme era feito de quando em quando. Eu precisava, se eu quisesse desenvolver nessa carreira, até melhorar meu trabalho como editora, sair de Recife. Então, eu vim para o Rio de Janeiro. Então, Mair Tavarez, que é um montador brasileiro, tinha um projeto aqui no Rio, junto com o Walter Clarck, que era a Multirio. Aí eu vim, mas esse projeto não rolou para mim. Mesmo assim, fiquei aqui sem conhecer ninguém, fiquei uns dois ou três anos dormindo em quarto de empregada, ou no sofá da casa de um, de outro. Enfim, foram anos bem complicados. Aí, eu arranjei um estágio numa produtora aqui no Rio.

O.H.: E como foi?

Natara: Eu fazia o que ninguém queria, nos piores horários. A edição ainda era linear. Então meu trabalho consistia básicamente em preparar o material para o editor montar no dia seguinte. Eu pegava as diversas fitas, assistia, decupava e deixava anotado para o editor onde é que estava tal e tal plano. E isso é claro que me deu um aprendizado incrível, eu fui conhecendo várias produtoras, conhecendo novas equipes. E eu fiz muita assistência. Eu acho que é uma excelente oportunidade para todo mundo que está começando fazer assistência. Assistência de tudo.

O.H.: Por quê?

Natara: Eu fiz muita assistência de montagem, e você está ali vendo alguém resolvendo problemas e aí você aprende com aquela pessoa. E como eu fiz assistência para várias pessoas, eu tive vários mestres! Pessoas geniais!

“... de todas as profissões do cinema, a única que é original do cinema é o montador”.

O.H.: Quem?

Natara: (Risos) Ah, de todas as pessoas com quem trabalhei, adoro o João Paulo Carvalho, adoro a Jordana Berg, adoro a Vânia Debs. Mas assim, o Mair, é o cara que eu tenho mais admiração como profissional e como ser humano. Acho que ele é genial! Porque ele tem uma generosidade, uma inteligência, um jeito de pensar o filme que é brilhante. É quase como se ele visse...ele vê aquele filme como ninguém viu ainda. Ele vê a escultura dentro da pedra. É incrível você vê ele tirando os excessos.

O.H.: Ele tem o corte certo, né?

Natara: Não é só corte, é a estrutura. Porque montagem é estrutura. Entendeu? Não adianta eu ter várias seqüências lindamente montadas se elas não fazem um link entre si. Se elas não contam a história. Então, montagem é mais estrutura. Às vezes, a sequência nem te convence tanto, mas a estrutura interna foi tão bem narrada que o conjunto é que te leva. Montagem também é respiração. Se o cara não sabe respirar, ele não sabe montar.

O.H.: Você tem algum exemplo de filme que lhe impactou?

Natara: Eu acabo vendo mais séries no momento. (Risos). Tem filmes que podem ter três horas e meia, mas que te levam sem você nem perceber. E tem filmes que tem uma hora e que em quinze minutos você quer levantar do sofá.

“A Máquina”, é um filme em que a gente, eu e João Falcão estudamos muito a linguagem que usaríamos. Por várias razões, era uma adaptação de teatro, João adaptou o livro da Adriana Falcão e depois eles adaptaram para cinema. Este filme é um exemplo do exercício de montagem, porque o filme brinca com tudo. Tem horas que é um videoclipe, tem horas que é um romance, tem horas que é aventura. É um exercício de montagem.






O.H.: É nova esta nomenclatura do montador de cinema?

Natara: Acaba sendo novo o nome, mas de todas as profissões do cinema, a única que é original do cinema é o montador. O diretor de arte, por exemplo, já existia no teatro. Mas, montagem é inerente ao cinema, ela nasceu com o cinema.

O.H.: Há muita produção bibliográfica sobre este assunto? Qual livro você indicaria?

Natara: Eu li poucos livros sobre montagem, li o Esculpindo o tempo do Andrei Tarkovsk e tem um livro que eu amo que se chama “Num piscar de olhos”, do Walter Murch.
“Então, eu gosto de um cinema que me tire do lugar de conforto. Mesmo que seja um filme de ação ou um blockbuster”.


O.H.: Qual escola de cinema que você daria como dica para a pessoa estudar cinema, se aprofundar mais?

Natara: Cara, eu agora, por exemplo, estou com muita vontade de fazer um curso na Darcy Ribeiro porque o Ruy Guerra está lá. E o Ruy Guerra é uma dessas pessoas do fazer cinema que me encanta muito. Pessoas que me encantam no cinema: Ruy, Lírio, Mair, Paulo Caldas, Rosane, Gustavo Hadba; porque eu vejo que são pessoas comprometidas com o cinema que eu gosto.

O.H.: Qual é o que você gosta?

Natara: Eu gosto do cinema que me arrebata, que sai do conformismo. Mesmo que seja uma história de amor. Amor é o tema mais caro para mim. Mas que se conte essa história de amor com forma e conteúdo.

O.H.: A gente pode voltar no filme “A Máquina”. É uma história de amor com muita forma e conteúdo.

Natara: Exatamente. Ali, o João encontrou um jeito de contar uma história de amor. Esse cinema que o João (Falcão) fez me encanta muito. Então, eu gosto de um cinema que me tire do lugar de conforto. Mesmo que seja um filme de ação ou um blockbuster.

O.H.: Você é contra blockbuster?

Natara: Eu não sou contra nada. Eu sou contra um filme ruim. E um filme ruim independe da verba que ele tem. Dez mil ou dez milhões. Por exemplo, eu adoro faroeste! Adoro! Mas, tem faroestes péssimos e outros, maravilhosos.

O.H.: Você chegou a ver o filme do Daniel Ribeiro chamado “Café com Leite” ou aquele “ Eu não quero voltar sozinho”?

Natara: Ah, eu vi agora o “Eu não quero voltar sozinho” em Guadalajara e adorei o meu filme também a personagem é cega.



O.H.: Seu atual trabalho qual é?

Natara: Eu fiz um curta-metragem chamado “Um outro ensaio”. Ganhamos no Festival do Rio como melhor curta. Não posso deixar de lembrar de um trabalho que fiz que me marcou muito, o documentário “O Mistério do Samba”. Aprendi muito com a Velha Guarda da Portela. E também quero lembrar a Monique Gardenberg. É um prazer trabalhar com ela! Monique escuta de um tudo, desde a banda inglesa que toca em garagem e nunca ninguém ouviu até uma banda que está fazendo sucesso no Uruguai! (Risos). As referências de Monique são excelentes. Ela sempre me manda músicas maravilhosas e que me deixam na dúvida para escolher qual será usada. Acho que eu fico parceira dos meus diretores aprendo muito com eles, Rosane Svartman por exemplo virou irmã, pensamos muito parecido.

O.H.: E o que significa Arrudeia, o nome que batiza a sua produtora?

Natara: Arrudeia é um termo de Recife. Arrudear é dar a volta. Quando tem um obstáculo no caminho, a gente dá a volta. Arrudeia e pronto. (Risos).

OBS: A foto 1 desta matéria foi encontrada no seguinte link: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://1.bp.blogspot.com/_U9_ieMRD_v4/TK4iTQlH7tI/AAAAAAAAAJg/JRjamvAU4L0/s1600/Andre%2BMaceira%2B-%2BODEON%2B05out%2BCurta%2B-metragem%2Bvoto%2Bpopular%2B-%2B005%2B(Natara%2BNey,%2Bdiretora%2Bde%2BUm%2BOutro%2BEnsaio).jpg&imgrefurl=http://cinemaemsintonia.blogspot.com/2010_10_01_archive.html&usg=__6PTSLUqsDKHOa_UT5Xxj73wZPqc=&h=1065&w=1600&sz=116&hl=pt-BR&start=4&sig2=aYSMz1tOV_EKOkST7SXHSw&zoom=1&um=1&itbs=1&tbnid=fndkPwZkc7FunM:&tbnh=100&tbnw=150&prev=/search%3Fq%3Dnatara%2Bney%26um%3D1%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DN%26rlz%3D1R2ADFA_pt-BRBR392%26biw%3D1259%26bih%3D551%26tbm%3Disch&ei=tCSzTf_5I8K10QHq_pD1CA

sexta-feira, 8 de abril de 2011

CANTO DE ALEGRIA E PAZ



Por Pedro Paulo Rosa
Revisão Textual: Paulo Cappelli
Foto: Pedro Paulo Rosa

Hoje é um dia diferente para o Rio de Janeiro. Ninguém consegue esconder a perplexidade diante ao horror da chacina ocorrida em Realengo, onde 13 crianças foram assassinadas na Escola Municipal Tasso da Silveira.

Teresa Cristina, durante o intervalo do show, cede um bate papo ao Hélio. Ela assume estar muito chocada e triste. Conforme afirma, o que a move é a fé, e é por isso que conseguiu subir ao palco para – com o poder da música – conseguir alegrar ao público. Com a casa lotada, Teresa conduz um show fino, delicado e com a sua bela marca autoral. Integrados, os músicos do Grupo Semente correspondem no mesmo nível do brilho da cantora carioca, que foi uma das responsáveis por revitalizar a Lapa.

Reconhecida não só no Brasil, mas também no exterior (cantou na Alemanha, Índia, Holanda, Bulgária e Japão), a marca principal dela é fazer um samba de raiz ligado ao momento atual da música popular brasileira. No bate papo, passamos por suas parcerias musicais, seus antigos trabalhos, a ligação com a mãe (Dona Hilda) e pelo atual DVD, “ Melhor Assim”, no qual gravou com músicos do “quilate” (como ela mesma diz) de Caetano Veloso, Arlindo Cruz, Marisa Monte, Seu Jorge e Lenine.

O Hélio: Que belo show, Teresa!

Teresa Cristina: Está tão difícil cantar hoje (suspiros). Fico pensando em como as crianças vão conseguir voltar lá para estudar. E o que pode passar na cabeça desse cara!?

O.H.: Há diferença entre a Teresa que faz canções e a Teresa que sobe ao palco para entoar canções?

“CANTAR COM CAETANO É CANTAR COM UM ÍDOLO”

Teresa: Acho que são momentos diferentes. O momento de compor, por exemplo, é um outro momento. São duas atividades que amo fazer. Canto na noite há mais de dez anos. A música para mim é muito poderosa. Eu quero muito que ela anime as pessoas, celebre, e que ela consiga trazer algo bom de volta para todos nós.

O.H.: Poderosa em que sentido?
Teresa: A música consegue, com tamanha espontaneidade e beleza, juntar muitas pessoas diferentes num mesmo espaço, cantando a mesma coisa, celebrando junto, é muito bonito.

O.H.: Tem várias parcerias de composição. Como você conheceu o Arlindo Cruz?

Teresa: Conheço o Arlindo faz muito tempo. Certo dia, ele me convidou para cantar com ele no pagode que ele fazia na FM O DIA. Depois, nós nos apresentamos no Teatro Rival e a parceria se fortaleceu. Inclusive, temos uma música bem interessante chamada “Oferendas”.

O.H.: E como é que a música entrou na sua vida?

Teresa: Entrou desde sempre, desde criança. Acho que entrou pela voz da minha mãe. Na minha casa sempre tinha ligado um rádio ou uma vitrola. Sempre! (Risos). Lá em casa, minha mãe cantava muito Roberto Carlos e eu cresci escutando o rádio e a voz dela.

O.H.: E como é que fica o coração cantando hoje ao lado de sua mãe?

Teresa: Ah, mamãe sonhava em ser cantora. Acho que eu realizo o sonho dela quando canto com ela no palco.

O.H.: Como é a receptividade do público estrangeiro diante do samba, da MPB de modo geral?

Teresa: A melhor possível. Eles são muito carinhosos, sentem muito carinho pela cultura brasileira. O nosso país é muito bem visto lá fora, por mais que uns falem que não. Com todos os problemas, a cultura brasileira é muito bem vista. Somos vistos como um povo unido, trabalhador e donos de uma música boa. O Japão, por exemplo, é um país incrível! Só o fato de um japonês falar português, para mim, já é uma prova de amor. Porque a língua deles possui signos linguísticos tão diferentes dos nossos! Já cantei também em Amsterdã, na Índia, na Bulgária, em Moscou e na Alemanha.



Fachada do Centro Cultural Carioca

O.H.: Tem alguma parceria mais marcante?

Teresa: Cada parceria tem uma história. Tenho músicas com João Callado, com Lula Queiroga, com o Arlindo Cruz, dentre outros. Mas cada uma dessas parcerias tem o seu lugar especial na minha vida. Por exemplo, cantar ao lado de Caetano é cantar com um ídolo. Caetano é estrela de quilate maior na música brasileira. Ele foi muito nobre de me convidar para subir ao palco com ele. Caetano nem me conhecia! Isso é muito raro, porque geralmente convidamos amigos, sobrinhos, primos. Fiquei muito surpresa e feliz (risos).

O.H.: O seu novo trabalho, “Melhor Assim”, agrega muitos talentos. Marisa Monte, Caetano Veloso, Lenine, Arlindo Cruz e outros grandes.

Teresa: Pois é, e a minha idéia inicial era que tivesse Caetano, pelo menos, na plateia da gravação do DVD. Mas ele cantou comigo para a gravação também! A Marisa conhece o meu trabalho desde sempre e costuma me deixar muito perto das coisas que ela faz; nós nos conhecemos através da Velha Guarda da Portela.

O.H.: A bela música que vocês cantam, “Beijo Sem” é de composição da Adriana Calcanhotto, como é que é isso?

Teresa: Pois é, a Adriana nos presenteia o tempo todo. Muita gente diz que eu tenho delicadeza para cantar, mas acho que a Adriana tem uma delicadeza genuína. Ela não é nem um pouco pretensiosa. As coisas que ela escolhe para falar nas músicas eu vejo dentro dela.



O.H.: A pirataria lhe incomoda?

Teresa: Não incomoda. Até porque, dificilmente vejo discos meus pirateados na rua. Não é que não tenha, mas quase não vejo. Mas, eu também nunca ganhei um disco de ouro! (Risos)

O.H.: É sua meta conseguir disco de ouro?

Teresa: Pode ser meta da gravadora, minha não! Minha meta é gravar.

O.H.: A inspiração para compor é diária?

Teresa: Não é diária, mas até pode ser. Depende muito. Tem vezes que a música desce de uma vez. Rapidinho. Outras vezes, demora mais.

O.H.: Como nasceu o Grupo Semente?

Teresa: Na época, eu queria juntar músicos que conhecessem a obra do Candeia, e conseguimos firmar esta parceria na finalidade desse show em homenagem ao Candeia. Mas, a parceria acabou ficando até hoje!

O.H.: A parceria com Jussara Silveira e Rita Ribeiro no CD “As três meninas do Brasil” foi uma parceria sua que também deu muito certo. Pensam em repetir?

Teresa: Foi um trabalho muito interessante de fazer, muito legal. Sim, se tivermos a oportunidade de repetir, com certeza. Lançamos este CD pelo selo da Biscoito Fino.

O.H.: Algum novo trabalho em mente após o “Melhor Assim”?

Teresa: Quero lançar CD este ano, mas não sei se vai dar por conta da correria. Estou ensaiando com o grupo “Os Outros”, um pessoal que só canta músicas do Roberto Carlos.

O.H.: Qual seu próximo show depois de hoje?

Teresa: Na sexta (08/04) estamos no “Carioca da Gema” e sábado no Complexo do Salgueiro com o pessoal da CUFA.

O.H.: Você é uma mulher muito religiosa? Como é Deus para a Teresa Cristina?

Teresa: Eu gosto quando a música me ajuda a propagar a religião. A fé. Música é juntar muita gente diferente num mesmo lugar. Como a devoção também faz. Sou umbandista, e me considero muito religiosa. Sou 100% fé. A fé que me põe para frente. Que me faz cantar hoje.

Teresa agrega, harmoniza com seu olhar compassivo e de sabedoria. Abençoa a todos nós com sua voz.


Agradecimentos:

Centro Cultural Carioca (Isnard Manso)
Rick Werneck